Vídeo da PF registra sócios da Dismed citando 15% para Allyson em contratos de Mossoró
Escuta ambiental feita pela Polícia Federal no escritório da Dismed registra empresários discutindo uma ordem de compra de R$ 400 mil e mencionando percentuais de 15% para Allyson Bezerra e 10% para uma mulher chamada “Fátima”.
Resumo da Notícia
- Gravação integra o material reunido pela Polícia Federal na Operação Mederi.
- Empresários usam uma ordem de compra de R$ 400 mil para explicar o que chamam de “matemática de Mossoró”.
- No diálogo, são mencionados 15% para Allyson Bezerra e 10% para “Fátima”.
- Diário Oficial de Mossoró confirma que Maria de Fátima Dantas dos Santos, apontada pela PF como possível pessoa citada nas conversas, ocupou cargo comissionado na prefeitura.
Um vídeo produzido a partir de escuta ambiental da Polícia Federal registra dois empresários investigados na Operação Mederi discutindo a divisão de valores relacionados ao fornecimento de medicamentos para a Prefeitura de Mossoró. Na conversa, os sócios da Dismed Distribuidora, Oseas Monthalggan Fernandes Costa e José Moabe Zacarias Soares, utilizam uma ordem de compra de R$ 400 mil para explicar um cálculo que um deles chama de “matemática de Mossoró”.
A gravação, inicialmente divulgada nesta quinta-feira (24) pelo Diário do RN e incorporada ao material da investigação, contém referências nominais ao ex-prefeito de Mossoró e atual candidato ao Governo do Rio Grande do Norte, Allyson Bezerra (União Brasil), e a uma mulher identificada apenas como “Fátima”. No cálculo narrado por um dos empresários, aparecem percentuais de 15% atribuídos a Allyson e de 10% destinados a “Fátima”.
O conteúdo amplia os elementos já conhecidos da Operação Mederi. Em janeiro, o Portal N10 mostrou que Allyson Bezerra foi alvo de mandado de busca e apreensão na operação da Polícia Federal que investigava contratos da saúde em municípios do Rio Grande do Norte. A ação foi realizada pela PF em conjunto com a Controladoria-Geral da União (CGU), que mantém a Operação Mederi entre as operações especiais realizadas em 2026.
O que aparece na chamada “matemática de Mossoró”
A gravação foi realizada dentro do escritório da Dismed, em Mossoró, por meio de captação ambiental utilizada pela Polícia Federal durante a investigação. O relatório identifica os interlocutores como Oseas Monthalggan Fernandes Costa e José Moabe Zacarias Soares, ligados à distribuidora que mantinha contratos de fornecimento de medicamentos com o município.
No trecho divulgado, um dos empresários começa o cálculo utilizando uma ordem de compra de R$ 400 mil. Segundo a explicação registrada, somente metade desse valor — R$ 200 mil — corresponderia inicialmente aos produtos entregues, enquanto o restante entraria no cálculo feito pelos interlocutores.
Na sequência, o empresário afirma que, dos valores restantes após os cálculos de custo e margem da empresa, R$ 100 mil precisariam ser destinados a Allyson e “Fátima”. É nesse momento que ele menciona os percentuais de 15% para Allyson e 10% para Fátima.
A conversa não aparece isoladamente no inquérito. A Operação Mederi foi aberta para investigar justamente indícios de irregularidades na aquisição de insumos para redes públicas de saúde, incluindo situações de produtos não entregues, fornecimento inadequado e suspeitas de sobrepreço. Quando a operação foi deflagrada, em 27 de janeiro, foram cumpridos 35 mandados de busca e apreensão no Rio Grande do Norte.
Dismed recebeu contratos da saúde de Mossoró
Registros públicos mostram que a Dismed efetivamente mantinha negócios com a Secretaria Municipal de Saúde. Em um dos procedimentos disponíveis no Diário Oficial de Mossoró, referente ao Pregão Eletrônico nº 07/2024-SMS, a empresa foi adjudicada em R$ 2.163.323,84 para fornecimento de medicamentos destinados à Farmácia Básica das unidades municipais de saúde. O valor global daquele procedimento, que reunia diferentes fornecedores, chegou a R$ 3,93 milhões.
Esse processo específico não representa, sozinho, todo o relacionamento financeiro entre a distribuidora e o município. Dados reunidos durante a cobertura da Operação Mederi apontam pagamentos acumulados em diferentes contratos e exercícios, justamente o material que passou a ser examinado pelos investigadores para confrontar licitações, ordens de compra, pagamentos e o efetivo fornecimento dos medicamentos.
A investigação nasceu de auditorias que identificaram problemas na execução de contratos públicos de saúde. Entre os pontos levantados estavam indícios de pagamento por itens não entregues, fornecimento inadequado e sobrepreço, com empresas do Rio Grande do Norte atuando junto a diferentes administrações municipais.
Quem é a “Fátima” mencionada na gravação
Outro documento da investigação analisado nesta quinta-feira acrescenta uma nova peça ao caso. A Polícia Federal relacionou a mulher chamada de “Fátima” nas conversas dos empresários a Maria de Fátima Dantas dos Santos. A identificação foi feita a partir do cruzamento das gravações com informações públicas e registros municipais. O próprio relatório policial, porém, registra que essa associação ainda demandava diligências complementares para confirmação.
Há um vínculo funcional documentado entre Maria de Fátima e a administração municipal. A Portaria nº 157, de 26 de março de 2024, publicada no Diário Oficial de Mossoró, mostra que ela foi nomeada por Allyson Bezerra para exercer cargo comissionado de assessora de Comunicação, símbolo CC11, na Secretaria Municipal de Comunicação Social.
Registros posteriores do próprio município também mostram Maria de Fátima exercendo funções administrativas. Em agosto de 2024, por exemplo, ela aparece como substituta eventual na fiscalização de contrato da Secretaria de Comunicação. Em abril de 2025, outro ato oficial a identifica como coordenadora de cerimônias de Mossoró.
A Polícia Federal chegou ao nome depois de identificar diversas referências a “Fátima” nos arquivos da escuta ambiental. Segundo o relatório reproduzido pelo BNews RN, os investigadores também relacionaram trechos das conversas a informações sobre eventos realizados em Mossoró e consultaram bases públicas antes de apontar Maria de Fátima como provável pessoa mencionada pelos empresários.
Operação Mederi começou em janeiro
A Mederi foi deflagrada em 27 de janeiro pela Polícia Federal com apoio da CGU. Desde o primeiro dia, a apuração esteve concentrada em suspeitas de desvio de recursos públicos e fraudes em contratações da saúde. Além de Mossoró, a investigação alcançou contratos e agentes públicos ligados a outros municípios potiguares.
Naquela ocasião, o Portal N10 acompanhou o cumprimento das buscas contra Allyson e a investigação sobre contratos municipais de fornecimento de insumos. A defesa do então prefeito afirmou que ele havia colaborado com as diligências e sustentou a correção de sua conduta. Posteriormente, Allyson voltou a negar participação nas irregularidades investigadas.
A apuração também avançou sobre a validade das provas produzidas. Em agosto, o Tribunal Regional Federal da 5ª Região manteve a investigação no tribunal e rejeitou pedido apresentado pela defesa da Dismed para invalidar materiais obtidos no curso da Mederi, incluindo a captação ambiental instalada na sede da distribuidora, além de quebras de sigilos bancário, fiscal e telemático.
Caso também chegou à campanha eleitoral
A investigação passou a aparecer diretamente na campanha ao Governo do RN. Allyson deixou a Prefeitura de Mossoró e disputa o Executivo estadual pelo União Brasil. Nas últimas semanas, referências à Operação Mederi foram utilizadas por adversários em debates e no horário eleitoral.
Em setembro, a defesa de Allyson recorreu à Justiça Eleitoral contra propaganda de Álvaro Dias (PL) que mencionava a operação, a busca realizada pela PF e suspeitas relacionadas aos contratos da saúde. O pedido de direito de resposta foi rejeitado pelo TRE-RN. A defesa argumentava que a propaganda apresentava uma investigação ainda em curso como imputação de crime.
O Portal N10 também vem acompanhando as propostas apresentadas por Allyson na campanha, como o projeto para uma terceira ponte sobre o Rio Potengi e a criação de uma estrutura estadual voltada à elaboração de grandes projetos. A divulgação do vídeo acrescenta agora um novo elemento factual à cobertura da investigação que acompanha o candidato desde janeiro.
O material divulgado nesta quinta-feira permanece inserido em uma investigação em andamento. A gravação documenta o que os empresários disseram entre si e integra os elementos reunidos pela Polícia Federal; a responsabilização criminal individual depende do andamento do inquérito, da atuação do Ministério Público e de eventual processo judicial.


