Musculação ajuda a proteger o cérebro contra demência, aponta estudo brasileiro

Mais do que aumentar a longevidade, a prática regular de musculação contribui para envelhecer com autonomia, independência e menor risco de doenças crônicas e neurodegenerativas.
Musculação ajuda a proteger o cérebro contra demência, aponta estudo brasileiro
Treino de força vai além da estética e ajuda a preservar a memória - Foto: weyo / Adobe Stock

Resumo da Notícia

A musculação deixou de ser, há muito tempo, uma atividade associada apenas à estética ou ao ganho de massa muscular. Cada vez mais, o treinamento de força vem sendo reconhecido como um dos pilares do envelhecimento saudável, com impactos que vão muito além da aparência física. O que a ciência tem demonstrado é que músculos fortes dialogam diretamente com a saúde do cérebro, influenciando memória, atenção e até o risco de desenvolver demência.

Essa relação ganhou novos contornos a partir de um estudo brasileiro conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), publicado na revista científica GeroScience.

A pesquisa mostrou que o treinamento de força não apenas melhora o desempenho cognitivo, como também promove alterações estruturais no cérebro de pessoas com comprometimento cognitivo leve.

Os achados reforçam uma mudança importante de paradigma: o músculo é hoje entendido como um órgão endócrino, capaz de produzir e liberar substâncias com efeitos sistêmicos no organismo, incluindo o sistema nervoso central. Entre essas substâncias estão as miocinas, proteínas liberadas durante a contração muscular que atuam como verdadeiros mensageiros químicos.

O estudo: musculação, memória e alterações na anatomia cerebral

A pesquisa envolveu 44 pessoas diagnosticadas com comprometimento cognitivo leve, condição considerada intermediária entre o envelhecimento normal e a doença de Alzheimer. Nessa fase, o declínio cognitivo é maior do que o esperado para a idade e indica risco aumentado de progressão para demência.

Ao longo do acompanhamento, os participantes realizaram treinamento de força estruturado, com foco em exercícios de musculação. Os resultados chamaram atenção por dois motivos centrais: houve melhora significativa no desempenho da memória e, paralelamente, mudanças detectáveis na anatomia cerebral, algo que nem sempre é observado em intervenções não farmacológicas.

Esses dados fortalecem a ideia de que a atividade física, quando bem direcionada, atua diretamente em mecanismos neurobiológicos ligados à proteção cerebral, e não apenas em aspectos comportamentais ou funcionais.

Músculos fortes, cérebro saudável

Para a fisioterapeuta Walkíria Brunetti, especialista em Saúde Postural, Dores Crônicas, Pilates, RPG e Liberação Miofascial, os resultados do estudo brasileiro dialogam com um corpo crescente de evidências científicas.

Segundo ela, a explicação está no papel das miocinas liberadas durante a contração muscular.

As miocinas agem como mensageiros químicos, que se comunicam com várias partes do corpo. Quando as miocinas são liberadas, elas alcançam o fígado, pâncreas, tecido adiposo, sistema imunológico e o cérebro. Além disso, os treinos de força também reduzem a inflamação do organismo, bem como ajudam no equilíbrio dos hormônios do estresse e do envelhecimento.”

Esse efeito sistêmico ajuda a compreender por que o treinamento de força passou a ser estudado como estratégia de neuroproteção, especialmente em populações mais velhas.

Musculação pode prevenir demência?

Com o envelhecimento acelerado da população mundial, cresce também a prevalência de doenças associadas à senilidade. Entre elas, a demência se destaca, sendo a doença de Alzheimer a forma mais comum. Diante desse cenário, intervenções não farmacológicas ganham relevância por serem acessíveis, seguras e sustentáveis ao longo do tempo.

De acordo com Walkíria Brunetti, as miocinas desempenham um papel central nesse processo.

As miocinas têm um efeito protetor no cérebro, pois ajudam na saúde dos neurônios, bem como estimulam a neuroplasticidade, que é a capacidade do cérebro de criar novas conexões. Elas melhoram a memória, o aprendizado e a atenção, além de reduzirem processos inflamatórios associados ao declínio cognitivo.”

Há ainda evidências científicas publicadas em periódicos acadêmicos brasileiros, como estudos divulgados em revistas da Universidade Federal de São Paulo, demonstrando que as miocinas liberadas durante as contrações musculares reduzem a inflamação cerebral e melhoram a saúde metabólica do cérebro.

Esses efeitos são considerados fundamentais para retardar os danos associados à demência e também impactam marcadores característicos da doença, como o acúmulo de beta-amiloide.

Portanto, frente às evidências que temos hoje, podemos afirmar que os treinos de força são cruciais para manter o cérebro e o corpo saudáveis, especialmente em idosos. Claro que quanto antes a pessoa investir no fortalecimento muscular, maior a chance de prevenir o Alzheimer e outras demências”, comenta a especialista.

Regularidade e planejamento fazem diferença

Outro ponto fundamental destacado pelos especialistas é que os benefícios não vêm de práticas esporádicas. Assim como ocorre com outros fatores de proteção à saúde, o efeito do exercício é cumulativo.

Em relação à musculação, o ideal é praticar treinos para os membros superiores e inferiores, em dias alternados. Portanto, estamos falando de três a quatro treinos por semana”, orienta Walkíria.

Ela acrescenta que combinar modalidades pode potencializar os resultados, especialmente em idosos.

O Pilates foca na musculatura profunda, especialmente no CORE, o grupo muscular que sustenta a coluna vertebral. Além disso, melhora o equilíbrio, a postura e a consciência corporal, trazendo benefícios também para a saúde mental, algo extremamente importante durante o processo natural do envelhecimento.”

Envelhecer mais não basta: é preciso envelhecer melhor

O aumento da expectativa de vida é uma conquista, mas traz desafios importantes. Viver mais sem qualidade significa perda de autonomia, dependência e maior risco de doenças crônicas, como diabetes, hipertensão e demências.

Nesse contexto, a musculação deixa de ser vista como atividade opcional e passa a ocupar espaço estratégico na promoção da saúde.

O mais importante é entender que, apesar de a expectativa de vida ter aumentado, é crucial envelhecer de forma saudável. Isso ajuda a manter a autonomia e a independência, além de prevenir ou reduzir o risco de desenvolver doenças como as demências. Para isso, é mandatório praticar atividades físicas que tragam benefícios reais para a saúde em geral, como os treinos de força”, finaliza Walkíria Brunetti.

Deixe um comentário

Seu e‑mail não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.