Resumo da Notícia
A pressão sobre o orçamento das famílias brasileiras aparece em várias frentes ao mesmo tempo. Quarenta e cinco por cento dos brasileiros afirmam ter buscado alguma fonte alternativa de renda nos últimos meses, enquanto 59% dizem que a renda familiar é insuficiente, em algum grau, para pagar as despesas, segundo pesquisa do Datafolha divulgada nesta segunda-feira (27).
No grupo com renda de até dois salários mínimos, o aperto é ainda maior: sete em cada dez relatam que o dinheiro que entra em casa não cobre os custos do dia a dia. Em paralelo, quatro em cada dez entrevistados disseram ter tido redução de renda no período recente.
O quadro ajuda a explicar por que tanta gente passou a procurar atividades paralelas, inclusive fora do mercado formal. Especialistas apontam que esse movimento acontece em um momento de mercado de trabalho aquecido, mas com remuneração considerada insuficiente para acompanhar o custo de vida.
Quem mais está buscando renda complementar
A procura por renda extra aparece com mais força entre pessoas com ensino médio e superior. Já entre entrevistados com ensino fundamental, esse movimento é menor, grupo em que há menos pessoas ocupadas ou em busca de emprego, além de maior presença de aposentados e donas de casa.
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Esse recorte mostra que a busca por reforço no orçamento não está restrita a quem está fora do mercado. Em muitos casos, ela surge justamente entre pessoas que já trabalham, mas não conseguem fazer a renda principal dar conta das despesas do mês.
Endividamento avança e atraso já atinge parte importante da população
Em outro levantamento recente, o Datafolha mostrou que 67% dos brasileiros têm algum tipo de dívida financeira, como empréstimos. O mesmo estudo aponta que 21% da população está com pagamentos em atraso, sinal de avanço da inadimplência.
A situação fica ainda mais delicada entre quem recorreu a amigos e familiares. Nesse grupo, 41% afirmam estar devendo. Entre as dívidas em atraso, o cartão de crédito parcelado lidera, citado por 29% dos entrevistados. Depois aparecem os empréstimos bancários, com 26%, e os carnês de lojas, com 25%.
O uso do crédito rotativo também chama atenção. Vinte e sete por cento dos brasileiros dizem usar essa modalidade com alguma frequência, sendo 5% de forma recorrente. De acordo com o Banco Central, o rotativo tem juros médios de 14,9% ao mês, com limite anual de 100% desde 2024.
O aperto não está concentrado só em empréstimos e cartão. A pesquisa mostra que 28% dos brasileiros estão com contas de consumo e serviços em atraso. Entre os principais débitos aparecem telefone, celular e internet (12%), tributos como IPTU, IPVA e carnê-leão (12%), além de contas de luz (11%) e água (9%).
No cotidiano, a reação tem sido cortar gastos e rever hábitos. Sessenta e quatro por cento disseram ter reduzido despesas com lazer. Outros 60% passaram a comer menos fora de casa ou trocaram marcas por opções mais baratas. Já 52% afirmam ter diminuído a quantidade de alimentos comprados.
A pressão também chegou aos gastos básicos. Metade dos entrevistados declarou ter reduzido o consumo de água, luz e gás. Além disso, 40% deixaram de pagar alguma conta e 38% interromperam o pagamento de dívidas ou reduziram a compra de medicamentos.
Nível de aperto financeiro e preocupação com dinheiro
O Datafolha também mediu a intensidade da dificuldade financeira. O resultado mostra que 27% vivem em situação considerada “apertada” e 18% em condição “severa”. Somados, são 45% dos brasileiros sob forte pressão no orçamento. Outros 36% estão em situação moderada, e apenas 19% se classificam em condição leve ou sem restrições.
Não por acaso, o dinheiro virou a principal preocupação pessoal dos entrevistados. Trinta e sete por cento citaram problemas ligados à vida financeira, como falta de renda, endividamento e custo de vida. A resposta individual mais frequente foi “questões financeiras/falta de dinheiro/renda”, mencionada por 27%.
Cartão de crédito pesa no orçamento e organização financeira segue frágil
O levantamento mostra que 57% dos brasileiros usam cartão de crédito. Dentro desse grupo, 13% parcelam compras de supermercado com frequência e 4% fazem o mesmo com contas básicas, como água e luz. Há ainda 5% que dizem pagar a fatura de um cartão com o limite de outro com frequência, enquanto 10% fazem isso ocasionalmente.
A percepção de risco nesse uso do crédito também é elevada. Sessenta e oito por cento concordam que ofertas feitas por celular ou internet incentivam gastos por impulso, e 51% afirmam que é difícil fechar as contas do mês sem usar cartão de crédito.
Ao mesmo tempo, a pesquisa aponta fragilidade na organização das finanças pessoais. Apenas 44% dizem fazer um orçamento detalhado, enquanto 23% não realizam qualquer tipo de controle de gastos.
Falta de reserva agrava insegurança
A ausência de poupança também pesa. Sessenta e seis por cento afirmam não ter nenhuma reserva financeira. Entre os que têm alguma proteção, 12% conseguiriam manter as despesas por menos de três meses em caso de perda de renda, e 10% por um período de três a seis meses.
Esse quadro se reflete até na leitura sobre o ambiente econômico do país. Quarenta e nove por cento da população dizem se sentir mal ou muito mal em relação à situação financeira do Brasil.
