Resumo da Notícia
Com a aproximação da Páscoa e o início da Quaresma — período em que muitas famílias aumentam o consumo de peixe por tradição religiosa — autoridades de saúde no Rio Grande do Norte reforçam um alerta importante: casos recentes de intoxicação alimentar associados ao consumo de peixes marinhos de grande porte reacenderam a preocupação com a ciguatera, doença causada por uma toxina natural presente em ambientes tropicais com recifes de coral.
Esse tipo de intoxicação não tem relação com contaminação bacteriana ou deterioração do alimento. O problema está na ciguatoxina, uma substância produzida por microalgas marinhas que entram na cadeia alimentar dos peixes. Em regiões tropicais, o fenômeno pode ocorrer quando pequenos peixes ingerem essas algas e, posteriormente, são predados por espécies maiores.
O infectologista Igor Queiroz, professor de Medicina da Universidade Potiguar (UnP) e integrante da Inspirali — ecossistema responsável pela gestão de 15 escolas médicas no país — explica que a intoxicação ocorre de forma progressiva ao longo da cadeia alimentar marinha.
“Peixes pequenos se alimentam dessas algas e, quando são predados por peixes maiores, a toxina vai se acumulando. Assim, quando uma pessoa consome um peixe de grande porte contaminado, pode desenvolver o quadro de intoxicação”, destaca.
A ciguatera é considerada a forma mais comum de intoxicação não bacteriana ligada ao consumo de peixes marinhos no mundo. No Rio Grande do Norte, registros entre 2022 e 2025 identificaram surtos e episódios isolados relacionados principalmente ao consumo de espécies maiores e predadoras.
Entre os peixes que aparecem com maior frequência nesses episódios estão barracuda (bicuda), cioba, guarajuba, arabaiana e dourado, espécies que vivem em ambientes marinhos e ocupam posições mais altas na cadeia alimentar.
Um dos fatores que tornam a ciguatera particularmente preocupante é que o peixe contaminado não apresenta qualquer sinal visível de alteração. O especialista ressalta que o consumidor não consegue identificar o risco apenas pela aparência do alimento.
“Ele não muda a cor, o cheiro ou o sabor. Além disso, o congelamento e o cozimento não inativam a toxina”, alerta o professor.
Peixes mais indicados para consumo durante a Páscoa
Diante desse cenário, especialistas recomendam priorizar espécies com menor risco de acumular a toxina. Em geral, peixes de menor porte ou provenientes da aquicultura apresentam maior segurança alimentar, especialmente aqueles criados em água doce.
Entre as opções consideradas mais seguras estão:
- tilápia
- tambaqui
- pescada
- merluza
- sardinha
- corvina
- pangasius
Peixes cultivados em sistemas de aquicultura, sobretudo os de água doce, não participam da cadeia alimentar marinha associada à ciguatoxina, o que reduz significativamente a possibilidade de intoxicação.
Outro alimento bastante tradicional nas celebrações pascais é o bacalhau. Nesse caso, o risco específico da ciguatera não existe.
O chamado bacalhau verdadeiro é um peixe de águas frias do Atlântico Norte, fora das regiões tropicais onde ocorre a produção da toxina. Por isso, do ponto de vista dessa intoxicação específica, ele é considerado seguro.
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Ainda assim, especialistas reforçam que a procedência do produto, as condições de conservação e a higiene no ponto de venda continuam sendo fatores fundamentais para evitar outros tipos de contaminação alimentar.
Sintomas da ciguatera e quando procurar atendimento médico
Os primeiros sinais da intoxicação geralmente surgem poucas horas após a ingestão do peixe contaminado. Inicialmente, o quadro pode se assemelhar a uma intoxicação alimentar comum.
Entre os sintomas mais frequentes estão:
- dor abdominal
- náuseas
- vômitos
- diarreia
No entanto, a ciguatera pode evoluir com manifestações mais complexas, especialmente de origem neurológica.
“Em alguns casos, há manifestações neurológicas, como dormência nos lábios, alteração na percepção de quente e frio e sensação de choque nas extremidades. Em situações mais graves, pode ocorrer queda da pressão arterial e alterações cardíacas, exigindo atendimento hospitalar. Diante de qualquer sintoma após o consumo de peixe, a orientação é procurar assistência médica imediatamente”, lembra o docente da UnP/Inspirali, Igor Queiroz.
Tradição alimentar exige informação e cautela
O consumo de pescado faz parte da cultura alimentar de muitas famílias potiguares, sobretudo durante o período que antecede a Páscoa. Justamente por isso, especialistas reforçam que a informação é a principal ferramenta para prevenir casos de intoxicação.
Evitar grandes predadores marinhos de procedência incerta, optar por espécies de menor porte e observar rigorosamente as condições de armazenamento são medidas consideradas fundamentais.
Nesse contexto, o alerta das autoridades de saúde é direto: a escolha do peixe pode fazer toda a diferença para garantir uma celebração segura durante a Semana Santa.
O professor Igor Queiroz resume a orientação aos consumidores:
“A população deve redobrar a atenção na escolha do peixe, evitar grandes predadores marinhos de origem duvidosa e buscar atendimento rápido em caso de suspeita. Informação e cautela são fundamentais para garantir uma celebração segura”.