O Rio Grande do Norte está enfrentando um surto preocupante de esporotricose, uma infecção fúngica que afeta tanto humanos quanto animais, principalmente gatos. Dados da Secretaria Estadual de Saúde Pública (Sesap) revelam que, entre 2016 e abril de 2025, foram notificados 734 casos suspeitos em humanos e mais de 2.700 em animais.
A Região Metropolitana de Natal é o epicentro da doença, mas já há registros em 29 municípios potiguares. A esporotricose é causada pelo fungo Sporothrix, encontrado no solo e em matéria orgânica. A principal forma de transmissão é o contato direto com gatos infectados, através de arranhões, mordidas ou secreções.
Não perca nada!
Faça parte da nossa comunidade:
A médica infectologista Andreia Ferreira Nery, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), enfatiza a importância de tratar os animais para interromper o ciclo de transmissão da doença: “O grande protagonista da esporotricose não é o ser humano, é o gato. Sem tratar os animais, não vamos interromper o ciclo de transmissão”. Além do tratamento, é crucial manter a vacinação em dia. Veja o calendário 2025 de vacinação de cães e gatos e onde vacinar em Natal.
Especialistas apontam que a escalada da doença reflete falhas nas políticas públicas de saúde ambiental e controle de zoonoses. A falta de saneamento, o acúmulo de lixo, o abandono de animais e a ausência de uma abordagem integrada entre saúde humana, animal e ambiental contribuem para o surto, segundo Andreia Nery, coordenadora de um projeto estadual de enfrentamento à esporotricose.
O surto também possui um recorte social e de gênero, com 67,8% dos casos humanos ocorrendo em mulheres. De acordo com a infectologista, essa prevalência reflete o papel cultural das mulheres no cuidado com animais e com a casa, o que as torna mais vulneráveis à infecção. A doença pode causar dor crônica, cicatrizes e afastamento das atividades laborais e domésticas.
Em 2023 e 2024, o RN concentrou 57% das notificações humanas, com picos de transmissão. Em 2025, até 1º de abril, 58 casos já haviam sido registrados, inclusive em novas áreas como Mossoró e Currais Novos. Natal lidera o número de casos em gatos, com 78,4% das ocorrências.
Para combater a crise, a UFRN está liderando um projeto aprovado pelo CNPq, com duração de dois anos e investimento de R$ 494 mil. O projeto visa capacitar 800 profissionais em todo o estado, seguindo a abordagem de “Saúde Única”, que considera a interdependência entre saúde humana, animal e ambiental. As ações incluem a formação de equipes da atenção primária, a elaboração de materiais educativos e visitas a áreas mais afetadas.
O tratamento da esporotricose está disponível no SUS. Em humanos, o medicamento mais utilizado é o itraconazol. Casos mais graves são encaminhados ao Hospital Giselda Trigueira, em Natal. O tratamento em animais também inclui itraconazol, mas requer isolamento, monitoramento constante e descarte correto em caso de morte, preferencialmente por incineração, prática ainda pouco comum no estado.
A Sesap mantém desde 2022 o sistema NotificaRN, que permite o registro da doença por tutores, veterinários e clínicas privadas. Essa ferramenta complementa os dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) e amplia a vigilância epidemiológica.
O RN foi pioneiro na notificação obrigatória da esporotricose em animais desde 2017, uma exigência que só recentemente se tornou nacional. Segundo a professora Andreia Nery, a saúde animal ainda é negligenciada nas políticas públicas: “A saúde animal ainda é negligenciada nas políticas públicas. Se não enxergarmos isso como um problema coletivo, continuaremos tratando apenas a ponta do iceberg”.
Se você está pensando em adotar um felino, confira nosso guia sobre como adotar um pet com responsabilidade.
