Resumo da Notícia
Um estudo publicado neste sábado (22) na revista Nature Communications identificou que 64% da Bacia Amazônica apresenta correlação fraca ou negativa entre a produtividade da vegetação e a evapotranspiração. Em termos simples, a quantidade de carbono incorporada pelas plantas e a água devolvida à atmosfera não variam juntas com a força que costuma ser presumida em outros ecossistemas.
A análise cobre o período de 1982 a 2022 e combina estimativas derivadas de satélites, modelos de ecossistema e medições de torres do Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA). O trabalho foi conduzido por pesquisadores ligados ao Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa (JPL), à Universidade da Califórnia em Los Angeles, ao Pacific Northwest National Laboratory, à Universidade Estadual de Washington e à organização CTrees.
O achado não significa que a Amazônia tenha deixado de absorver carbono. Ele indica que a relação entre ganho de carbono e perda de água é mais complexa — e vem ficando mais fraca — do que a adotada em parte dos modelos globais.
O que os pesquisadores mediram
O estudo compara duas grandezas. A produtividade primária bruta (GPP, na sigla em inglês) estima quanto carbono a vegetação fixa por meio da fotossíntese. A evapotranspiração (ET) reúne a água que evapora do solo e de superfícies e a que é liberada pelas plantas.
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Em muitos ecossistemas, os dois fluxos mantêm correlação positiva porque os estômatos das folhas se abrem para captar dióxido de carbono e, ao mesmo tempo, deixam vapor d’água escapar. Na Amazônia, porém, os autores encontraram fortes diferenças conforme o tipo de cobertura vegetal e a disponibilidade hídrica.
| Recorte analisado | Correlação média entre GPP e ET | Como interpretar |
|---|---|---|
| Floresta com menor déficit de água | -0,03 ± 0,14 | Relação praticamente nula, em média |
| Floresta com maior déficit de água | 0,19 ± 0,27 | Relação positiva, mas fraca |
| Áreas não florestais com maior déficit | 0,52 ± 0,27 | Relação positiva mais forte |
Os padrões mais fracos apareceram principalmente nas florestas úmidas do norte e do centro da bacia. Correlações mais fortes foram observadas no sul, em paisagens alteradas, áreas agrícolas, pastagens e vegetações sujeitas a maior limitação de água.
A estação seca ajuda a explicar a diferença
Segundo os pesquisadores, o desacoplamento é impulsionado sobretudo pelo comportamento divergente dos dois fluxos na estação seca. Em áreas florestais com água relativamente abundante, a evapotranspiração varia ao longo do ano mais do que a produtividade da vegetação.
O grupo também observou que a força da correlação diminuiu ao longo das quatro décadas, com queda especialmente clara em florestas intactas. No mesmo período, aumentou o déficit de pressão de vapor (VPD), indicador que expressa o quanto o ar está “sedento” por umidade.
A hipótese dos autores é que um VPD maior reduza a abertura dos estômatos e limite a fotossíntese, enquanto a atmosfera mais seca mantém elevada a demanda por evapotranspiração. O próprio artigo ressalta que essa coincidência não demonstra, por si só, uma relação causal. Mudanças de uso da terra, degradação, composição das espécies e disponibilidade de água também podem influenciar os fluxos.
Por que isso importa para o clima
Se o desacoplamento continuar, a floresta poderá perder mais água em relação ao carbono que incorpora. Para os autores, isso pode comprometer a capacidade da Amazônia de permanecer como sumidouro de carbono no longo prazo.
Essa é uma projeção condicional, não uma constatação de que toda a bacia já emite mais carbono do que absorve. O resultado chama atenção porque alguns modelos terrestres pressupõem uma ligação forte entre os dois processos. Se essa premissa não representar bem as florestas tropicais, estimativas sobre respostas futuras ao aquecimento podem precisar de ajustes.
O tema também se conecta ao papel da vegetação na formação de chuvas. O Portal N10 já mostrou que a perda de floresta pode reduzir a precipitação anual na Amazônia, embora o novo trabalho investigue uma pergunta diferente: como os fluxos de carbono e água variam juntos — ou deixam de variar.
Como o resultado foi verificado e quais são os limites
Além da série principal, os pesquisadores repetiram a análise com conjuntos independentes de dados de fluorescência induzida pelo Sol, balanço hídrico e outros produtos de produtividade e evapotranspiração. Também compararam os padrões com torres de fluxo do LBA instaladas em áreas de floresta, pastagem, vegetação seca e zonas sazonalmente inundadas.
Os autores reconhecem limitações importantes. Estimativas de grande escala dependem de algoritmos e de dados meteorológicos; a cobertura frequente de nuvens reduz a qualidade do sensoriamento remoto nos trópicos; e há poucas medições contínuas em campo para representar a diversidade da bacia. Os diferentes conjuntos variaram na magnitude da correlação, embora todos tenham apontado relações mais fracas em florestas do que em áreas não florestais.
O artigo é uma versão aceita e revisada por pares, disponibilizada antecipadamente. Ele possui DOI permanente e pode ser citado, mas ainda passará por edição antes da versão final de registro.
Fontes consultadas
- Artigo original na Nature Communications
- PDF integral do estudo
- Conjuntos de dados de evapotranspiração do NASA Earthdata
