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Tecnologia imersiva pode ampliar reabilitação pós-AVC, indica estudo

Estudo na Nature Medicine testou VR com neuroestimulação em 34 pacientes pós-AVC; técnica mostrou melhora, mas ainda exige novos testes.
Médico aponta para exames de imagem cerebral em um consultório
Imagem De Freedomz via Adobe Stock

Resumo da Notícia

  • Plataforma MultiSensy combina realidade virtual e neuroestimulação para reabilitação pós-AVC.
  • Estudo randomizado com 34 pacientes mostrou melhora superior à reabilitação convencional.
  • Pesquisa avaliou ganhos em coordenação motora e sensibilidade do membro superior.
  • Autores ressaltam que o estudo é uma prova de conceito e exige novos testes para uso clínico amplo.
  • Especialistas reforçam que o tratamento pós-AVC deve ser sempre individualizado e orientado por profissionais.

Uma plataforma que combina realidade virtual imersiva com neuroestimulação sensorial apresentou melhora maior do que a reabilitação convencional em pacientes com sequelas crônicas de AVC no braço e na mão. O resultado vem de um estudo publicado na revista científica Nature Medicine.

A pesquisa avaliou a plataforma MultiSensy, desenvolvida para unir exercícios em ambiente virtual com estímulos elétricos aplicados pela pele. A proposta é reforçar, ao mesmo tempo, movimento, sensibilidade e percepção corporal do membro afetado pelo AVC.

O achado é relevante porque o acidente vascular cerebral pode deixar sequelas persistentes, como perda de força, dificuldade de coordenação, alterações de sensibilidade e limitação para atividades diárias. A Organização Mundial da Saúde classifica o AVC como uma emergência médica e destaca que a reabilitação é parte central do cuidado após o evento.

Como foi o estudo com realidade virtual após AVC

O trabalho incluiu 34 sobreviventes de AVC em duas etapas. A primeira foi um estudo piloto com 9 participantes, usado para avaliar usabilidade e efeitos iniciais da plataforma. A segunda foi um estudo randomizado de viabilidade com 25 pacientes, comparando MultiSensy com reabilitação convencional.

A pesquisa também aparece registrada no ClinicalTrials.gov, sob o identificador NCT06400823.

Na etapa randomizada, os participantes foram divididos em dois grupos:

GrupoParticipantesIntervenção
MultiSensy12Realidade virtual imersiva com neuroestimulação sensorial
Reabilitação convencional13Sessões supervisionadas por terapeutas, com duração e movimentos comparáveis

Os dois grupos passaram por 3 semanas de reabilitação do membro superior, com 12 sessões no total. As avaliações ocorreram no início, durante o tratamento, ao fim da intervenção e em um acompanhamento no 33º dia.

O que é a plataforma MultiSensy

A MultiSensy usa óculos de realidade virtual para colocar o paciente em tarefas digitais de reabilitação. Durante os exercícios, o sistema aplica estimulação elétrica transcutânea no braço afetado, direcionada ao nervo mediano, que participa da sensibilidade e do controle de regiões da mão.

Na prática, o paciente executa movimentos como alcançar objetos, pinçar, segurar, manipular itens virtuais e girar o antebraço. A estimulação é sincronizada com as ações no ambiente virtual, tentando aproximar a experiência visual da sensação tátil.

Além dos exercícios, a plataforma coleta dados do movimento ao longo das sessões. Isso permite medir velocidade, suavidade, precisão e desempenho, criando indicadores objetivos para acompanhar a evolução do paciente.

Resultado: melhora maior no braço e na mão

O grupo que usou a plataforma MultiSensy teve desempenho superior em duas escalas clínicas usadas para avaliar recuperação do membro superior após AVC.

Cobertura relacionadaMulheres acima dos 40 lideram diagnósticos de alterações na tireoide
Medida avaliadaMultiSensyReabilitação convencionalO que mede
FMA-UE13,17 ± 1,307,54 ± 1,48Comprometimento motor do membro superior
ARAT8,25 ± 1,962,44 ± 1,08Função do braço e da mão em tarefas práticas

A escala FMA-UE avalia movimentos do braço, punho, mão e coordenação. Já o ARAT mede a capacidade funcional em ações como agarrar, segurar e manipular objetos.

Segundo o estudo, todos os 12 pacientes do grupo MultiSensy alcançaram melhora clinicamente relevante na FMA-UE no acompanhamento. No ARAT, 8 dos 12 pacientes do grupo MultiSensy atingiram melhora clinicamente relevante.

A pesquisa também observou melhora na acuidade tátil da mão e na percepção corporal do braço afetado. Não foram relatados eventos adversos durante o estudo piloto nem durante a etapa randomizada.

Por que isso pode importar para a reabilitação pós-AVC

A reabilitação após AVC depende de repetição, intensidade e acompanhamento. Em muitos casos, a dificuldade está em manter treinos frequentes e personalizados depois da alta hospitalar ou em regiões com menor acesso a serviços especializados.

A plataforma testada tenta responder a esse problema com uma abordagem que une três pontos: exercício repetitivo, ambiente imersivo e feedback sensorial sincronizado. Em tese, isso pode aumentar o engajamento do paciente e oferecer dados mais objetivos para o terapeuta acompanhar a recuperação.

A própria OMS define reabilitação como um conjunto de intervenções para otimizar funcionalidade e reduzir incapacidade. No caso do AVC, isso envolve uma abordagem multidisciplinar, com fisioterapia, terapia ocupacional, fonoaudiologia, suporte cognitivo e acompanhamento psicológico, conforme a necessidade de cada paciente.

Módulo de reabilitação com neuroestimulação imersiva (Créditos: Nature Medicine (Nat Med) ISSN 1546-170X)

A conclusão ainda exige cautela

Apesar dos resultados positivos, o estudo não autoriza afirmar que a tecnologia já está pronta para uso amplo em hospitais, clínicas ou em casa.

Os próprios autores tratam o trabalho como um estudo de viabilidade e prova de conceito. A amostra foi pequena, com 25 pacientes na etapa randomizada. Além disso, o acompanhamento após a intervenção foi curto, limitado a duas semanas.

Outro ponto importante é que o estudo não permite separar com precisão qual componente foi mais decisivo: a realidade virtual, a neuroestimulação sensorial ou a combinação das duas. Para isso, seriam necessários novos ensaios comparando grupos com realidade virtual isolada, estimulação isolada e tratamento combinado.

O que muda para pacientes agora

Para pacientes e familiares, o principal recado é que a reabilitação pós-AVC continua sendo individualizada e deve ser orientada por profissionais de saúde.

Quem teve AVC e apresenta dificuldade de movimento, perda de sensibilidade, alteração de fala, equilíbrio ou independência nas atividades diárias deve procurar acompanhamento com equipe especializada. O tratamento pode envolver neurologista, fisiatra, fisioterapeuta, terapeuta ocupacional, fonoaudiólogo e outros profissionais, de acordo com cada caso.

A MultiSensy, por enquanto, deve ser vista como uma tecnologia promissora em pesquisa, não como tratamento já disponível de forma ampla.

Sinais de alerta para AVC

O Ministério da Saúde orienta atenção imediata a sinais como:

  • confusão mental;
  • alteração na fala ou dificuldade de compreensão;
  • alteração na visão;
  • dor de cabeça súbita e intensa, sem causa aparente;
  • tontura, perda de equilíbrio ou alteração para andar;
  • fraqueza ou formigamento em um lado do corpo, incluindo rosto, braço ou perna.

Em caso de suspeita de AVC, a orientação é acionar o SAMU 192, chamar os Bombeiros pelo 193 ou levar a pessoa imediatamente a um hospital. Quanto mais rápido for o atendimento, maiores são as chances de sobrevivência e recuperação.

Aurucci, G.V., Djordjevic, O., Cimolato, A. et al. Immersive virtual reality with synchronous neurostimulation for upper-limb recovery after stroke: a randomized feasibility trial. Nature Medicine (2026). https://doi.org/10.1038/s41591-026-04486-4

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