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Hiago Luis

Renan Santos, Flávio Bolsonaro ou Lula: quem ganhou o debate que não houve?

Entre a recusa de Flávio Bolsonaro de participar junto com Renan; a conquista de Renan Santos de um lugar no púlpito da Globo; e o cancelamento do debate, à entrevista com Lula no Flow.

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Resumo da Notícia

  • A Globo cancelou o último debate presidencial antes do primeiro turno após decisões judiciais alterarem a participação dos candidatos e as regras sobre a ausência de Lula, em meio à desistência de Flávio Bolsonaro.
  • Na análise da coluna, Lula saiu favorecido ao trocar o debate por uma entrevista no Flow Podcast, com espaço para apresentar seu governo e alcançar público além de sua base eleitoral.
  • Renan Santos é apontado como outro beneficiado: a disputa judicial por sua participação e a mobilização diante da Globo ampliaram sua exposição na reta final da campanha.
  • Flávio Bolsonaro aparece como o principal prejudicado na avaliação do autor, ao desistir depois de prometer comparecer mesmo sem Lula e após a inclusão de Renan, que poderia confrontá-lo pela direita.

Não sou quem mais escreve artigos de opinião. Em geral, costumo me ater apenas aos fatos e publicar notícias mais objetivas. Mas há momentos em que os fatos não bastam e a análise sobre eles se faz necessária. Verdade seja dita, quando pensamos na busca por um espaço de destaque na disputa presidencial, entre todos os debates que acontecem em um ano eleitoral, dois debates ganham mais importância do que os demais.

Na Bandeirantes, o tradicional debate da Band é o primeiro a abrir o calendário de debates eleitorais. A tradição vem desde 17 de julho de 1989, quando, após décadas sem eleições diretas para presidente, a emissora levou ao ar um debate presidencial. O primeiro transmitido para todo o Brasil, após décadas em que o país e a democracia foram subjugados pela Ditadura Militar.

No centro daquele primeiro debate estavam: Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Leonel Brizola (PDT), Paulo Maluf (PDS), Roberto Freire (PCB), Affonso Camargo (PTB), Aureliano Chaves (PFL), Ronaldo Caiado (PSD), Mário Covas (PSDB) e Guilherme Afif Domingos (PL). Hoje, dois personagens se repetem no cenário presidencial: Lula, do PT, e Ronaldo Caiado, agora no PSD.

Para além de sua importância histórica e simbólica, o debate da Band também é fundamental por apresentar os candidatos à população e, no caso de alguns, até representar a primeira oportunidade de serem vistos e avaliados por grande parte do eleitorado nacional. Neste segundo sentido, outro debate ganha destaque semelhante.

Também tradicional e com a história marcada por erros e acertos que foram capazes de mudar o rumo das eleições presidenciais, o debate da Globo é o último antes de os eleitores irem às urnas. Muito em função disso e do fato de a emissora ser a de maior audiência no país, é também considerado o de maior importância por parte significativa dos eleitores.

O debate sobre o debate que não houve

Na última quinta-feira (01), o debate estava agendado para ocorrer logo após o jornal nacional. Pela primeira vez, o debate era adiantado para mais cedo, no horário nobre, afim de garantir maior audiência.

Predefinido, com antecedência e ampla preparação junto ao conjunto de candidaturas “principais desta eleição”, o debate teria Flávio Bolsonaro, do PL; Lula, do PT; Ronaldo Caiado, do PSD; Augusto Cury, do Avante; Renan Santos, do Missão; e Romeu Zema, do Novo. Os dois últimos figuraram durante a maior parte do tempo, desde que a emissora formalizou os convites, como “desconvidados”.

Sim, após suas candidaturas participarem das etapas de construção das regras do debate, os candidatos Renan Santos e Romeu Zema não participariam. Mas o jogo das cadeiras, ou melhor dizendo, o xadrez por trás deste debate ainda teria vários outros movimentos.

De fora, indignado por ter sido “não convidado”, Renan Santos, do Missão, começou a mover suas peças frente à opinião pública. Ganhou manchetes e destaque por estar de fora na reta final, mesmo figurando entre os três melhores colocados na maior parte das pesquisas.

Enquanto isso, Romeu Zema optou por outro caminho. Como quem faz jus à expressão atribuída ao povo mineiro, que fala sobre “comer quieto”, recorreu à Justiça e conseguiu, na reta final, uma decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal e atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Kássio Nunes Marques, que mudou a regra e alterou o “ponto de corte” para a participação obrigatória do candidato do Novo.

Na decisão, o ministro acatou o pedido do partido de Zema, sob a alegação de que “antes de 20 de julho de 2026, cinco deputados federais estavam filiados ao Novo”. Como decisão da Justiça, se cumpre, ou pelo menos deveria sempre ser assim, Romeu Zema ganhou seu espaço no palco Global.

Nesse meio-tempo, dois fatos foram protagonizados pelos candidatos mais bem colocados nas pesquisas: Flávio Bolsonaro e Lula.

Em ordem cronológica, o candidato do PL fez o primeiro movimento. Afirmou, durante um evento de campanha, que iria ao debate, mesmo que Lula não fosse. A premissa da afirmação era simples de entender: mostrar força, coragem e capacidade de pressionar o atual presidente a ir ao debate, sob o risco de ser chamado de “fujão”, caso não fosse, para dizer o mínimo.

Experiente, Lula, o mesmo que desde 1989 conhece a natureza dos debates, suas oportunidades e armadilhas, também fez sua jogada e anunciou que não compareceria, dobrando a aposta contra Flávio Bolsonaro. Mais do que isso, anunciou uma entrevista exclusiva no Flow Podcast, com Igor 3K, praticamente para o mesmo horário do debate.

Embora sem o seu principal opositor, Flávio Bolsonaro ainda tinha alguns trunfos aos quais se segurar. O primeiro deles sendo o ambiente “seguro”, com Romeu Zema e Ronaldo Caiado demonstrando, ao longo da campanha, comportamento, propostas e ideias muito próximas ao candidato do PL, para não dizer que atuaram como linhas auxiliares. O primogênito do ex-presidente Jair Bolsonaro tinha palco seguro para brilhar.

Há de se dizer que também estaria no debate Augusto Cury, do Avante, mas este, por tudo o que apresentou em outros debates, sabatinas e no decorrer da campanha, dificilmente iria se aprofundar em qualquer embate. Principalmente um contra um polo tão forte, em uma eleição tão polarizada, sob o risco de se colocar não como uma terceira via, mas como parte de um polo lulista.

Mas, se Cury não entraria firme no debate, Renan Santos, do Missão, estava disposto a “quase tudo” para ganhar o seu lugar ao sol, ou melhor, na “Vênus Platinada”. E, após uma primeira tentativa frustrada diante do STF, conseguiu uma decisão favorável à sua participação no debate, concedida pelo ministro Gilmar Mendes, a pedido do Partido Solidariedade, sob o argumento de que o candidato do Missão atendia ao regulamento definido pela própria Globo.

Quase que em simultâneo a isso, uma decisão emitida pela ministra Estela Aranha, do TSE, proibiu a Globo de manter no estúdio o púlpito vazio com o nome do candidato Lula, que já havia confirmado não ir ao debate. Da mesma forma, a decisão ainda vetou perguntas direcionadas ao candidato petista, que cumpriria agenda no Flow Podcast.

Com Renan Santos entrando no debate e Lula e o seu púlpito vazio saindo, foi a vez de Flávio Bolsonaro fazer seu último movimento em relação ao debate. E desistiu da participação, que agora já não acontecia em um cenário tão confortável quanto antes.

Por último, neste cenário, a Globo também fez seu movimento. Alegando insegurança jurídica diante de uma sequência de decisões que impactaram diretamente no debate, a emissora decidiu cancelar o debate e, mais do que isso, exibiu sua tradicional novela das 21h e na sequência o filme “Aves de Rapina”, que, embora saibamos ser um filme inspirado em personagens femininas da DC Comics, também é uma expressão conhecida no meio político.

A expressão “ave de rapina” significa, em sentido figurado, uma pessoa ou grupo (geralmente político) que rouba, explora ou se aproveita dos outros de forma agressiva e astuta.

Quem ganhou o debate que não houve?

Diante desta sequência de acontecimentos, uma justa pergunta, que costuma fazer sentido em debates desse tipo, ressurge: quem ganhou o debate? Ou melhor, quem ganhou o debate que não houve?

É uma avaliação complexa, mas, a julgar pela sequência de acontecimentos e na forma como o jogo político costuma funcionar, dentro e fora das redes, me parece possível crer em dois potenciais ganhadores. O primeiro e talvez o mais óbvio seja o presidente e candidato à reeleição Lula.

Sem sair da residência presidencial, usando o Flow Podcast, o candidato do PT levou para si uma parcela significativa da audiência. Principalmente após o anúncio do cancelamento do debate da Globo. Com um espaço mais amplo, pouco menos de  duas horas de entrevista, Lula pôde falar sobre seus feitos quase sem ser contrariado por Igor 3K.

O apresentador do Flow não fez claramente uma entrevista parcial, mas, ainda assim, demonstrou um respeito acima do usual com o presidente. A dinâmica chegou a criar um momento inusitado no qual o próprio Lula questionou a formalidade e os pedidos de desculpas ao tratar de temas mais espinhosos.

Com a decisão de não ir ao debate e dar uma entrevista no Flow, Lula conseguiu “esvaziar”, por tabela, o debate e, mais do que isso, reverter para si parte da audiência, após o cancelamento do mesmo. Além disso, conseguiu a chance de falar para uma bolha maior, já que a audiência do Flow vai além do eleitorado tradicionalmente lulista.

Quanto a Renan Santos, a vitória é um pouco mais sutil, diz respeito ao seu aumento de visibilidade nas redes, diante de todo o movimento pré-debate, após a decisão de Gilmar Mendes e pós-cancelamento do debate. O movimento colocou o candidato do Missão, que já figurava em terceiro lugar na maioria das pesquisas, mais uma vez em um lugar de destaque nacional.

Além disso, uma live promovida pelo candidato, em um ato diante da Rede Globo, após o cancelamento do debate, também ajudou a capturar para ele parte da atenção de quem esperava o confronto com Flávio Bolsonaro. Unindo o número de buscas pelo nome do candidato, que começaram a crescer antes do debate, deram um salto com a decisão em favor do seu comparecimento e outro após o cancelamento; ao ato promovido em frente à emissora, a estratégia de Renan Santos, também representou um ganho significativo para o candidato do Missão.

Quem perdeu o debate que não houve?

Como tradicionalmente é na vida de quem compete, para que alguém ganhe, alguém precisa perder. Para além dos candidatos que participariam do debate da Globo e que perderam espaço nesse palco. E, claro, também o prejuízo aos eleitores que não puderam assistir ao confronto entre os presidenciáveis no palco principal, um entre todos se destaca como quem mais perdeu: Flávio Bolsonaro.

Não se trata de ser partidário de A ou B. A lógica é simples e menos passional. Na política, como no jogo de xadrez, eventualmente os jogadores montam armadilhas, arriscam e chamam o adversário a se arriscar ou não. Eventualmente, como me parece ser o caso, aquele que “armou uma jogada arriscada” pode cair nela, como no clássico meme do menino travando a roda da própria bicicleta e caindo. A metáfora conversa com certa semelhança ao que aconteceu com Flávio Bolsonaro.

Ao tentar chamar Lula para um combate direto, em um debate que reunia vários candidatos à direita e extrema direita contra um candidato à esquerda ou centro-esquerda, este último sendo o candidato petista, o candidato do PL acabou criando uma avalanche contra si mesmo.

Embora boa, a premissa de Flávio dependia de um elemento básico: “a presença de Lula”. Sem o principal opositor para servir de alvo para os demais, Flávio viraria naturalmente o principal candidato a ser questionado. Mas, para a sua salvaguarda, de forma deliberada ou não, a Globo não tinha, entre os demais participantes, alguém capaz de representar mínimo risco à imagem do filho número 01 de Bolsonaro.

Para infelicidade de Flávio Bolsonaro, o cenário mudou com a entrada de Renan Santos, imposta por decisão judicial de Gilmar Mendes. O debate, que tinha se tornado um “não debate”, com candidatos que defendiam, resguardadas as devidas proporções, as mesmas ideias, voltava a ser um debate de fato e direito. Agora o candidato do Missão passava a ser o único capaz de confrontar Flávio pela própria “direita”.

Se o cenário já era ruim para Flávio Bolsonaro, agora, após voltar atrás na palavra e declarar que não iria ao debate, depois de ter dito que iria, mesmo sem a presença de Lula, o candidato do PL se complicou ainda mais. Após a desistência, Flávio Bolsonaro até tentou, em uma live, capturar para si a audiência que possivelmente teria no debate, mas acabou praticando o que se costuma chamar de “pregar para convertidos”, falando em maior parte para sua própria bolha bolsonarista.

Proposta ao leitor e ao eleitor

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Sobre o autor

Hiago Luis

Redator

Com mais de dez anos de experiência na comunicação, reúne atuação em assessoria, jornalismo impresso, radiojornalismo, produção e reportagem em televisão. Foi assessor de comunicação do Sinmed-RN, além de ter estagiado nas assessorias do…

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