E se o Rio Grande do Norte resolvesse pensar grande?
Talvez seja apenas o devaneio de um potiguar que olha para o que temos e se pergunta por que ainda não conseguimos transformar tantas vantagens em um projeto duradouro de desenvolvimento
Resumo da Notícia
- O Rio Grande do Norte possui vantagens econômicas concretas em áreas como energia renovável, sal, fruticultura, carcinicultura, petróleo, turismo e localização atlântica.
- O PIB estadual mais recente disponível é de R$ 101,74 bilhões, referente a 2023, segundo o IBGE.
- O estado responde por cerca de 95% da produção brasileira de sal, enquanto frutas potiguares abastecem mercados internacionais e a geração renovável continua ampliando sua participação.
- A proposta desta coluna não é apresentar uma fórmula técnica, mas provocar uma discussão: seria possível construir algumas prioridades para o RN capazes de sobreviver às eleições e às diferenças políticas?
Vou começar este texto deixando uma coisa clara: não tenho a fórmula para desenvolver o Rio Grande do Norte.
Não sou economista. Não sou engenheiro de infraestrutura. Não conheço suficientemente os detalhes de política industrial, logística internacional, sistema elétrico ou planejamento de longo prazo para sentar diante de uma planilha e dizer o que deve ser feito.
Longe disso.
Sou apenas mais um morador deste estado olhando ao redor e fazendo uma pergunta que talvez muitos outros potiguares já tenham feito alguma vez: com tudo o que o Rio Grande do Norte possui, será que não poderíamos ambicionar muito mais?
Talvez seja apenas um devaneio.
Mas algumas ideias começam assim.
Olhe para o mapa
Antes de falar de economia, vale simplesmente olhar para onde estamos.
O Rio Grande do Norte está projetado sobre o Atlântico, numa localização privilegiada em relação às rotas que apontam para Europa e África. Não precisamos transformar isso na velha disputa turística sobre qual pedaço do Brasil está alguns quilômetros mais perto deste ou daquele continente. O importante é algo muito maior: geograficamente, estamos muito bem posicionados para olhar para o oceano como oportunidade econômica.
Temos litoral, porto, aeroporto e produção exportadora.
Temos vento.
Temos sol.
Temos sal.
Temos petróleo e gás.
Temos frutas.
Temos camarão.
Temos pecuária.
Temos turismo.
Temos universidades e institutos federais formando gente e produzindo conhecimento.
Quando escrevemos tudo isso numa sequência, parece até propaganda oficial.
Não é.
São características reais do Rio Grande do Norte.
E talvez esteja justamente aí a origem do meu incômodo: se temos tanta coisa, por que tantas vezes ainda falamos de nós mesmos apenas como um estado de “potencial”?
Potencial é uma palavra bonita.
O problema é passar décadas sendo potencial.
Nossa economia já passou dos R$ 100 bilhões
O último Produto Interno Bruto estadual disponível pelo IBGE é o de 2023. Naquele ano, a economia potiguar somou R$ 101,740 bilhões.
É muito dinheiro quando observado isoladamente. Mas o número deste texto não serve para dizer se somos ricos ou pobres. Serve apenas para estabelecer o tamanho atual da nossa economia.
A pergunta que me interessa é outra.
Quanto essa economia poderia crescer se conseguíssemos conectar melhor aquilo que o RN já produz?
E não estou falando simplesmente em extrair mais, plantar mais ou instalar mais parques de energia.
Estou falando em tentar fazer com que uma parcela maior da riqueza gerada por essas atividades permaneça aqui.
Temos praticamente o sal do Brasil inteiro
Poucos exemplos são tão impressionantes quanto o sal.
O Rio Grande do Norte responde por cerca de 95% da produção brasileira. Em abril de 2025, o Porto de Areia Branca movimentou sozinho 376 mil toneladas do produto.
Eu olho para um número desses e imediatamente penso como leigo: como aproveitar ainda mais essa vantagem?
Não sei quais indústrias seriam tecnicamente viáveis. Não vou fingir que sei.
Especialistas em mineração, química, logística, economia e indústria certamente podem responder muito melhor.
Mas será que não vale perguntar?
Se quase todo o sal brasileiro nasce aqui, quais outras atividades econômicas podem nascer perto dele?
Que produtos podem ser transformados aqui?
Que empresas podem ser atraídas?
Que conhecimento pode ser desenvolvido?
Que empregos podem ser criados além da etapa mais básica dessa cadeia?
Eu não tenho as respostas.
Gostaria muito que quem pretende governar o estado tivesse algumas.
A mesma pergunta vale para nossas frutas
O melão potiguar não precisa de apresentação para quem acompanha a economia do estado.
Na safra 2024/2025, o Porto de Natal movimentou 131,5 mil toneladas de frutas, incluindo melões, melancias, mamões, mangas, uvas e limões. O volume foi muito superior ao registrado na safra anterior.
Isso significa que já existe uma cadeia capaz de produzir no semiárido potiguar e colocar alimento em mercados internacionais.
Outra vez surge a pergunta de um leigo.
Além da fruta, quanto mais dessa cadeia pode ficar no RN?
Tecnologia agrícola, pesquisa, sementes, embalagem, refrigeração, processamento, transporte, armazenamento, comércio exterior.
Talvez algumas dessas atividades já estejam desenvolvidas. Outras talvez não façam sentido econômico aqui. Algumas certamente enfrentariam obstáculos que desconheço.
É para isso que existem pesquisadores, produtores, empresários, universidades, técnicos e governos.
O importante seria colocar essas pessoas para pensar na mesma pergunta.
Não para atender ao desejo de um colunista.
Para descobrir onde realmente existem oportunidades.
O vento não pode passar por nós sem deixar desenvolvimento
Talvez a energia seja o exemplo mais evidente de uma oportunidade que está diante dos nossos olhos.
Nos primeiros dois meses de 2026, o Rio Grande do Norte liderou a expansão da capacidade de geração elétrica brasileira, com 640 MW de novas usinas liberadas para operação comercial, segundo a Aneel.
É um feito relevante.
Mas eu gostaria de ver o debate potiguar avançar algumas perguntas.
Além de produzir energia, como fazemos essa energia produzir desenvolvimento aqui?
Como aumentar a presença de fornecedores potiguares?
Como formar profissionais para essas cadeias?
Como atrair empresas interessadas em energia renovável?
Como transformar parques instalados em território potiguar em pesquisa, tecnologia, indústria e empregos melhores?
Novamente: não sei quais dessas ideias são fáceis, difíceis, baratas, caras ou até inviáveis.
Mas alguém precisa estudá-las.
Porque o vento continuará soprando com ou sem planejamento.
O desenvolvimento não.
Não estou propondo que todos deem as mãos
Talvez seja aqui que meu devaneio fique mais utópico.
Imagine Governo do Estado, Assembleia Legislativa, bancada federal, municípios, universidades, institutos federais, empresários, trabalhadores e entidades produtivas concordando com algumas prioridades para o Rio Grande do Norte.
Eu sei.
Parece difícil.
Talvez quase impossível.
Mas não estou propondo que adversários deixem de ser adversários.
Não quero oposição deixando de fiscalizar governo. Não quero parlamentar abandonando suas convicções. Não quero empresário concordando com sindicato em tudo, nem esquerda fingindo que pensa como direita ou direita fingindo que pensa como esquerda.
Isso seria artificial e, numa democracia, provavelmente até indesejável.
Estou falando de outra coisa.
Será que precisamos discordar também sobre para onde queremos levar o Rio Grande do Norte?
Podemos discordar sobre os caminhos.
Podemos discutir impostos, modelos de concessão, participação do Estado, política ambiental, prioridades orçamentárias e dezenas de outras questões.
Mas talvez fosse possível concordar que o RN precisa de melhor infraestrutura logística, mais educação profissional, segurança hídrica, ambiente favorável ao investimento, ciência aplicada às nossas vocações e mais capacidade de transformar aqui aquilo que produzimos aqui.
Isso não seria unanimidade.
Seria alguma continuidade.
Nosso problema talvez seja começar de novo demais
A política brasileira funciona em ciclos muito curtos.
Chega uma eleição, surgem novas prioridades.
Muda o governo, muda o slogan.
Muda o programa.
Muda o nome do projeto.
Muda a identidade visual.
Às vezes até aquilo que estava funcionando passa a ser tratado como algo pertencente ao adversário e, por isso, precisa ser substituído.
Será que um estado consegue dar grandes saltos vivendo dessa forma?
Essa talvez seja a reflexão central deste texto.
Um projeto sério de desenvolvimento não cabe inteiro em quatro anos.
Porto, estrada, ferrovia, segurança hídrica, educação, industrialização, pesquisa e formação profissional exigem décadas.
Então talvez o Rio Grande do Norte precise de algo que não pertença a governador algum.
Um projeto que pertença ao Rio Grande do Norte.
Quem vencer uma eleição administra uma etapa.
Quem vier depois administra outra.
E a sociedade cobra de ambos o mesmo destino final.
Parece simples escrevendo.
Sei perfeitamente que não é.
E se escolhêssemos meia dúzia de objetivos?
Talvez sequer precisemos começar com um documento gigantesco dizendo como o RN será em 2050.
Poderíamos começar concordando com algumas perguntas.
Que setores queremos transformar em referência nacional?
Como utilizar nossa energia para gerar mais atividade econômica no próprio estado?
Como melhorar nossa conexão com mercados internacionais?
Como agregar valor ao sal, às frutas, à pesca, ao camarão, à pecuária e aos demais produtos que já sabemos produzir?
Que infraestrutura precisamos construir?
Que profissionais precisaremos formar?
O que universidades e institutos podem pesquisar hoje para resolver problemas que teremos daqui a dez anos?
Qual Rio Grande do Norte queremos entregar à próxima geração?
Depois, quem entende do assunto transforma perguntas em estudos.
Estudos viram projetos.
Projetos viáveis encontram financiamento.
E aquilo que não for viável é descartado.
Não há problema algum em descobrir que uma boa ideia de mesa de bar é economicamente ruim.
Aliás, planejamento serve também para isso.
Nosso porto também deveria fazer parte dessa conversa
O Porto de Natal movimentou 495 mil toneladas em 2025, crescimento de 21,1% sobre o ano anterior. As exportações cresceram 76,14%, e o governo federal realizou em 2026 leilão que prevê R$ 55 milhões em investimentos em um novo terminal. Também existem estudos relacionados a um Porto-Indústria Verde.
Não estou dizendo que o Porto de Natal será um novo Rotterdam.
Seria exatamente o tipo de comparação grandiosa que este texto quer evitar.
Estou perguntando apenas se aproveitamos suficientemente uma estrutura portuária instalada num estado exportador e voltado para o Atlântico.
Se a resposta técnica for que existem limitações difíceis de superar, precisamos conhecê-las.
Se existem oportunidades, precisamos persegui-las.
E talvez o desenvolvimento portuário do RN não dependa exclusivamente de Natal. Areia Branca possui outra função estratégica. Outros projetos logísticos podem surgir.
O importante é pensar o sistema.
Não podemos esquecer o interior
Há outro risco quando falamos de transformar o estado numa potência: imaginar um Rio Grande do Norte resumido à Grande Natal e ao litoral.
Não pode ser assim.
Se existe um projeto potiguar, ele precisa encontrar espaço para Mossoró, Assú, Caicó, Currais Novos, Pau dos Ferros, Apodi, João Câmara, Macau, Santa Cruz e tantas outras cidades e regiões.
Precisa conversar com o produtor rural.
Com quem cria gado.
Com quem trabalha com caprinos.
Com a agricultura familiar.
Com quem produz fruta para exportação.
Com quem vive do comércio e dos serviços.
Com quem trabalha no turismo.
Com quem pesquisa.
Com quem abre uma pequena empresa.
Com o jovem que se forma e gostaria de encontrar no próprio estado uma oportunidade compatível com sua qualificação.
Desenvolver o Rio Grande do Norte não é deixar Natal mais rica.
É fazer o desenvolvimento circular.
Talvez este seja o ponto: fazer nossos filhos quererem ficar
Há indicadores econômicos, fiscais e sociais muito mais sofisticados que poderiam medir o sucesso de um projeto desse tipo.
Mas existe um indicador bastante simples que qualquer família entende.
Nossos filhos conseguirão construir uma boa vida aqui?
Será possível estudar numa boa instituição potiguar, encontrar emprego qualificado, empreender, ganhar bem e decidir permanecer no Rio Grande do Norte não apenas porque ama sua terra, mas porque encontra oportunidades?
Quando um jovem altamente qualificado precisa sair porque sua profissão quase não encontra espaço aqui, perdemos mais do que uma pessoa.
Perdemos investimento educacional, conhecimento, capacidade produtiva e parte do nosso futuro.
Não devemos impedir ninguém de partir.
Precisamos fazer com que ficar também seja uma grande escolha.
Em 2026, talvez seja uma boa pergunta para quem pede nosso voto
Estamos escolhendo deputados estaduais, deputados federais, senadores, governador e presidente da República.
Cada cargo possui competências diferentes e ninguém deveria prometer aquilo que não pode entregar.
Mas todos eles, de alguma forma, participarão das decisões que podem ajudar ou atrapalhar o desenvolvimento do Rio Grande do Norte.
Então talvez valha acrescentar uma pergunta às tantas que fazemos durante uma eleição.
Não apenas “o que você fará nos próximos quatro anos?”.
Pergunte também: que Rio Grande do Norte você imagina daqui a vinte?
Quais setores deveriam liderar nossa economia?
Que infraestrutura será necessária?
Como vamos aproveitar nossa energia?
O que fazer com nossa posição geográfica?
Como agregar valor ao que produzimos?
Como levar desenvolvimento para o interior?
Como fazer nossa economia crescer acima da simples expansão natural do país?
Não espero que um candidato tenha resposta pronta para tudo.
Talvez eu desconfiasse se tivesse.
Mas espero que esteja pensando nisso.
Também cabe a nós pensar maior
Seria confortável terminar este texto colocando toda a responsabilidade nos políticos.
Não seria justo.
Governos possuem uma responsabilidade enorme, obviamente. Parlamentares decidem leis, orçamento e investimentos. Mas um projeto de desenvolvimento também passa por empresas, universidades, trabalhadores, entidades de classe, imprensa e sociedade.
Talvez o primeiro pacto precise acontecer na nossa própria cabeça.
Parar de aceitar que determinadas limitações sejam eternas.
Parar de tratar cada nova oportunidade como uma disputa para saber quem ficará com o crédito político.
Parar de torcer para uma iniciativa fracassar porque foi iniciada pelo adversário.
Se uma obra estruturante é boa para o Rio Grande do Norte, deveria ser boa independentemente de quem cortará a fita.
Se um projeto iniciado por um governo funciona, o seguinte deveria melhorá-lo.
Se não funciona, deve ser substituído.
Parece óbvio.
Na política, nem sempre é.
Um devaneio de quem nasceu ou escolheu viver aqui
Não apresento este texto como especialista.
Não é um projeto econômico.
Não é uma proposta de governo.
Não é sequer uma lista definitiva das nossas vocações.
É apenas o pensamento de um morador do Rio Grande do Norte que olha para o estado onde vive e acha difícil acreditar que nosso horizonte precise terminar onde está hoje.
Temos problemas sérios. Temos limitações financeiras. Temos desigualdades. Temos gargalos históricos de infraestrutura, educação e produtividade que nenhuma frase otimista fará desaparecer.
Mas também temos coisas que muita gente gostaria de ter.
Temos matéria-prima para sonhar.
Talvez falte transformar o sonho em projeto.
E projeto em continuidade.
Não sei se Governo, oposição, Assembleia, bancada federal, municípios, universidades, empresários e trabalhadores algum dia conseguirão sentar em torno de uma mesa e concordar com cinco ou seis prioridades que sobrevivam por vinte anos.
Pode ser utopia.
Provavelmente é.
Mas também não vejo grande vantagem em passar os próximos vinte anos repetindo que o Rio Grande do Norte tem um enorme potencial.
Em algum momento, precisamos descobrir até onde esse potencial pode realmente nos levar.
Não tenho capacidade técnica para dizer qual é o caminho.
Só gostaria muito que começássemos a procurá-lo juntos.


