Resumo da Notícia
O Brasil recebe mais de 1 bilhão de ligações abusivas por mês, com média de 305,7 mil chamadas por minuto, segundo estudo do Idec (Instituto de Defesa de Consumidores) divulgado nesta terça-feira (28).
O volume colocou o país na posição de líder mundial em telemarketing indesejado e transformou o problema em algo maior do que incômodo: as chamadas já afetam a rotina, o comportamento dos consumidores e até o contato de serviços essenciais com a população.
O dado mais grave do levantamento está na origem das chamadas. Segundo o Idec, 92% das pessoas que recebem ligações abusivas não têm qualquer relação com as empresas que fazem o contato. Para o instituto, isso indica uso massivo e irregular de dados pessoais, muitas vezes sem consentimento claro.
Entre junho de 2022 e dezembro de 2024, o país registrou mais de 1 bilhão de chamadas abusivas por mês, o equivalente a 743 ligações por habitante no período. Em 2025, o cenário seguiu em escala extrema: foram 161,16 bilhões de chamadas curtas, com até seis segundos de duração, geralmente feitas por robôs para testar se um número está ativo.
Mesmo com bloqueios regulatórios, cerca de 24,1 bilhões dessas chamadas chegaram efetivamente aos consumidores. No total, o Brasil já acumula mais de 126 bilhões de ligações automatizadas.
Como o excesso de chamadas muda o comportamento dos consumidores
Para o Idec, o problema já passou da fase de simples irritação. A repetição de chamadas provoca perda de tempo, estresse e mudança de comportamento, especialmente porque muitos consumidores passaram a evitar números desconhecidos.
Há casos extremos que ajudam a dimensionar a saturação. Um consumidor chegou a receber 65 ligações em um único dia útil. Esse tipo de cenário também começa a afetar serviços essenciais: equipes de saúde relatam dificuldade para falar com pacientes que deixaram de atender chamadas telefônicas por receio de telemarketing ou golpes.
Aposentados e idosos estão entre os mais afetados
O estudo também chama atenção para o impacto sobre aposentados e idosos. Segundo o Idec, há registros de ofertas agressivas de crédito consignado feitas sem consentimento adequado, muitas vezes com base em dados obtidos de forma irregular.
A estimativa é que mais de 4 milhões de aposentados e pensionistas tenham sido prejudicados por esse tipo de abordagem. O problema envolve, com frequência, falta de informação clara e indução ao erro, especialmente em ofertas direcionadas a pessoas mais vulneráveis.
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O que o Idec propõe para reduzir as ligações abusivas
Apesar de iniciativas recentes de órgãos reguladores, o Idec avalia que as medidas atuais ainda são insuficientes. Para a entidade, as ações são fragmentadas e não enfrentam o ponto central do problema: o uso de dados pessoais sem autorização.
“O que vemos hoje é um sistema que ainda permite o uso de dados pessoais sem consentimento claro e informado. Isso sustenta um modelo de telemarketing que viola direitos e impacta a vida de milhões de brasileiros diariamente”, explicou Julia Abad, coordenadora do programa de Telecomunicações e Direitos Digitais do Idec.
A principal proposta do instituto é mudar o modelo atual e permitir o telemarketing ativo apenas com autorização prévia do consumidor, o chamado modelo opt-in. O pacote defendido pelo Idec também inclui limitar o horário das ligações, das 8h às 18h em dias úteis, restringir o uso de robôs, criar uma plataforma nacional para gestão de consentimento e reduzir o uso da justificativa de “legítimo interesse” pelas empresas.
Discussão também chegou ao Congresso e à Anatel
O tema está em discussão no Congresso Nacional, com projetos de lei voltados ao controle de chamadas abusivas e ao uso de dados pessoais. A pressão por novas regras ocorre em meio à avaliação de que os mecanismos atuais não conseguiram conter a escala do problema.
Ao fim de 2025, a Anatel apontou que todas as operadoras deveriam aderir ao programa “Não Me Perturbe”, base de dados formada por pessoas que não querem mais receber chamadas indesejadas.
A discussão, portanto, deixou de ser apenas sobre telemarketing. O centro do debate passou a ser o controle sobre dados pessoais, o uso de robôs e o direito do consumidor de não ser abordado de forma insistente por empresas com as quais nunca teve relação.
