CPI das Bets: Cleitinho transforma depoimento de Virgínia em teatro de vaidades

Quando o Senado vira plateia e a CPI vira palco, o espetáculo deixa de ser democrático — e vira farsa.
CPI das Bets: Cleitinho transforma depoimento de Virgínia em teatro de vaidades
Senador interrompe CPI, elogia ‘pré-treino’ de Virgínia e pede vídeo de influenciadora para esposa

A imagem diz mais do que o ato. O senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG) se levantando em plena Comissão Parlamentar de Inquérito que investiga crimes ligados a apostas esportivas ilegais para gravar um “vídeo selfie” com Virgínia Fonseca não foi só um constrangimento institucional. Foi um retrato fiel do tempo político em que vivemos — onde a vaidade performática substitui a investigação, e a influência vale mais que o inquérito.

O episódio, ocorrido nesta terça-feira (13), poderia passar despercebido como uma anedota, não fosse a natureza da CPI em questão: trata-se da chamada CPI das Bets, que apura possíveis irregularidades e crimes ligados à manipulação de jogos, lavagem de dinheiro e promoção indevida de apostas — um setor estimado em bilhões e que movimenta redes criminosas, máfias digitais e um rastro de ludopatia em famílias brasileiras.

Mas Cleitinho não achou necessário pressionar, nem sequer questionar com profundidade. Preferiu dizer que consome o “pré-treino” promovido por Virgínia, que ela “gera receita e emprego”, e, num salto olímpico de lógica, declarou que os próprios parlamentares são uma “fonte de despesa”. Fez graça. E, ao fim, pediu que a influenciadora enviasse um “abraço para sua esposa e sua filha”.

Com o celular em punho, aproximou-se da influenciadora para fazer o que a CPI aparentemente não conseguiu: ganhar uns segundos de engajamento com uma celebridade da internet. Teve riso no plenário, mas nem o presidente da comissão, Hiran Gonçalves (PP-RR), nem a relatora, Soraya Thronicke (Podemos-MS), reagiram de imediato. No silêncio cúmplice, a selfie aconteceu. E a vergonha pública também.

A CPI que virou palco

A presença de Virgínia Fonseca na CPI já era, por si só, carregada de tensão. Empresária, influencer, símbolo de um modelo de negócio que se equilibra entre o marketing agressivo e o entretenimento de massa, ela foi convocada por sua suposta ligação com a divulgação de plataformas de apostas. Um tema sério. Um assunto que atravessa a juventude, os lares e o bolso de milhões de brasileiros.

Mas o que se viu no Senado foi outra coisa: um teatro de encenações, onde o papel de investigado e de ídolo se confundem. Onde o senador, em vez de representar o povo com seriedade, atua como fã emocionado. Cleitinho não usou o microfone para extrair informações ou cobrar responsabilidade. Usou para exaltar o “pré-treino” — e para aparecer.

A CPI, que deveria investigar fraudes e crimes digitais com potencial devastador, virou vitrine para o marketing institucional de um político que tem mais seguidores do que argumentos. E o que deveria ser uma sessão de escuta e rigor técnico terminou como um vídeo promocional caseiro, filmado de dentro do Congresso Nacional.

A resposta da relatora

A senadora Soraya Thronicke, relatora da comissão, não deixou passar o constrangimento ileso. Após o episódio, afirmou que se sentiu “ofendida” pelas colocações de Cleitinho e cobrou sua presença nas próximas reuniões da comissão “para auxiliar nos trabalhos contra as máfias dos jogos ilegais”. Um recado claro: a CPI não é lugar para bajulações — é para trabalho sério.

Mas o estrago simbólico já estava feito. A cena já tinha rodado a internet. E, talvez, esse tenha sido exatamente o objetivo.

Virgínia Fonseca não precisa de mais visibilidade. Ela a tem de sobra. O que se discute não é o que ela representa no mercado digital — mas o que o Estado brasileiro está disposto a tolerar em nome da popularidade. Se a CPI das Bets serve para investigar crimes reais, ela precisa ser blindada contra o espetáculo. E se Cleitinho queria dar um recado à sua base, deu. Mas também mandou um recado à democracia: o interesse público, no Brasil, ainda pode ser atropelado por um story bem posicionado.

O problema não é o vídeo em si. É o que ele simboliza: o enfraquecimento do papel fiscalizador do Legislativo, a submissão ao capital da fama e o uso do mandato como extensão do marketing pessoal.

Quando o Senado vira plateia e a CPI vira palco, o espetáculo deixa de ser democrático — e vira farsa.

Deixe um comentário

Seu e‑mail não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.