Resumo da Notícia
A busca por alternativas mais seguras e eficazes ao uso prolongado de corticoides acaba de ganhar um novo e promissor capítulo no Brasil.
Pesquisadoras da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) desenvolveram um gel fitoterápico odontológico produzido a partir da casca do cajueiro, voltado ao tratamento do Líquen Plano Oral (LPO) — uma doença inflamatória crônica que afeta a cavidade bucal e ainda não possui cura definitiva.
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O LPO é uma condição que provoca lesões persistentes na mucosa oral, frequentemente dolorosas, com impacto direto na alimentação, na fala e na qualidade de vida dos pacientes. Até hoje, o tratamento mais comum baseia-se no uso de corticoides tópicos ou sistêmicos, terapias que, embora eficazes em curto prazo, apresentam efeitos adversos importantes quando utilizadas por períodos prolongados, além da perda progressiva de resposta clínica. É exatamente nesse ponto que a inovação desenvolvida no Rio Grande do Norte se destaca.
Uma formulação natural pensada para uso clínico
O produto criado pelas cientistas da UFRN consiste em uma formulação fitoterápica em gel, de uso odontológico, obtida a partir do extrato da casca do cajueiro (Anacardium occidentale) — espécie nativa da biodiversidade brasileira, amplamente presente no Nordeste. Conhecido há gerações na medicina popular, o cajueiro possui propriedades anti-inflamatórias, antimicrobianas, antioxidantes e cicatrizantes, características que o tornam especialmente adequado para o tratamento de lesões orais.
Diferentemente de soluções empíricas, a equipe de pesquisa estruturou o desenvolvimento do gel em etapas rigorosamente científicas, partindo do produto natural até chegar a uma formulação estável e segura para aplicação clínica. O resultado é um tratamento menos invasivo, aplicado diretamente sobre as lesões da cavidade oral, com potencial de acelerar a cicatrização e reduzir a inflamação de forma localizada.
A professora Waldenice de Alencar Morais Lima, do Departamento de Farmácia da UFRN, detalha o raciocínio por trás da inovação: “Pensamos em uma formulação em gel, com aplicação clínica oral tópica, que reunisse características de estabilidade, segurança e eficácia”. Segundo ela, a proposta alia o saber tradicional nordestino às comprovações científicas modernas sobre as atividades terapêuticas das espécies vegetais.
Ciência aplicada para reduzir riscos ao paciente

Ao substituir ou complementar o uso de corticoides, o gel fitoterápico representa uma alternativa terapêutica natural, com menor risco de efeitos colaterais e maior tolerabilidade. A aplicação direta sobre as áreas lesionadas favorece a regeneração tecidual e contribui para um controle mais eficiente da inflamação, sem sobrecarregar o organismo do paciente.
A pesquisadora Anna Clara de Araújo Gomes destaca o caráter inovador da formulação: “Essa formulação fitoterápica inova em diferentes aspectos científicos, tecnológicos e sociais. Trata-se de uma inovação que integra o conhecimento tradicional sobre as propriedades medicinais da casca do cajueiro a evidências científicas contemporâneas, resultando em um produto capaz de oferecer benefícios clínicos concretos aos pacientes”.
Ela ressalta ainda que o gel minimiza os efeitos adversos associados aos tratamentos convencionais, explorando de forma segura as atividades anti-inflamatórias, cicatrizantes e antioxidantes de uma planta genuinamente brasileira.
Pesquisa interdisciplinar e validação clínica
O desenvolvimento da formulação ocorreu entre 2023 e 2024, no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Ciências Odontológicas da UFRN, na área de Estomatologia e Patologia Oral. O trabalho resultou de uma colaboração direta entre os Laboratórios de Farmacognosia e Farmacotécnica do Departamento de Farmácia e o Departamento de Odontologia da universidade.
Em 2024, o gel foi utilizado em um estudo clínico, como parte do projeto de mestrado de Anna Clara Gomes de Araújo, permitindo a avaliação prática da formulação em pacientes com LPO. Waldenice Lima reforça a importância dessa integração: “A iniciativa só foi alcançada com êxito em virtude de uma colaboração interdisciplinar entre o Departamento de Odontologia e o Departamento de Farmácia da UFRN”.
A cientista explica ainda que o gel contém entre 3% e 5% de extrato seco da casca do cajueiro, liofilizado, e que o processo de fabricação utiliza métodos específicos para estabilizar o extrato bioativo, diferenciando-se de técnicas convencionais usadas em fitoterápicos odontológicos.
Patente, inovação e impacto social
O avanço científico resultou no pedido de depósito de patente intitulado “Produto a partir de formulações à base de extrato da casca do Anacardium occidentale Linn. (cajueiro) para o tratamento do líquen oral e outras inflamações da cavidade oral e seu processo de obtenção”. Entre os autores estão Janieli de Oliveira Melo, Brenda Kadja Dantas do Santos Rodrigues, Ruth Fernandes Borges, Ericka Janine Dantas da Silveira, Silvana Maria Zucolotto Langassner e Waldenice de Alencar Morais Lima.
Além do potencial clínico, a inovação possui forte impacto econômico e social. Toda a cadeia produtiva do gel pode ser desenvolvida em território nacional, desde o cultivo do cajueiro até o produto final, reduzindo a dependência de insumos importados e estimulando a geração de renda local, por meio de cultivos organizados ou extrativismo sustentável.
Atualmente, a formulação encontra-se em fase de avaliação para ampliação de uso em outras lesões orais, com novos estudos clínicos em andamento no Departamento de Odontologia da UFRN. Para a professora Ericka Janine Dantas da Silveira, o patenteamento reforça o papel da universidade pública: “Do ponto de vista acadêmico, o patenteamento fortalece a produção de conhecimento original e aplicável, incentivando a pesquisa translacional, que conecta os achados laboratoriais e clínicos ao desenvolvimento de formulações terapêuticas viáveis”.
