Resumo da Notícia
Uma fala do senador Styvenson Valentim (PSDB-RN) durante agenda em Parelhas, na região Seridó, abriu uma nova crise política e institucional no Rio Grande do Norte. Policial militar da reserva e ex-capitão da corporação, Styvenson afirmou no último domingo (29/03) que os coronéis da Polícia Militar “não fazem nada” e que poderiam estar “ganhando dinheiro fácil”.
A declaração provocou reação imediata do Comando da PMRN, da Associação dos Oficiais Militares Estaduais e também do líder do governo na Assembleia Legislativa, Francisco do PT.
O senador fez a declaração ao comentar sua trajetória política e profissional. “Não me arrependo nenhum dia de estar aqui representando vocês, não me arrependo. Podia estar de coronel hoje, na PM, sem fazer nada. Porque tu sabe, né, que coronel não faz nada. Capitão já não fazia, só eu que trabalhava. Podia estar lá na PM, ganhando dinheiro fácil, já beirando me aposentar, mas não, fui lá, fazer o que eu não sabia fazer“, disse Styvenson.
A fala rapidamente repercutiu além do evento em Parelhas, porque atinge diretamente o topo da hierarquia da Polícia Militar potiguar e parte justamente de um ex-integrante da corporação. Styvenson foi capitão da PM quando venceu a eleição de 2018 para o Senado. O mandato dele se encerra neste ano.
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Comando da PM reage e diz que fala desqualifica oficiais de alta patente
Em nota assinada pelo coronel Alarico Azevedo, comandante da Polícia Militar do Rio Grande do Norte, a corporação manifestou “profundo lamento” e “discordância” em relação às declarações do senador. O texto deixa claro que o comando viu na fala uma tentativa de desqualificar o trabalho dos oficiais superiores.
“Causa estranheza e indignação que tais palavras, que tentam desqualificar o trabalho de oficiais de alta patente, partam de um membro da reserva da nossa própria corporação“, diz a nota.
O comando também rebateu diretamente o conteúdo da fala de Styvenson. “Ao afirmar que “coronéis não fazem nada” e sugerir que o serviço na PM seria um meio de auferir “dinheiro fácil”, o parlamentar ignora a realidade de dedicação extrema, o risco de vida inerente à profissão e a alta complexidade técnica que envolve a segurança pública contemporânea“, afirmou a PMRN.
Na mesma nota, a corporação sustentou que o papel do oficialato superior está longe da inércia apontada pelo senador. “O oficialato superior não ocupa cargos de inércia, mas sim funções de alta responsabilidade logística, jurídica e operacional, servindo como o alicerce indispensável para que a ponta da linha funcione com precisão e segurança“, registrou o comando.
O coronel ainda ressalta a trajetória histórica da Polícia Militar potiguar, descrita como uma instituição centenária, e reafirma que, do soldado ao coronel, cada integrante exerce papel fundamental dentro da estrutura de segurança pública.
Associação de oficiais sobe o tom contra Styvenson
A reação não ficou restrita ao comando da PM. A Associação dos Oficiais Militares Estaduais do Rio Grande do Norte também divulgou nota de repúdio e adotou tom ainda mais duro contra o senador. Segundo a entidade, Styvenson “representa o pior nível de oficiais que já tivemos em nossa instituição”.
A nota também o classificou como “limitado intelectualmente”, “desagregador” e “oficial de baixo nível”. O teor da manifestação mostra que a fala do senador foi recebida, dentro do oficialato, como uma agressão institucional e não apenas como crítica isolada.
Francisco do PT acusa senador de usar a PM como “trampolim político”
O caso também ganhou forte repercussão no ambiente político. O líder do governo na Assembleia, deputado estadual Francisco do PT, classificou a fala de Styvenson como “injusta, desqualificada e agressiva”. Ao comentar o episódio, ele disse que o senador, oriundo dos quadros da PMRN, usou a corporação como “trampolim político” para se eleger senador em 2018 e que agora, “numa linguagem popular que a gente usa pelo interior do Estado, agora cospe no prato onde comeu”.
Francisco afirmou que Styvenson desperdiçou a oportunidade de destacar a própria ação política em uma solenidade positiva. “Numa solenidade muito louvável de inauguração de reforma de uma escola em Parelhas, poderia ter utilizado o seu pronunciamento para exaltar a ação que ele proporcionou, mas ele preferiu agredir a instituição de onde ele tem origem”, declarou.
O deputado também associou a fala do senador a um desrespeito mais amplo com os profissionais da segurança pública. “Cometeu um desrespeito com os agentes de segurança pública do Estado, que dão duro e muitas vezes colocam em risco a sua própria vida todos os dias para manter o Rio Grande do Norte agora entre os estados mais seguros do país e o mais seguro do Nordeste”, disse.
Na crítica mais política, Francisco ainda afirmou: “É lamentável que para conquistar votos e likes nas redes sociais, alguém se proponha a fazer uma fala tão agressiva e tão desrespeitosa contra a sua própria instituição de origem”.
Assessoria do senador não respondeu diretamente ao mérito das críticas
Procurada, a assessoria de Styvenson informou que, neste momento, o senador cumpre agenda de fiscalização de recursos e entrega de obras pelo Rio Grande do Norte e que atenderá aos pedidos da imprensa em “momento oportuno”. Até aqui, não houve resposta direta do parlamentar ao conteúdo das notas divulgadas pelo comando da PM, pela associação dos oficiais e por representantes do governo.
O episódio amplia uma tensão que ultrapassa o universo da segurança pública. Quando um senador da República, egresso da própria corporação, afirma publicamente que coronéis “não fazem nada” e “ganham dinheiro fácil”, a repercussão não fica limitada à crítica pessoal. Ela passa a atingir a imagem da instituição, mobiliza o oficialato, provoca reação política e recoloca Styvenson no centro de um debate sobre discurso, autoridade e relação com a base de origem que o ajudou a construir sua projeção pública.
