Resumo da Notícia
Assisti a O Diabo Veste Prada 2 na sessão especial de pré-estreia desta quarta-feira (29), um dia antes da chegada oficial do filme aos cinemas brasileiros, marcada para quinta-feira (30). Entrei na sala com o pé atrás. Não por falta de carinho pelo primeiro filme, mas justamente pelo contrário. O Diabo Veste Prada, de 2006, é um daqueles casos em que Hollywood deveria pensar duas vezes antes de mexer. O longa virou referência, consolidou personagens, atravessou quase 20 anos com frescor e nunca precisou de continuação para continuar relevante.
Por isso, o risco era claro: transformar Miranda Priestly, Andy Sachs, Emily Charlton e Nigel Kipling em bonecos de vitrine para vender nostalgia.
Felizmente, não é isso que acontece.
A sequência dirigida por David Frankel entende que o encanto do original nunca esteve apenas na moda. Estava no poder. No modo como uma sala mudava quando Miranda entrava. Na humilhação elegante disfarçada de exigência profissional. Na máquina de moer gente talentosa em nome do prestígio. Na pergunta incômoda que o primeiro filme fazia sem parecer discurso: quanto de si alguém aceita perder para pertencer a um mundo admirado por todos?
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Em O Diabo Veste Prada 2, essa pergunta volta com outra roupa. Mais cara, talvez. Mas também mais cansada, mais madura e mais atual.
Andy, vivida por Anne Hathaway, retorna à Runway não como a jovem atropelada pelo glamour, mas como alguém que já conhece o preço daquele ambiente. Sua volta para tentar recuperar a credibilidade jornalística da revista é uma boa escolha porque desloca o filme de uma simples reunião de elenco para um conflito do presente. A Runway não está ameaçada apenas por falta de estilo. Está ameaçada porque o jornalismo perdeu força, a mídia impressa encolheu e o dinheiro das grandes marcas passou a mandar mais do que qualquer editora gostaria de admitir.
Esse é o acerto da continuação: a moda continua linda, mas o mundo por trás dela está mais feio.
Miranda continua sendo o filme

Meryl Streep volta como Miranda Priestly sem precisar provar nada. E talvez seja esse o ponto. Miranda não entra em cena pedindo aplauso. Ela simplesmente ocupa o espaço. A voz baixa, o olhar atravessado, a frase curta e a economia de gesto ainda dizem mais do que qualquer cena feita para viralizar.
O filme acerta quando não tenta “humanizar” Miranda demais. Esse seria o erro mais fácil. Miranda não precisa virar simpática para continuar interessante. O que a sequência faz melhor é colocá-la diante de um mundo que já não aceita tudo com a mesma obediência de antes.
Ela continua brilhante. Continua cruel quando quer. Continua entendendo o jogo antes dos outros. Mas agora há limites novos, pressões novas, sensibilidades novas e um mercado menos disposto a sustentar certos mitos apenas porque eles vêm bem vestidos.
Miranda envelheceu, mas não perdeu o domínio da cena. O poder dela só ficou mais interessante porque agora precisa negociar com um tempo que não se curva tão facilmente.
Emily Blunt rouba o filme quando vira aquilo que antes tentava sobreviver
Se Miranda é o eixo, Emily Charlton é a virada mais saborosa da continuação. Emily Blunt volta com a acidez certa, mas agora em outra posição. A antiga assistente desesperada para não ser engolida pela Runway se transformou em executiva de uma grande grife, alguém capaz de influenciar diretamente o futuro da revista.
Essa escolha é ótima porque não trai a personagem. Pelo contrário: parece consequência natural.
Emily sempre foi ambiciosa, ferina, competitiva e absolutamente consciente do valor simbólico daquele universo. Ela não queria destruir o sistema. Queria vencer dentro dele. Agora, venceu. E quando ela aparece em posição de poder, o filme ganha uma tensão deliciosa: a mulher que antes era pressionada pela engrenagem agora ajuda a pressionar a engrenagem de volta.
É aí que O Diabo Veste Prada 2 encontra algo novo. Não é apenas “olha quem voltou”. É “olha no que essas pessoas se tornaram”.
Andy ainda quer vencer Miranda, mas também quer ser reconhecida por ela
A relação entre Andy e Miranda continua sendo o nervo do filme. E funciona porque a sequência não finge que o passado foi resolvido com uma caminhada bonita pela rua no fim do primeiro longa.
Andy saiu da Runway, mas Miranda nunca saiu completamente dela. Há relações profissionais que deixam marca. Chefes, mentores, carrascos e ídolos às vezes se misturam na memória. Miranda foi tudo isso para Andy. Por isso, quando as duas se reencontram, existe mais do que ironia. Existe uma necessidade antiga de validação, agora disfarçada de maturidade.
Anne Hathaway acerta ao não fazer Andy parecer ingênua. Ela está mais firme, mais vivida, menos encantada. Mas ainda há uma rachadura quando Miranda está por perto. E essa rachadura é boa dramaturgia.
A nostalgia aparece, mas não governa
Sim, o filme olha para trás. Há acenos ao azul cerúleo, há farpas familiares, há elegância milimetricamente calculada, há o prazer imediato de rever Stanley Tucci como Nigel, ainda funcionando como uma espécie de consciência afetiva daquele mundo.
Mas a continuação não se apoia apenas nesses retornos. O melhor de O Diabo Veste Prada 2 está em perceber que aquele universo ficou mais duro. O glamour continua, mas agora parece mais dependente de planilha. A revista continua importante, mas já não parece intocável. A moda continua poderosa, mas cercada por investidores, marcas e decisões que pouco têm a ver com criação.
O filme é leve, mas não é bobo. Tem graça, tem charme e tem aquele prazer de reencontro que o público espera. Só que também sabe cutucar uma ferida atual: o que acontece quando tudo, até o bom gosto, precisa justificar sua existência em números?
Veredito
O Diabo Veste Prada 2 não supera o primeiro filme. Nem deveria tentar. O original tinha frescor, surpresa e uma precisão difícil de repetir. A sequência vence por outro caminho: aceita que o tempo passou e usa isso a favor dos personagens.
O roteiro poderia ser mais afiado em alguns conflitos. Há momentos em que o filme escolhe a elegância quando poderia ser mais cruel. Mas o saldo é positivo porque Miranda, Andy, Emily e Nigel não voltam como enfeites de nostalgia. Voltam com função, atrito e presença.
Saí da sessão com uma impressão clara: O Diabo Veste Prada 2 funciona porque não trata moda como fantasia vazia, mas como linguagem de poder. E, nesse jogo, Miranda Priestly ainda é a pessoa mais perigosa da sala.
Não porque grita.
Não porque ameaça.
Mas porque entende, antes de todo mundo, quem realmente manda.
