Pesquisadoras da UFRN criam gel natural que pode mudar o tratamento de doença bucal

O gel contém entre 3% e 5% de extrato seco liofilizado da casca do cajueiro e utiliza métodos específicos de estabilização do princípio ativo, diferenciando-se de formulações fitoterápicas convencionais e garantindo maior segurança e eficácia farmacológica.
Gel fitoterápico da UFRN promete tratamento mais seguro para lesões orais persistentes
Fórmula desenvolvida na UFRN utiliza insumos encontrados em território nacional e pode promover a geração de renda local. Foto: Cícero Oliveira-Agecom/UFRN

Resumo da Notícia

A busca por alternativas mais seguras e eficazes ao uso prolongado de corticoides acaba de ganhar um novo e promissor capítulo no Brasil.

Pesquisadoras da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) desenvolveram um gel fitoterápico odontológico produzido a partir da casca do cajueiro, voltado ao tratamento do Líquen Plano Oral (LPO) — uma doença inflamatória crônica que afeta a cavidade bucal e ainda não possui cura definitiva.

O LPO é uma condição que provoca lesões persistentes na mucosa oral, frequentemente dolorosas, com impacto direto na alimentação, na fala e na qualidade de vida dos pacientes. Até hoje, o tratamento mais comum baseia-se no uso de corticoides tópicos ou sistêmicos, terapias que, embora eficazes em curto prazo, apresentam efeitos adversos importantes quando utilizadas por períodos prolongados, além da perda progressiva de resposta clínica. É exatamente nesse ponto que a inovação desenvolvida no Rio Grande do Norte se destaca.

Uma formulação natural pensada para uso clínico

O produto criado pelas cientistas da UFRN consiste em uma formulação fitoterápica em gel, de uso odontológico, obtida a partir do extrato da casca do cajueiro (Anacardium occidentale) — espécie nativa da biodiversidade brasileira, amplamente presente no Nordeste. Conhecido há gerações na medicina popular, o cajueiro possui propriedades anti-inflamatórias, antimicrobianas, antioxidantes e cicatrizantes, características que o tornam especialmente adequado para o tratamento de lesões orais.

Diferentemente de soluções empíricas, a equipe de pesquisa estruturou o desenvolvimento do gel em etapas rigorosamente científicas, partindo do produto natural até chegar a uma formulação estável e segura para aplicação clínica. O resultado é um tratamento menos invasivo, aplicado diretamente sobre as lesões da cavidade oral, com potencial de acelerar a cicatrização e reduzir a inflamação de forma localizada.

A professora Waldenice de Alencar Morais Lima, do Departamento de Farmácia da UFRN, detalha o raciocínio por trás da inovação: Pensamos em uma formulação em gel, com aplicação clínica oral tópica, que reunisse características de estabilidade, segurança e eficácia. Segundo ela, a proposta alia o saber tradicional nordestino às comprovações científicas modernas sobre as atividades terapêuticas das espécies vegetais.

Ciência aplicada para reduzir riscos ao paciente

Cajueiro vira aliado da ciência em nova terapia contra inflamações orais crônicas
A doutoranda Janieli Melo e, ao fundo, as professoras Silvana Zucolotto e Waldenice Lima observam o processo de fabricação da inovação que se diferencia de técnicas convencionais por utilizar métodos específicos para estabilizar o extrato bioativo. Foto: Cícero Oliveira-Agecom/UFRN

Ao substituir ou complementar o uso de corticoides, o gel fitoterápico representa uma alternativa terapêutica natural, com menor risco de efeitos colaterais e maior tolerabilidade. A aplicação direta sobre as áreas lesionadas favorece a regeneração tecidual e contribui para um controle mais eficiente da inflamação, sem sobrecarregar o organismo do paciente.

A pesquisadora Anna Clara de Araújo Gomes destaca o caráter inovador da formulação: Essa formulação fitoterápica inova em diferentes aspectos científicos, tecnológicos e sociais. Trata-se de uma inovação que integra o conhecimento tradicional sobre as propriedades medicinais da casca do cajueiro a evidências científicas contemporâneas, resultando em um produto capaz de oferecer benefícios clínicos concretos aos pacientes.

Ela ressalta ainda que o gel minimiza os efeitos adversos associados aos tratamentos convencionais, explorando de forma segura as atividades anti-inflamatórias, cicatrizantes e antioxidantes de uma planta genuinamente brasileira.

Pesquisa interdisciplinar e validação clínica

O desenvolvimento da formulação ocorreu entre 2023 e 2024, no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Ciências Odontológicas da UFRN, na área de Estomatologia e Patologia Oral. O trabalho resultou de uma colaboração direta entre os Laboratórios de Farmacognosia e Farmacotécnica do Departamento de Farmácia e o Departamento de Odontologia da universidade.

Em 2024, o gel foi utilizado em um estudo clínico, como parte do projeto de mestrado de Anna Clara Gomes de Araújo, permitindo a avaliação prática da formulação em pacientes com LPO. Waldenice Lima reforça a importância dessa integração: A iniciativa só foi alcançada com êxito em virtude de uma colaboração interdisciplinar entre o Departamento de Odontologia e o Departamento de Farmácia da UFRN.

A cientista explica ainda que o gel contém entre 3% e 5% de extrato seco da casca do cajueiro, liofilizado, e que o processo de fabricação utiliza métodos específicos para estabilizar o extrato bioativo, diferenciando-se de técnicas convencionais usadas em fitoterápicos odontológicos.

Patente, inovação e impacto social

O avanço científico resultou no pedido de depósito de patente intitulado Produto a partir de formulações à base de extrato da casca do Anacardium occidentale Linn. (cajueiro) para o tratamento do líquen oral e outras inflamações da cavidade oral e seu processo de obtenção. Entre os autores estão Janieli de Oliveira Melo, Brenda Kadja Dantas do Santos Rodrigues, Ruth Fernandes Borges, Ericka Janine Dantas da Silveira, Silvana Maria Zucolotto Langassner e Waldenice de Alencar Morais Lima.

Além do potencial clínico, a inovação possui forte impacto econômico e social. Toda a cadeia produtiva do gel pode ser desenvolvida em território nacional, desde o cultivo do cajueiro até o produto final, reduzindo a dependência de insumos importados e estimulando a geração de renda local, por meio de cultivos organizados ou extrativismo sustentável.

Atualmente, a formulação encontra-se em fase de avaliação para ampliação de uso em outras lesões orais, com novos estudos clínicos em andamento no Departamento de Odontologia da UFRN. Para a professora Ericka Janine Dantas da Silveira, o patenteamento reforça o papel da universidade pública: Do ponto de vista acadêmico, o patenteamento fortalece a produção de conhecimento original e aplicável, incentivando a pesquisa translacional, que conecta os achados laboratoriais e clínicos ao desenvolvimento de formulações terapêuticas viáveis.

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