Resumo da Notícia
Cinco pessoas da mesma família passaram mal em Natal após consumirem peixe do tipo bicuda no almoço de domingo (26), e os casos foram notificados pela Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap) como intoxicação por ciguatera na segunda-feira (28).
Três pessoas precisaram ser hospitalizadas, e duas permaneciam na UTI até esta terça-feira (28), com quadro estável. A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) também informou que investiga dois possíveis surtos na capital potiguar, com sintomas sugestivos da mesma intoxicação após consumo de peixe bicuda.
O fisioterapeuta Mário Saraiva contou que a família comprou o peixe bicuda em uma feira livre no Alecrim, na Zona Leste de Natal, para o almoço de domingo. Cerca de três horas depois do consumo, os sintomas começaram a aparecer.
Segundo ele, o primeiro a passar mal foi o sobrinho-neto, de 3 anos. “Ele começou a se queixar de dores abdominais e, pouco tempo depois, a minha irmã começou a ter a os mesmos sintomas“, contou.
Duas irmãs de Mário e a mãe dele, de 89 anos, precisaram ser hospitalizadas. Em uma das irmãs, os sintomas evoluíram rapidamente. “Levaram ela a um desmaio, queda de pressão, diarreia, vômito e esses sinais fizeram com que ela tivesse 4 por 2 de pressão e uma convulsão“, relatou.
Após o susto, Mário informou que a situação da irmã foi estabilizada. A outra parte do peixe comprado na feira foi recolhida e levada para exame pelas autoridades sanitárias.
O que a SMS e a Sesap investigam sobre os casos
A Sesap confirmou, em nota, que os casos da família foram notificados como intoxicação por ciguatera. Já a SMS de Natal informou que investiga dois possíveis surtos na capital, ambos com sintomas sugestivos de intoxicação por ciguatera após consumo de peixe bicuda, com quatro hospitalizações.
A pasta municipal não confirmou se uma dessas investigações corresponde ao caso da família. Segundo a SMS, a apuração busca mapear a origem do problema e os riscos associados ao consumo do pescado.
“As investigações têm como objetivo coletar informações necessárias ao controle do surto, identificar os agentes etiológicos, identificar a população de risco, fatores associados, provável fonte de contaminação e propor medidas de prevenção e controle. Além de fiscalizar toda a cadeia produtiva, desde o local onde foi preparado o pescado até onde ele foi comprado“, informou a pasta.
A SMS também orientou os consumidores a comprarem pescados apenas em locais confiáveis e devidamente regularizados, para reduzir riscos à saúde.
Por que a ciguatera preocupa no Rio Grande do Norte
A ciguatera é uma intoxicação alimentar causada pela ingestão de peixes contaminados por toxinas produzidas por microalgas que se proliferam em recifes de corais tropicais e subtropicais. Essas toxinas, chamadas ciguatoxinas, podem atingir peixes maiores e carnívoros depois que peixes pequenos consomem microalgas contaminadas.
No organismo humano, a intoxicação pode provocar sintomas gastrointestinais, neurológicos, cardiovasculares e dermatológicos. A Sesap reforça que as ciguatoxinas são incolores, inodoras e insípidas. Elas também não são eliminadas por cozimento, congelamento, salga ou defumação. Uma vez presentes no pescado, permanecem ativas mesmo após preparo e digestão.
As maiores concentrações das toxinas ficam na cabeça, vísceras e ovas dos peixes.
Quantos casos de ciguatera foram notificados no RN
Segundo a Sesap, o Rio Grande do Norte recebeu em 2026 a notificação de 115 casos, entre suspeitos e confirmados, de ciguatera. Em 2025, foram 90 casos confirmados.
O estado é o único do país a fazer notificação compulsória em casos suspeitos da intoxicação. Para a coordenadora de Vigilância em Saúde do RN, Diana Rêgo, esse modelo também ajuda a explicar o aumento de registros.
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“Esse fato contribui também para esse aumento de casos. A gente precisa entender que quanto mais informação é difundida, mais eu chamo a atenção para isso, e os profissionais de saúde ficam mais sensíveis também para possíveis intoxicações por ciguatera“, explicou.
O primeiro surto no estado foi registrado em 2022, quando dez pessoas de um mesmo núcleo familiar foram atingidas após consumo do peixe popularmente conhecido como bicuda, ou barracuda.
Desde então, segundo a Sesap, houve registros envolvendo diferentes espécies, com destaque para barracuda (bicuda), cioba, guarajuba, arabaiana e dourado. Algumas amostras analisadas tiveram confirmação laboratorial da presença de ciguatoxina caribenha.
Quais são os sintomas da ciguatera
De acordo com a Sesap, os sinais da ciguatera podem surgir entre 30 minutos e 24 horas após o consumo do pescado contaminado. Os principais sintomas são:
| Sintomas mais relatados |
|---|
| Dor abdominal |
| Náuseas |
| Vômitos |
| Diarreia |
| Dores de cabeça |
| Cãibras |
| Coceira intensa |
| Fraqueza muscular |
| Visão turva |
| Gosto metálico na boca |
Os sintomas podem persistir por semanas ou meses. A Sesap informou ainda que não existe tratamento específico nem antídoto para a ciguatera.
Como é feito o atendimento aos pacientes
Segundo o médico infectologista Antônio Araújo, o tratamento é voltado ao controle dos sintomas, já que não há antídoto específico para a intoxicação.
“A diarreia, que é um quadro mais frequente nesses pacientes, a gente tem que hidratar. Nós não podemos fazer antidiarreico nem antinflamatório, porque senão você contém mais toxina nos pacientes. Nos pacientes neurológicos, eles podem ter uma neurite periférica e muita dor no corpo, aí você vai fazer um analgésico mais potente“, explicou.
Ele também destacou a necessidade de atenção especial aos quadros cardiovasculares e dermatológicos.
“Os pacientes cardiovasculares têm que ir para o UTI, porque eles podem ter uma bradicardia ou pode ter uma extrassístole levando a um quadro mais grave. E o problema dermatológico, que é um prurido intenso que você pode apresentar por muito tempo, e esse prurido pode ser aliviado com anti-alérgicos comuns que nós temos no comércio farmacêutico“, falou.
O que fazer em caso de suspeita de intoxicação por pescado
A Sesap recomenda que pessoas com sintomas compatíveis procurem imediatamente os serviços de saúde e informem se consumiram pescado nas últimas 48 horas.
Também é importante identificar a espécie consumida e preservar sobras do peixe, acondicionadas e congeladas, para posterior coleta pela Vigilância Sanitária. A orientação inclui ainda evitar pescados associados a relatos de intoxicação por ciguatera, especialmente quando forem de procedência desconhecida.
Em caso de dúvidas sobre a condução do caso, o Centro de Informação e Assistência Toxicológica do RN (CIATOX-RN) funciona em regime de plantão 24 horas pelos telefones 0800 281 7005 e WhatsApp (84) 98883-9155.
