Resumo da Notícia
O fortalecimento do El Niño pode voltar a pressionar o preço da comida no Brasil nos próximos meses. Um modelo matemático desenvolvido pelo Rabobank estima que, em um cenário de evento forte, os alimentos in natura podem acumular alta de até 19,9% em 12 meses, com os efeitos mais intensos aparecendo aproximadamente seis meses depois dos choques climáticos sobre a produção.
O percentual, porém, não representa uma previsão de aumento de 20% para toda a cesta de alimentos. No mesmo cenário analisado pelo banco, a alimentação no domicílio teria avanço estimado de 6,32%. O impacto total dos alimentos poderia acrescentar cerca de 0,83 ponto percentual à inflação oficial medida pelo IPCA.
As projeções foram apresentadas em levantamento do Rabobank divulgado neste domingo (23). O modelo utiliza o histórico de episódios anteriores do El Niño no Brasil para relacionar a intensidade do fenômeno climático ao comportamento dos preços dos alimentos.
O estudo também calculou o que ocorreria em um episódio de intensidade moderada.
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Nesse cenário, os alimentos in natura poderiam subir 13,4% em 12 meses, enquanto a alimentação consumida dentro de casa teria alta de aproximadamente 2%.
O impacto combinado sobre o IPCA seria estimado em 0,41 ponto percentual.
No cenário forte, além da alta de 19,9% dos produtos in natura, o modelo projeta crescimento de 3,6% nos alimentos semi-elaborados e de 1,4% nos industrializados.
| Cenário | Alimentos in natura | Alimentação no domicílio | Efeito estimado no IPCA |
|---|---|---|---|
| El Niño moderado | 13,4% | 2% | +0,41 p.p. |
| El Niño forte | 19,9% | 6,32% | +0,83 p.p. |
Os números representam cenários econométricos construídos a partir de eventos passados. Portanto, não significam que essas altas necessariamente ocorrerão.
Hortaliças podem sentir efeitos primeiro
As hortaliças estão entre os produtos mais sensíveis porque possuem ciclos de produção relativamente curtos. Mudanças bruscas de temperatura, falta de chuva ou excesso de precipitação podem alterar rapidamente a oferta disponível ao consumidor.
Se o fenômeno se mantiver intenso, produtos vinculados a safras maiores também entram no radar.
Entre os itens citados por especialistas estão milho, café, frutas, laranja, cana-de-açúcar, trigo e arroz. O leite também pode sofrer influência conforme as condições das pastagens e o regime de chuvas nas principais regiões produtoras.
As carnes podem ser afetadas de forma indireta por alterações na disponibilidade de pastagens e pelo custo de grãos utilizados na alimentação dos animais.
El Niño está se fortalecendo
O risco climático deixou de ser apenas uma hipótese de formação do fenômeno.
A NOAA confirmou o El Niño em junho e, na atualização divulgada em agosto, informou que o sistema está se fortalecendo rapidamente no Oceano Pacífico Equatorial.
A agência norte-americana calcula probabilidade superior a 90% de ocorrência de um El Niño muito forte durante os próximos trimestres.
O Inmet também vem acompanhando o mesmo cenário. O órgão brasileiro aponta tendência de chuvas acima da média em partes do Sul e volumes mais baixos no centro-norte do país, além de temperaturas elevadas em diversas regiões.
O Portal N10 já acompanha desde junho a evolução do fenômeno, quando a NOAA confirmou sua formação e indicou possibilidade de fortalecimento significativo ao longo do segundo semestre.
Nordeste pode ter menos chuva, mas efeito nos preços não é automático
Para Norte e Nordeste, os órgãos oficiais apontam risco de chuvas mais irregulares e abaixo da média, especialmente à medida que o fenômeno ganhar força.
Isso pode afetar culturas dependentes de chuva e áreas de pecuária, mas os efeitos não serão iguais para todos os produtos.
Em algumas situações, tempo mais seco pode inclusive favorecer determinadas etapas de colheita. O Inmet já apontou, por exemplo, que condições de menor precipitação podem beneficiar a colheita do feijão em partes do Nordeste.
Por isso, não é possível concluir que todos os produtos produzidos na região ficarão mais caros apenas pela presença do El Niño.
O alerta chega depois de um período de alívio para o consumidor.
Em julho, o IPCA subiu apenas 0,07%, enquanto o grupo Alimentação e bebidas caiu 0,67%. A alimentação no domicílio recuou 1,14% no mês.
Entre as principais quedas estavam tomate, batata-inglesa, cenoura e café moído.
No acumulado de 12 meses até julho, o IPCA ficou em 4,44%.
O cenário mostra por que o El Niño passou a ser acompanhado com atenção pelos economistas: um choque climático relevante poderia interromper ou reverter parte da queda recente dos alimentos.
Impacto pode chegar ao IPCA
O modelo do Rabobank estima que um El Niño forte poderia acrescentar aproximadamente 0,83 ponto percentual ao IPCA por meio dos alimentos.
Isso não significa, porém, que seja correto simplesmente adicionar 0,83 ponto às atuais projeções para a inflação brasileira.
As projeções econômicas já incorporam diferentes riscos, inclusive climáticos, e podem ser revistas conforme o comportamento das safras, câmbio, custos de produção e oferta.
A Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda elevou em julho sua estimativa para o IPCA de 2026 de 4,5% para 5,1% e citou justamente a possibilidade de um El Niño mais intenso entre os fatores de risco para os preços agrícolas.
O Banco Central também trabalha com projeção de 5,1% para o IPCA de 2026 em seu cenário de referência mais recente.
Onde os efeitos podem aparecer primeiro
O estudo do Rabobank identificou diferenças na velocidade de transmissão dos choques climáticos entre as regiões metropolitanas analisadas.
Porto Alegre, Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro, Goiânia, Brasília, Fortaleza e Belém aparecem entre as localidades onde os efeitos poderiam chegar mais rapidamente aos preços.
Salvador e Recife apresentariam, inicialmente, um repasse mais gradual.
A principal cautela na interpretação do estudo está no número que mais chama atenção.
Os 19,9% são uma estimativa para alimentos in natura dentro de um cenário específico de El Niño forte. Não representam aumento previsto para todos os alimentos, para toda a cesta básica nem para o IPCA.
A alimentação no domicílio, que reúne uma cesta muito mais ampla de produtos, tem alta projetada de 6,32% nesse mesmo cenário.
O resultado efetivo dependerá de onde ocorrerão secas ou excesso de chuva, do desempenho das safras, dos estoques disponíveis, dos custos de produção e transporte e da própria intensidade e duração do fenômeno climático.
