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Endividamento avança no país, e renda extra vira saída para quase metade dos brasileiros

O cartão de crédito ganhou peso ainda maior na sobrevivência financeira, com 57% da população usando essa forma de pagamento, inclusive para supermercado e contas básicas, enquanto 51% dizem que é difícil fechar o mês sem recorrer ao cartão.
Falta de dinheiro, dívidas e corte de gastos expõem novo retrato do aperto financeiro no Brasil
Falta de dinheiro, dívidas e corte de gastos expõem novo retrato do aperto financeiro no Brasil - Crédito: Gustavo / Adobe Stock

Resumo da Notícia

  • 45% dos brasileiros buscaram renda alternativa nos últimos meses, e 59% consideram a renda familiar insuficiente para cobrir as despesas.
  • Entre os que ganham até dois salários mínimos, 7 em cada 10 relatam que o dinheiro não cobre os custos diários.
  • O endividamento atinge 67% dos brasileiros, com 21% em atraso nos pagamentos; cartão de crédito parcelado lidera as dívidas.
  • 27% dos brasileiros usam crédito rotativo, que possui juros médios de 14,9% ao mês, com limite anual de 100% desde 2024.
  • A dificuldade financeira é considerada "apertada" para 27% e "severa" para 18% da população, totalizando 45% sob forte pressão no orçamento.
  • Apenas 44% dos brasileiros fazem orçamento detalhado, e 66% não possuem nenhuma reserva financeira.
  • Metade da população reduziu consumo de água, luz e gás, e 40% deixaram de pagar alguma conta.

A pressão sobre o orçamento das famílias brasileiras aparece em várias frentes ao mesmo tempo. Quarenta e cinco por cento dos brasileiros afirmam ter buscado alguma fonte alternativa de renda nos últimos meses, enquanto 59% dizem que a renda familiar é insuficiente, em algum grau, para pagar as despesas, segundo pesquisa do Datafolha divulgada nesta segunda-feira (27).

No grupo com renda de até dois salários mínimos, o aperto é ainda maior: sete em cada dez relatam que o dinheiro que entra em casa não cobre os custos do dia a dia. Em paralelo, quatro em cada dez entrevistados disseram ter tido redução de renda no período recente.

O quadro ajuda a explicar por que tanta gente passou a procurar atividades paralelas, inclusive fora do mercado formal. Especialistas apontam que esse movimento acontece em um momento de mercado de trabalho aquecido, mas com remuneração considerada insuficiente para acompanhar o custo de vida.

Quem mais está buscando renda complementar

A procura por renda extra aparece com mais força entre pessoas com ensino médio e superior. Já entre entrevistados com ensino fundamental, esse movimento é menor, grupo em que há menos pessoas ocupadas ou em busca de emprego, além de maior presença de aposentados e donas de casa.

Esse recorte mostra que a busca por reforço no orçamento não está restrita a quem está fora do mercado. Em muitos casos, ela surge justamente entre pessoas que já trabalham, mas não conseguem fazer a renda principal dar conta das despesas do mês.

Endividamento avança e atraso já atinge parte importante da população

Em outro levantamento recente, o Datafolha mostrou que 67% dos brasileiros têm algum tipo de dívida financeira, como empréstimos. O mesmo estudo aponta que 21% da população está com pagamentos em atraso, sinal de avanço da inadimplência.

A situação fica ainda mais delicada entre quem recorreu a amigos e familiares. Nesse grupo, 41% afirmam estar devendo. Entre as dívidas em atraso, o cartão de crédito parcelado lidera, citado por 29% dos entrevistados. Depois aparecem os empréstimos bancários, com 26%, e os carnês de lojas, com 25%.

O uso do crédito rotativo também chama atenção. Vinte e sete por cento dos brasileiros dizem usar essa modalidade com alguma frequência, sendo 5% de forma recorrente. De acordo com o Banco Central, o rotativo tem juros médios de 14,9% ao mês, com limite anual de 100% desde 2024.

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O aperto não está concentrado só em empréstimos e cartão. A pesquisa mostra que 28% dos brasileiros estão com contas de consumo e serviços em atraso. Entre os principais débitos aparecem telefone, celular e internet (12%), tributos como IPTU, IPVA e carnê-leão (12%), além de contas de luz (11%) e água (9%).

No cotidiano, a reação tem sido cortar gastos e rever hábitos. Sessenta e quatro por cento disseram ter reduzido despesas com lazer. Outros 60% passaram a comer menos fora de casa ou trocaram marcas por opções mais baratas. Já 52% afirmam ter diminuído a quantidade de alimentos comprados.

A pressão também chegou aos gastos básicos. Metade dos entrevistados declarou ter reduzido o consumo de água, luz e gás. Além disso, 40% deixaram de pagar alguma conta e 38% interromperam o pagamento de dívidas ou reduziram a compra de medicamentos.

Nível de aperto financeiro e preocupação com dinheiro

O Datafolha também mediu a intensidade da dificuldade financeira. O resultado mostra que 27% vivem em situação considerada “apertada” e 18% em condição “severa”. Somados, são 45% dos brasileiros sob forte pressão no orçamento. Outros 36% estão em situação moderada, e apenas 19% se classificam em condição leve ou sem restrições.

Não por acaso, o dinheiro virou a principal preocupação pessoal dos entrevistados. Trinta e sete por cento citaram problemas ligados à vida financeira, como falta de renda, endividamento e custo de vida. A resposta individual mais frequente foi “questões financeiras/falta de dinheiro/renda”, mencionada por 27%.

Cartão de crédito pesa no orçamento e organização financeira segue frágil

O levantamento mostra que 57% dos brasileiros usam cartão de crédito. Dentro desse grupo, 13% parcelam compras de supermercado com frequência e 4% fazem o mesmo com contas básicas, como água e luz. Há ainda 5% que dizem pagar a fatura de um cartão com o limite de outro com frequência, enquanto 10% fazem isso ocasionalmente.

A percepção de risco nesse uso do crédito também é elevada. Sessenta e oito por cento concordam que ofertas feitas por celular ou internet incentivam gastos por impulso, e 51% afirmam que é difícil fechar as contas do mês sem usar cartão de crédito.

Ao mesmo tempo, a pesquisa aponta fragilidade na organização das finanças pessoais. Apenas 44% dizem fazer um orçamento detalhado, enquanto 23% não realizam qualquer tipo de controle de gastos.

Falta de reserva agrava insegurança

A ausência de poupança também pesa. Sessenta e seis por cento afirmam não ter nenhuma reserva financeira. Entre os que têm alguma proteção, 12% conseguiriam manter as despesas por menos de três meses em caso de perda de renda, e 10% por um período de três a seis meses.

Esse quadro se reflete até na leitura sobre o ambiente econômico do país. Quarenta e nove por cento da população dizem se sentir mal ou muito mal em relação à situação financeira do Brasil.

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