Novo estado da matéria pode existir no interior de planetas do nosso sistema solar, aponta estudo

A descoberta tem relação com o estudo de planetas gigantes porque Urano, Netuno e exoplanetas do tipo sub-Netuno podem conter camadas internas de “gelos quentes”, formadas por compostos submetidos a condições muito diferentes das observadas na superfície da Terra.
Estudo prevê forma exótica de matéria em condições parecidas com interiores planetários
Representação artística de Netuno e sua maior lua, Tritão. (Crédito da imagem: NASA GSFC/Dan Gallagher)

Resumo da Notícia

  • Um novo estudo publicado na Nature Communications sugere a existência de um estado incomum da matéria, chamado superiônico quase unidimensional, sob condições extremas.
  • A pesquisa, baseada em simulações computacionais e aprendizado de máquina, analisou o comportamento do hidreto de carbono sob altas pressões e temperaturas.
  • Nessa fase, átomos de carbono formam uma rede rígida e hidrogênios se movem em caminhos helicoidais, criando um estado intermediário entre sólido e líquido.
  • A descoberta pode ajudar a entender a física interna de planetas gigantes como Urano e Netuno, e exoplanetas do tipo sub-Netuno.
  • O estudo não detectou diretamente essa fase em planetas, mas aponta para sua possibilidade física em ambientes de alta pressão e temperatura.
  • A anisotropia da condutividade elétrica e térmica em materiais sob essas condições pode influenciar modelos de campos magnéticos planetários.
Continua após o anúncio

Um estudo publicado na Nature Communications prevê a existência de um estado incomum da matéria em condições extremas semelhantes às encontradas no interior de planetas gigantes. A pesquisa, baseada em simulações computacionais de física quântica e potenciais interatômicos com aprendizado de máquina, identificou uma fase chamada de superiônica quase unidimensional em um composto de carbono e hidrogênio, o hidreto de carbono, sob pressões e temperaturas muito elevadas. A descoberta ajuda a entender como calor, eletricidade e partículas podem se mover em ambientes profundos de planetas como Urano, Netuno e exoplanetas do tipo sub-Netuno.

O trabalho é assinado por Cong Liu, R. E. Cohen e Jian Sun e foi publicado em 16 de março de 2026, no volume 17 da revista científica. Embora o resultado seja uma previsão teórica, e não uma observação direta dentro de um planeta, ele amplia a compreensão sobre como compostos aparentemente simples podem se comportar de maneira altamente complexa quando submetidos a pressões milhões de vezes maiores que a pressão atmosférica da Terra.

O que o estudo descobriu?

Continua após o anúncio

A principal descoberta é que, sob determinadas condições de pressão e temperatura, o hidreto de carbono pode assumir uma estrutura em que os átomos de carbono formam uma espécie de rede rígida, enquanto os átomos de hidrogênio se movimentam por caminhos helicoidais. Em vez de circularem livremente em todas as direções, como ocorreria em uma fase superiônica comum, os hidrogênios se deslocam preferencialmente ao longo de um eixo, como se seguissem uma “trilha” em espiral dentro da estrutura de carbono.

Esse comportamento levou os pesquisadores a descreverem o fenômeno como uma fase superiônica quase 1D, ou quase unidimensional. Em termos simples, trata-se de um estado intermediário: parte da estrutura se mantém ordenada, como em um sólido, enquanto outra parte apresenta mobilidade, como em um líquido. A diferença é que essa mobilidade não acontece de forma totalmente livre, mas de maneira orientada e anisotrópica, ou seja, com propriedades diferentes conforme a direção observada.

O que significa uma fase superiônica?

Uma fase superiônica é um estado exótico da matéria em que um tipo de átomo permanece organizado em uma rede cristalina, enquanto outro tipo passa a se mover dentro dessa estrutura. É como se parte do material continuasse sólida, mas outra parte ganhasse mobilidade semelhante à de um líquido.

No caso previsto pelo novo estudo, o carbono forma a estrutura mais rígida, enquanto o hidrogênio se movimenta. A novidade é que esse movimento não ocorre de forma totalmente tridimensional no primeiro momento. O hidrogênio difunde ao longo do eixo helicoidal e, ao mesmo tempo, apresenta movimento rotacional no plano transversal. Por isso, os autores classificam essa fase como algo diferente dos estados já conhecidos de sólido, plástico, superiônico 3D e fluido.

R. E. Cohen resumiu o ponto central da descoberta ao afirmar que a fase prevista “é particularmente impressionante porque o movimento atômico não é totalmente tridimensional”. Segundo ele, o hidrogênio se move preferencialmente por caminhos helicoidais bem definidos dentro de uma estrutura ordenada de carbono.

Ilustração do composto de hidreto de carbono hexagonal previsto sob condições internas semelhantes às de Netuno. Nesta estrutura, o carbono forma as cadeias espirais externas (amarelas) e o hidrogênio forma as cadeias espirais internas (azuis), o que está de acordo com o comportamento superiônico quase unidimensional identificado em simulações de primeiros princípios. Cortesia: Cong Liu.

Por que isso tem relação com Urano e Netuno?

Urano e Netuno são classificados como gigantes gelados, mas esse termo não significa que seus interiores sejam formados por gelo comum, como o encontrado na Terra. Modelos de densidade indicam que esses planetas podem ter uma camada intermediária composta por “gelos quentes”, formada principalmente por água, metano e amônia, localizada entre uma região externa rica em hidrogênio e hélio e um núcleo rochoso.

Sob pressões e temperaturas extremas, essas substâncias deixam de se comportar como moléculas familiares. O metano, por exemplo, pode se dissociar sob alta pressão, gerando fases ricas em hidrogênio e formas de carbono como o diamante. É nesse contexto que entender a relação entre carbono e hidrogênio se torna relevante para a ciência planetária.

Os pesquisadores simularam condições de aproximadamente 500 a 3.000 gigapascals, faixa equivalente a milhões de vezes a pressão atmosférica da Terra. A equipe também avaliou temperaturas muito altas, em diferentes regimes de simulação, para entender como o composto CH mudaria de comportamento conforme o aquecimento.

Essa matéria existe mesmo dentro de Urano e Netuno?

Essa é uma das partes mais importantes para evitar exagero na interpretação. O estudo não afirma que a fase superiônica quase unidimensional foi detectada diretamente dentro de Urano ou Netuno. Também não sustenta, de forma definitiva, que essa fase específica exista nesses planetas exatamente como descrita nas simulações.

Os próprios autores fazem uma ressalva relevante: as pressões associadas à fase quase unidimensional podem ser improváveis dentro de Urano ou Netuno, mas planetas mais massivos, como alguns sub-Netunos, poderiam se aproximar desse regime. Ao mesmo tempo, o estudo indica que uma fase superiônica 3D do hidreto de carbono poderia sobreviver em condições compatíveis com alguns modelos do interior de Netuno.

Cobertura relacionadaEstudantes do RN criam “tinta” que pode evitar morte de aves em torres eólicas

Portanto, a leitura correta é que a pesquisa abre uma possibilidade física importante. Ela mostra que materiais simples, quando comprimidos e aquecidos ao extremo, podem gerar formas inesperadas de organização atômica. Isso serve como pista para compreender o interior de planetas gigantes, mas ainda depende de novos modelos, experimentos e simulações mais completas.

Continua após o anúncio

Como o hidrogênio se comporta nessa estrutura?

O estudo propõe que, em determinadas condições, o hidrogênio fica confinado em canais helicoidais dentro de uma rede de carbono. Na fase quase unidimensional, os átomos de hidrogênio se movem ao longo do eixo da hélice, enquanto apresentam rotação no plano perpendicular. Isso cria um tipo de mobilidade mista: não é um sólido comum, mas também não é um fluido livre.

Com o aumento da temperatura, o material passa por uma sequência de mudanças. Primeiro aparece a fase sólida. Depois surge a fase superiônica quase 1D. Em temperaturas mais altas, o sistema pode entrar em uma fase superiônica 3D, na qual o hidrogênio passa a se mover de forma mais ampla. Por fim, em condições ainda mais extremas, o composto se torna fluido.

Essa sequência é importante porque mostra que o comportamento do material não muda de uma vez. Há etapas intermediárias, e cada uma delas altera a forma como energia, carga elétrica e calor se deslocam.

Por que isso pode mudar a compreensão dos campos magnéticos?

Campos magnéticos planetários dependem, em parte, da circulação de materiais condutores no interior dos planetas. Em modelos tradicionais, muitas vezes se presume que a condutividade ocorre de maneira mais uniforme. O novo estudo sugere que, em algumas fases extremas, essa condutividade pode ser direcional.

Na fase superiônica quase 1D do hidreto de carbono, a condutividade elétrica e a condutividade térmica são mais fortes ao longo do eixo em que o hidrogênio se move com mais facilidade. Ou seja, o material pode conduzir energia e carga de modo diferente dependendo da direção.

Essa característica é chamada de anisotropia. Em escala planetária, materiais anisotrópicos podem influenciar a maneira como calor e eletricidade são redistribuídos em regiões profundas. Isso não significa que o estudo explique sozinho os campos magnéticos de Urano e Netuno, mas oferece um mecanismo microscópico que pode ser considerado em modelos futuros.

O que torna a descoberta diferente de outros estudos sobre “gelos quentes”?

A ciência já investiga há anos fases superiônicas de água, amônia e outros compostos em condições extremas. O diferencial deste estudo está na combinação de dois elementos abundantes, carbono e hidrogênio, formando uma estrutura helicoidal e quiral.

Segundo os autores, o composto CH previsto nas simulações apresenta uma estrutura com versões de “mão direita” e “mão esquerda”, uma característica conhecida como quiralidade. Esse arranjo geométrico cria uma arquitetura interna na qual o hidrogênio encontra caminhos preferenciais para se mover.

Cong Liu destacou que carbono e hidrogênio estão entre os elementos mais abundantes em materiais planetários, mas o comportamento conjunto desses elementos em condições de planetas gigantes ainda não é totalmente compreendido. Essa observação reforça o peso da pesquisa: mesmo combinações químicas simples podem apresentar respostas inesperadas quando levadas ao limite físico.

O estudo foi feito em laboratório ou por simulação?

A pesquisa foi feita por simulações computacionais, não por experimentos diretos em laboratório. Os cientistas utilizaram cálculos de primeiros princípios, dinâmica molecular ab initio e potenciais interatômicos com aprendizado de máquina para prever estruturas, estabilidade e propriedades de transporte do composto.

Isso não reduz a importância do achado, mas define seu alcance. Em condições tão extremas, reproduzir experimentalmente todas as variáveis é um desafio enorme. Por isso, simulações avançadas são usadas para indicar quais fases podem existir e quais propriedades elas teriam se forem formadas.

Os dados de apoio do estudo foram disponibilizados no Zenodo, e os autores também informaram o uso de ferramentas como MAGUS, LAMMPS, DeepMD, SPR-KKR e VASP em diferentes etapas da pesquisa.

O que essa descoberta muda na prática?

No curto prazo, a descoberta não muda a exploração espacial nem confirma uma nova camada específica dentro de Urano ou Netuno. O impacto imediato está no campo científico: o estudo oferece uma nova forma de pensar a matéria sob compressão extrema.

A fase superiônica quase unidimensional funciona como uma ponte conceitual entre sólidos plásticos e matéria superiônica plenamente desenvolvida. Isso pode ajudar pesquisadores a construir modelos mais precisos de planetas gigantes, exoplanetas e materiais submetidos a pressões altíssimas.

Além da ciência planetária, há interesse em materiais com transporte direcional de calor e eletricidade. A identificação de fenômenos emergentes fortemente direcionais pode contribuir, no futuro, para pesquisas em física da matéria condensada, engenharia de materiais e sistemas submetidos a condições extremas.

Deixe um comentário

Seu e‑mail não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.