Resumo da Notícia
A endometriose ainda é uma das doenças ginecológicas mais subdiagnosticadas entre as mulheres, mesmo quando provoca sintomas capazes de afetar a rotina, a vida sexual, a saúde emocional e a fertilidade.
Em entrevista ao Portal N10, a médica integrativa e especialista em saúde da mulher Dra. Mariana Wogel reforçou que a dor menstrual intensa não deve ser tratada como algo “normal” quando interfere na vida da paciente.
No mês marcado pela Luta contra a Endometriose, o alerta ganha ainda mais importância porque muitas mulheres convivem por anos com sinais da doença sem investigação adequada. O problema, segundo a especialista, é que a condição costuma ser confundida com uma cólica menstrual forte, atrasando o diagnóstico e o início do tratamento.
A endometriose ocorre quando um tecido semelhante ao endométrio, camada que reveste o útero, cresce fora dele. Esse tecido pode atingir ovários, trompas, intestino, bexiga e outras áreas da pelve, favorecendo inflamação, dor pélvica crônica, cólicas incapacitantes, dor durante a relação sexual, alterações intestinais ou urinárias e, em alguns casos, dificuldade para engravidar.
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Dor incapacitante não deve ser normalizada
Para a Dra. Mariana Wogel, um dos maiores desafios ainda é a forma como a dor feminina é naturalizada desde cedo. Muitas pacientes passam anos suportando sintomas intensos por acreditarem que aquilo faz parte do ciclo menstrual.
“Muitas mulheres crescem ouvindo que sentir dor forte na menstruação é normal. O problema é que isso faz com que sintomas incapacitantes sejam suportados por muito tempo, sem investigação. Quando a dor interfere na rotina, no trabalho, no sono, na vida sexual ou no bem-estar, ela precisa ser levada a sério”, afirma.
Além da cólica forte, outros sinais podem levantar suspeita de endometriose. Entre eles estão dor durante a relação sexual, dor para evacuar no período menstrual, distensão abdominal, sangramento irregular e dor pélvica persistente.
O diagnóstico costuma demorar justamente porque esses sintomas podem ser banalizados ou atribuídos a outras causas. Por isso, a orientação central é não esperar que a dor se torne insuportável para procurar avaliação médica.
Quais fatores estão associados à endometriose?
As causas da endometriose ainda não são completamente definidas. A literatura médica aponta que a doença tem origem multifatorial, ou seja, não depende de um único fator.
Entre os elementos associados estão predisposição genética, alterações hormonais, resposta inflamatória aumentada, fatores imunológicos e a chamada menstruação retrógrada, quando parte do fluxo menstrual faz o caminho inverso dentro da pelve.
Para a especialista, compreender essa complexidade ajuda a combater explicações simplistas sobre a doença.
“A endometriose não acontece por um único motivo. Existe uma combinação de fatores hormonais, inflamatórios e individuais, e isso ajuda a explicar por que algumas pacientes têm quadros mais leves e outras convivem com dor intensa, impacto importante na qualidade de vida e repercussões na fertilidade”, diz.
Essa diferença entre os quadros também explica por que o cuidado precisa considerar a experiência individual de cada mulher. Algumas pacientes apresentam sintomas mais leves, enquanto outras enfrentam limitações importantes no trabalho, no sono, na vida íntima e no bem-estar.
Tratamento precisa ser individualizado
O tratamento da endometriose varia conforme a intensidade dos sintomas, a localização das lesões, a resposta clínica e o desejo reprodutivo da paciente. Entre as possibilidades estão medicamentos para controle da dor, terapias hormonais para reduzir a atividade da doença e, em alguns casos, cirurgia para retirada das lesões.
Segundo a Dra. Mariana Wogel, não existe uma única solução que sirva para todas as pacientes.
“Nem toda paciente vai precisar de cirurgia, assim como nem toda abordagem hormonal será suficiente. O tratamento precisa ser individualizado, olhando para dor, inflamação, sintomas intestinais, impacto emocional, saúde da mulher como um todo e também para os planos reprodutivos daquela paciente”, afirma.
A médica também defende que o cuidado não deve olhar apenas para a lesão ginecológica. Como a endometriose é uma condição inflamatória crônica, seus efeitos podem atingir diferentes dimensões da vida da mulher.
“Quando falamos em endometriose, não estamos falando apenas de uma lesão ginecológica. Estamos falando de uma doença inflamatória crônica que pode afetar sono, energia, humor, intestino, libido, fertilidade e qualidade de vida. O olhar integrativo ajuda justamente a enxergar a mulher além do sintoma isolado”, diz.
Endometriose sempre causa infertilidade?
A relação entre endometriose e fertilidade é uma das principais preocupações entre as pacientes. A Dra. Mariana Wogel explica que o diagnóstico não significa, automaticamente, que a mulher terá dificuldade para engravidar.
No entanto, a doença pode interferir na fertilidade dependendo da extensão e da localização das lesões. Por isso, o tema deve ser conversado cedo, principalmente quando há desejo de gestação.
“Receber o diagnóstico não significa, automaticamente, infertilidade. Mas significa que esse tema deve ser discutido precocemente, principalmente quando há desejo de gestação”, afirma.
O alerta reforça a necessidade de investigação adequada e acompanhamento individualizado. Quanto mais cedo os sintomas são reconhecidos e avaliados, maiores as chances de definir uma estratégia de cuidado compatível com a realidade da paciente.
Informação e escuta podem mudar o diagnóstico
O principal recado da especialista é direto: dor intensa não deve ser romantizada. Quando a cólica impede a mulher de trabalhar, dormir, estudar, manter relações sexuais ou viver sua rotina com qualidade, é preciso investigar.
“Dor intensa não deve ser romantizada nem tratada como parte obrigatória da vida da mulher. Informação, escuta e investigação precoce fazem diferença no diagnóstico, no tratamento e na qualidade de vida”, conclui.
A endometriose exige atenção porque pode ir muito além de um desconforto menstrual. Ela pode afetar o corpo, a saúde emocional, os planos reprodutivos e a forma como a mulher vive sua própria rotina. O primeiro passo é romper a ideia de que sofrer todos os meses é algo inevitável.
