E se Orwell estivesse falando sobre o nosso lado?
É fácil reconhecer propaganda, manipulação, hipocrisia e autoritarismo no adversário. O exercício mais difícil é aplicar a mesma régua a quem defendemos.
Resumo da Notícia
- George Orwell continua atual porque escreveu sobre poder, propaganda, linguagem, memória, privilégios e fidelidade política — questões que atravessam também o debate público brasileiro.
- 1984, A Revolução dos Bichos, Lutando na Espanha e o ensaio Política e a Língua Inglesa oferecem reflexões que não pertencem exclusivamente à esquerda ou à direita.
- Em plena eleição de 2026, inteligência artificial, conteúdos manipulados e polarização tornam ainda mais difícil separar fato, interpretação e propaganda.
- A provocação desta coluna não é descobrir qual político brasileiro se parece com um personagem de Orwell, mas perguntar se mantemos nossos princípios quando a crítica alcança o lado que escolhemos defender.
É muito fácil ler George Orwell pensando nos outros.
Talvez seja essa uma das razões para ele continuar aparecendo tanto nas discussões políticas. Quem teme censura lembra de 1984. Quem quer falar de privilégios recorre a A Revolução dos Bichos. Quando alguém acredita estar diante de propaganda, manipulação ou tentativa de controlar a narrativa, não demora para aparecer alguma referência ao Grande Irmão, ao Ministério da Verdade ou ao duplipensar.
Quase sempre Orwell está do nosso lado.
Ou, pelo menos, gostamos de imaginar que esteja.
Mas e se não estiver?
E se, em alguma página, ele estiver descrevendo um comportamento que reconhecemos imediatamente no adversário, mas que preferimos não enxergar quando aparece entre aqueles com quem concordamos?
Talvez seja aí que sua obra fique realmente interessante.
Orwell não pertence a uma torcida brasileira
Antes de transformar Orwell em arma de qualquer disputa atual, convém lembrar quem ele foi.
George Orwell tinha posições políticas bastante claras. Definia-se como socialista democrático e escreveu que sua produção séria, desde 1936, havia sido dirigida contra o totalitarismo e em defesa do socialismo democrático como ele o entendia. Ao mesmo tempo, sua experiência na Guerra Civil Espanhola aprofundou sua rejeição ao stalinismo e às formas autoritárias de exercício do poder.
Isso já deveria dificultar a tentativa de encaixá-lo confortavelmente nas divisões políticas brasileiras de 2026.
1984 não foi escrito sobre o Brasil.
A Revolução dos Bichos não é uma alegoria sobre Brasília.
Lutando na Espanha não antecipou nossas brigas nas redes sociais.
E ainda assim há algo profundamente atual naquilo que Orwell observava: a extraordinária capacidade humana de adaptar fatos, linguagem e princípios à conveniência política.
É aí que vale trazê-lo para a conversa.
Não para descobrir quem é o Grande Irmão brasileiro, mas para examinar comportamentos que podem aparecer em qualquer lado.
Inclusive no nosso.
O problema de 1984 vai muito além da vigilância
Quando se fala em 1984, muita gente pensa imediatamente em câmeras, monitoramento e no Grande Irmão observando tudo.
Está no livro, evidentemente. Mas reduzir a obra à vigilância deixa de fora talvez sua parte mais perturbadora.
O poder imaginado por Orwell tenta controlar não apenas aquilo que as pessoas fazem, mas aquilo que conseguem reconhecer como realidade. O passado pode ser reorganizado, registros podem mudar, contradições precisam ser assimiladas e a própria linguagem é submetida ao poder.
O Brasil de 2026 não é a Oceânia de Orwell.
Somos uma democracia com eleições competitivas, oposição, Parlamento, imprensa plural, Judiciário, organizações da sociedade civil e amplo espaço para crítica pública. Chamar qualquer conflito institucional contemporâneo de 1984 pode produzir um bom slogan, mas raramente produz uma análise séria.
Existe, porém, uma pergunta muito mais modesta e atual: o que acontece com uma democracia quando começa a ficar difícil até concordar sobre aquilo que efetivamente aconteceu?
A campanha eleitoral deste ano acrescentou uma variável que Orwell jamais conheceu.
A inteligência artificial permite criar imagens, alterar vídeos e reproduzir vozes com um nível de realismo que há poucos anos parecia reservado ao cinema. O Tribunal Superior Eleitoral atualizou para 2026 as regras sobre propaganda com conteúdo sintético, incluindo exigências de identificação e restrições específicas ao uso de material produzido ou alterado por IA.
Isso significa que entramos numa eleição em que ver um vídeo já não garante que aquela cena tenha ocorrido e ouvir uma voz não garante que aquelas palavras tenham sido pronunciadas por seu dono.
Orwell não conheceu deepfake.
Conheceu muito bem o valor político de controlar aquilo que as pessoas acreditam ser verdadeiro.
Mas nem sempre é preciso fabricar uma mentira
Existe uma forma muito mais simples de manipular percepção, e ela é muito anterior à inteligência artificial.
Basta selecionar.
Uma entrevista de meia hora pode ser transformada em quinze segundos. Uma decisão judicial de dezenas de páginas pode chegar às redes resumida em uma frase. Um indicador econômico pode ser apresentado sem a série histórica que mudaria sua interpretação. Uma declaração pode ganhar significado completamente diferente depois que desaparecem as frases anteriores e posteriores.
Nada precisa ser tecnicamente falso.
O material pode ser autêntico e, ainda assim, produzir uma compreensão profundamente distorcida.
É justamente por isso que a propaganda política não depende necessariamente da mentira inventada. Muitas vezes, ela trabalha com pedaços verdadeiros cuidadosamente escolhidos para construir uma realidade conveniente.
O problema fica ainda maior porque fazemos isso também como eleitores.
Quando uma informação confirma aquilo que já pensamos, nossa exigência de prova tende a cair. Quando contraria nossas convicções, descobrimos repentinamente grande interesse por metodologia, fonte, contexto e credibilidade.
Exigir contexto é correto.
A questão é saber por que nem sempre exigimos o mesmo contexto de tudo.
A Revolução dos Bichos faz uma pergunta ainda mais desconfortável
Talvez nenhuma obra de Orwell seja tão facilmente transportada para discussões políticas quanto A Revolução dos Bichos.
O livro nasceu como uma sátira ao stalinismo e precisa ser compreendido dentro dessa origem. Mas sobreviveu ao contexto histórico porque descreve um mecanismo que não desapareceu com aquele regime: a facilidade com que pessoas que chegam ao poder encontram justificativas para práticas que antes condenavam.
Isso aparece com frequência nas democracias.
Uma medida considerada absurda na oposição pode tornar-se compreensível no governo. Uma articulação parlamentar pode ser fisiologismo quando feita pelos outros e governabilidade quando feita pelos nossos. Um gasto pode ser irresponsabilidade ou investimento dependendo menos do valor e mais de quem o autorizou.
Uma decisão judicial pode ser recebida como prova de independência das instituições ou como ativismo intolerável.
Uma investigação pode representar perseguição política ou perfeito funcionamento do Estado.
Uma manifestação pode ser legítima expressão democrática ou ameaça à ordem.
Naturalmente, atos diferentes não podem ser tratados como equivalentes apenas porque parecem semelhantes. Contexto, legislação, circunstâncias e consequências importam.
O ponto não é esse.
A pergunta é se nossa régua muda antes mesmo de examinarmos essas diferenças.
Se defendemos um princípio apenas quando ele beneficia nosso grupo, talvez não estejamos defendendo um princípio.
Estamos defendendo o grupo.
O português político também esconde muita coisa
Há outro Orwell que aparece muito menos nas discussões populares sobre política.
Em 1946, no ensaio Política e a Língua Inglesa, ele escreveu sobre a deterioração da linguagem e sobre a maneira como determinadas construções políticas podem afastar as palavras das coisas concretas que deveriam descrever.
Talvez esse Orwell seja especialmente útil para o Brasil.
Nossa política possui um vocabulário capaz de acomodar quase qualquer situação.
Temos “ajuste”, “readequação”, “pacificação”, “governabilidade”, “narrativa”, “responsabilidade”, “defesa da democracia”, “perseguição política”, “justiça social”, “liberdade de expressão”.
Nenhuma dessas expressões é necessariamente enganosa. Muitas descrevem conceitos reais e importantes.
O problema aparece quando a palavra passa a funcionar como resposta.
Se houve ajuste, onde?
Se houve corte, quanto?
Se determinada ação representa perseguição, qual ato demonstra isso?
Se uma medida é necessária para proteger a democracia, que medida é essa, qual direito ela afeta e contra qual ameaça está sendo utilizada?
Se alguém denuncia censura, o que foi impedido de ser publicado, por quem e sob qual fundamento?
Se houve irresponsabilidade fiscal, quais números sustentam a acusação?
Uma palavra poderosa pode abrir uma discussão.
Não deveria encerrá-la.
Talvez uma das tarefas mais importantes do jornalismo seja justamente obrigar o adjetivo a encontrar o fato.
O teste mais difícil é quando o fato prejudica a nossa tribo
A experiência de Orwell na Guerra Civil Espanhola ajuda a entender outra dimensão desse problema.
Ele chegou à Espanha no fim de 1936, lutou nas fileiras do POUM, foi ferido no pescoço e precisou deixar o país depois que a organização foi declarada ilegal. A experiência teve enorme impacto sobre sua visão do totalitarismo e da propaganda política.
O que torna Lutando na Espanha particularmente interessante não é procurar uma equivalência impossível entre aquela guerra e a política brasileira.
É observar Orwell diante de informações que também eram inconvenientes para pessoas que estavam, em princípio, no mesmo campo de luta que ele.
Isso leva a uma pergunta que vale muito em 2026: o que fazemos quando um fato verdadeiro prejudica o lado pelo qual torcemos?
Talvez essa seja uma das provas mais difíceis da maturidade política.
É relativamente simples exigir investigação quando o investigado é alguém de quem não gostamos. Mais difícil é manter exatamente a mesma disposição quando aparece um nome que admiramos.
É fácil desconfiar da propaganda adversária.
Muito mais difícil é identificar a propaganda produzida para nós.
É fácil perceber o fanatismo da torcida do outro.
Reconhecer o nosso exige algum esforço.
Já tratei nesta coluna do problema de transformarmos políticos em celebridades e substituirmos fiscalização por torcida. A lógica é parecida: quanto maior a identificação emocional com uma liderança, mais difícil pode se tornar avaliá-la como aquilo que ela realmente é — alguém exercendo ou tentando exercer poder público.
Político não precisa de torcedor.
Precisa de eleitor.
E eleitor deveria poder mudar de opinião.
Primeiro descobrimos quem está envolvido. Depois escolhemos nossa indignação
Talvez esse seja um dos fenômenos mais curiosos da polarização.
Diante de uma nova denúncia, decisão, pesquisa, investigação ou declaração, muitas vezes a primeira informação que procuramos não é exatamente o que aconteceu.
Queremos saber quem está envolvido.
Depois que descobrimos, fica mais fácil organizar a reação.
Se é alguém próximo das nossas convicções, pedimos cautela. Queremos a íntegra. Aguardamos provas. Lembramos corretamente que ninguém deve ser condenado antecipadamente.
Se o personagem pertence ao campo adversário, algumas dessas precauções podem desaparecer em segundos.
E isso evidentemente acontece nos dois sentidos.
O problema não é pedir cautela.
Deveríamos pedi-la sempre.
O problema é distribuí-la seletivamente.
Esse mecanismo talvez ajude a explicar por que pessoas inteligentes conseguem sustentar posições completamente contraditórias sem necessariamente perceber a contradição. Não estão analisando apenas fatos. Estão defendendo identidades.
Ninguém gosta de admitir que sua própria turma errou.
A imprensa também precisa passar por essa régua
Seria confortável demais escrever uma coluna inteira sobre Orwell apontando apenas para políticos, militantes e eleitores.
Nós, jornalistas, também entramos nessa conversa.
Toda matéria envolve escolhas. O título escolhido, a fotografia, a ordem das informações, o espaço dado a uma declaração e aquilo que acaba ficando de fora interferem na maneira como um acontecimento será compreendido.
Isso não significa que jornalismo seja simplesmente opinião disfarçada.
Significa que justamente porque essas escolhas existem, a obrigação de manter critérios coerentes é ainda maior.
Se exigimos documentos de determinado governo, precisamos exigir do seguinte.
Se uma acusação ainda não foi comprovada, ela continua sendo acusação independentemente de quem seja o acusado.
Se determinado indicador precisa de contexto, deve recebê-lo quando ajuda e quando prejudica nossas expectativas.
Se erramos, corrigimos.
E se um veículo decide abandonar sistematicamente essa distância para proteger um grupo político, começa a desempenhar outro papel.
Também já escrevi nesta coluna sobre o avanço de sites que funcionam mais como assessorias políticas do que como instrumentos de fiscalização. A questão volta aqui porque Orwell não concede salvo-conduto à imprensa.
Quem fiscaliza o poder também precisa fiscalizar os próprios métodos.
Talvez estejamos citando Orwell demais e aplicando Orwell de menos
Há uma ironia nisso tudo.
É perfeitamente possível utilizar George Orwell para fazer exatamente aquilo que pretendemos denunciar: selecionar uma frase, retirar contexto, escolher um inimigo e transformar literatura em peça de propaganda.
Basta encontrar uma passagem conveniente, colocar ao lado da fotografia de algum político e declarar o mistério resolvido.
Não é necessário ler muito.
Talvez seja justamente por isso que referências a 1984 apareçam com tanta facilidade.
O problema é que Orwell fica menos útil quando serve apenas para confirmar o que já pensamos.
Sua obra ganha outra dimensão quando introduz dúvida.
Será que estamos usando as mesmas palavras para comportamentos equivalentes?
Será que exigimos a mesma transparência?
Será que nosso conceito de liberdade continua igual quando quem fala é alguém que detestamos?
Será que nossa preocupação com instituições permanece quando uma decisão institucional nos desagrada?
Será que desconfiamos de uma informação porque encontramos razões objetivas para isso ou simplesmente porque gostaríamos que ela fosse falsa?
Essas perguntas não possuem respostas automáticas.
Ainda bem.
O Brasil não virou 1984
Vale insistir nisso porque a comparação fácil faz mais mal do que bem.
O Brasil continua realizando eleições livres e competitivas. Em 4 de outubro de 2026, mais de 158 milhões de eleitores aptos poderão escolher presidente, governadores, senadores, deputados federais e deputados estaduais ou distritais.
Temos conflitos entre Poderes, investigações, decisões controversas, discursos duros, disputa política e discussões legítimas sobre limites institucionais.
Tudo isso pode e deve ser criticado.
Mas uma sociedade democrática em conflito não é automaticamente uma sociedade totalitária.
Comparar qualquer excesso, decisão desagradável ou tentativa de regulação ao universo completo de 1984 banaliza justamente aquilo que o romance mostra de mais assustador.
Orwell não precisa funcionar como diagnóstico pronto.
Pode funcionar como alerta.
E talvez seja muito mais útil assim.
E se Orwell estiver falando sobre o nosso lado?
Essa pergunta não exige que alguém abandone suas convicções políticas.
Não há nada errado em ser de esquerda, direita, centro ou não se identificar com nenhuma dessas categorias. Democracia pressupõe divergência.
Também não significa fingir que todos os comportamentos são iguais, que todos os governos fazem as mesmas coisas ou que qualquer conflito possui duas partes igualmente responsáveis.
A realidade raramente é tão simétrica.
O exercício é outro.
Significa perguntar se a nossa avaliação começa no fato ou no personagem.
Se defendemos princípios ou pessoas.
Se a corrupção continua errada quando ocorre perto de nós.
Se o abuso continua abuso quando produz um resultado que desejávamos.
Se uma mentira continua mentira quando ajuda alguém em quem votaremos.
Se a liberdade que pedimos para os nossos também será oferecida aos outros dentro dos limites da lei.
Se a transparência que exigimos na oposição continuará necessária quando nosso grupo estiver administrando.
É nessa hora que Orwell deixa de ser uma citação elegante e começa a cumprir alguma função.
A eleição oferece uma ótima oportunidade para fazer esse teste
Estamos a poucas semanas do primeiro turno das eleições de 2026, marcado para 4 de outubro.
Até lá, seremos submetidos diariamente a discursos, pesquisas, denúncias, promessas, vídeos, recortes, acusações e interpretações diferentes sobre praticamente tudo.
Faz parte do jogo democrático.
Candidato quer convencer.
Partido quer convencer.
Campanha quer convencer.
Apoiador quer convencer.
O eleitor não precisa se escandalizar com isso.
Precisa apenas lembrar que não é obrigado a entregar a ninguém o direito de pensar por ele.
Talvez valha desconfiar especialmente daquela informação que chega acompanhada da sensação imediata de que “eu sabia”.
Pode ser verdade.
Mas talvez seja justamente essa a hora de conferir.
O lado mais difícil de enxergar é sempre o nosso
George Orwell morreu em 1950. Não conheceu WhatsApp, X, Instagram, TikTok, algoritmos de recomendação, inteligência artificial generativa ou vídeos produzidos em segundos para atingir milhões de pessoas.
Não poderia ter previsto a tecnologia que temos hoje.
Mas compreendeu algo bem mais antigo.
Seres humanos possuem enorme capacidade de adaptar aquilo que acreditam às necessidades de pertencimento, poder e identidade.
É por isso que não me interessa muito descobrir qual político brasileiro poderia ser comparado a Napoleão, ao Grande Irmão ou a qualquer outro personagem de Orwell.
Seria fácil demais.
Prefiro uma pergunta que não permite apontar imediatamente para o outro lado.
Quando defendemos alguém, continuamos capazes de reconhecer seus erros?
Quando uma informação prejudica aquilo em que acreditamos, continuamos interessados em saber se ela é verdadeira?
Quando nosso grupo faz algo que condenávamos anteriormente, mantemos a mesma régua?
Talvez a melhor maneira de ler Orwell seja parar por alguns minutos de procurar o rosto do adversário em suas páginas.
E considerar a possibilidade incômoda de que alguma delas também esteja falando sobre nós.


