No dia 4 de maio de 2025, o ex-presidente Jair Bolsonaro deixou o Hospital DF Star, em Brasília, após passar por uma cirurgia delicada e permanecer internado por três semanas, das quais 20 dias foram na Unidade de Terapia Intensiva (UTI).
A operação, que durou cerca de 12 horas, teve como objetivo tratar uma obstrução intestinal causada por aderências decorrentes da facada sofrida em 2018 — uma sequela que já o levou a enfrentar, ao todo, sete procedimentos cirúrgicos nos últimos seis anos.
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Em condições normais, o episódio seria interpretado como mais um capítulo médico de um histórico conhecido. Mas o Brasil de 2025 vive uma conjuntura em que a saúde de Jair Bolsonaro não é apenas um fato clínico — apresentando-se também como um instrumento político.
Enquanto os boletins médicos indicavam evolução, a defesa do ex-presidente se mobilizava em outra frente: apresentar à Justiça Federal e ao Supremo Tribunal Federal (STF) laudos que justificassem a impossibilidade de comparecimento a depoimentos e oitivas em ao menos dois inquéritos em andamento.
O primeiro é o que apura a tentativa de golpe de Estado, cujos desdobramentos apontam Bolsonaro como um dos responsáveis diretos pela articulação de uma ruptura institucional após a derrota nas urnas em 2022. O segundo trata da fraude em registros de vacinação, na qual ele teria adulterado dados para viabilizar viagens internacionais no auge da pandemia.
Ambos os casos estão sob atenção direta do STF — e a convocação para prestar esclarecimentos, com data prevista para o primeiro semestre de 2025, já estava em curso antes da internação.
O contraste entre os autos e as aparições públicas
O que chama atenção — e vem gerando incômodo silencioso nos bastidores da Corte — é o seguinte: enquanto seus advogados alegam que ele não pode prestar depoimento devido à debilidade de seu estado de saúde, Bolsonaro reaparece em vídeos, reuniões e até manifestações públicas, como a que ocorreu no dia 7 de maio em Brasília, em defesa da anistia aos presos dos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023.
Na prática, a cena é contraditória: não pode falar à Justiça, mas pode discursar em ato político. E embora a presença em eventos não anule automaticamente uma limitação médica, ela enfraquece o argumento central usado por sua defesa para adiar procedimentos judiciais.
É nesse ponto que o debate sobre saúde e estratégia se funde — e que o escudo médico passa a ser visto por muitos analistas e ministros como mais um movimento calculado para ganhar tempo, reorganizar narrativas e evitar o desgaste jurídico iminente.
O padrão que se repete
A relação entre Bolsonaro e o uso político de seu estado clínico não é nova. Durante o mandato presidencial, diversas internações e laudos médicos foram utilizados como argumentos para se ausentar de eventos oficiais ou evitar desgastes políticos. Em 2021, por exemplo, faltou a sabatina da CPI da Covid em meio a um episódio de soluços crônicos que resultaram em hospitalização.
Agora, fora do cargo, mas ainda figura central da direita brasileira, Bolsonaro tenta equilibrar dois tabuleiros: o da narrativa pública e o do Judiciário. Em um, se apresenta como “guerreiro que resiste mesmo adoentado”. No outro, se posiciona como paciente fragilizado, impossibilitado de responder à Justiça.
Esse jogo duplo não é inédito na política brasileira — mas, no atual contexto de endurecimento institucional, pode sair caro. A tolerância do STF com alegações médicas para atrasar depoimentos tem sido cada vez menor, especialmente em casos com amplo impacto público.
O que pode acontecer agora
O Supremo Tribunal Federal já estuda, segundo apuração da imprensa nacional, a designação de uma junta médica independente para avaliar se Bolsonaro de fato está inapto a prestar depoimento — inclusive por videoconferência.
A depender do laudo, o tribunal poderá:
- Redefinir prazos processuais com base na avaliação médica real e não apenas na da defesa.
- Determinar depoimento sob condução especial, em ambiente médico controlado.
- Aplicar condução coercitiva, se houver recusa injustificada ou tentativa reiterada de protelação.
O uso da saúde como argumento de defesa não é crime. Mas quando ela se torna instrumento político para evitar o curso normal da Justiça, passa a comprometer mais do que a credibilidade do réu: compromete a confiança do país nas instituições.
Bolsonaro pode até seguir sustentando a narrativa de resistência em meio à dor. Mas, diante de uma Justiça que tem reagido com firmeza a manobras processuais, é possível que nem os pontos da cirurgia consigam segurar a pressão do que vem a seguir.
