Resumo da Notícia
A possibilidade de formação de um novo cluster petrolífero no Rio Grande do Norte voltou a ganhar força após a renovação da licença de operação para o poço Mãe de Ouro, localizado a 52 quilômetros da costa de Areia Branca.
A avaliação do governo estadual é de que, se a viabilidade comercial do projeto for confirmada, o impacto econômico da produção de petróleo poderá chegar a 30% do Produto Interno Bruto do estado, numa mudança de escala capaz de recolocar o RN em posição estratégica no setor de óleo e gás.
A projeção foi apresentada por Hugo Fonseca, secretário interino de Desenvolvimento Econômico do RN, em um momento em que o estado tenta reverter um quadro de forte perda de produção. Em dezembro de 2025, o Rio Grande do Norte registrou o pior patamar de produção de petróleo e gás em 40 anos, com 33 mil barris, segundo a Agência Nacional do Petróleo. Se o novo cluster offshore se confirmar, a produção poderá alcançar até 100 mil barris por dia, volume de até três vezes maior que o registrado naquele período.
Renovação da licença reacende expectativa sobre o cluster offshore
Na última quinta-feira (26/03), a Petrobras renovou a licença de operação junto ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para a perfuração dos poços Mãe de Ouro, Inhame e Taianga. Essas descobertas em águas profundas, somadas aos poços Pitu Oeste e Anhangá, são vistas como a base para a possível formação do novo polo petrolífero no estado.
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Fonseca afirmou que a estatal já havia sinalizado ao Governo do Estado a presença de ocorrência de petróleo e a necessidade de avançar na perfuração para verificar a consistência econômica do projeto. “A Petrobras já tinha indicado para o Governo do Estado que tinha encontrado ocorrência de petróleo e que precisava perfurar um terceiro poço para dar viabilidade. Para isso, precisava da autorização do Ibama, mas tinha a discussão ambiental”, relata Fonseca.
A Petrobras deve iniciar em junho a perfuração do poço, utilizando uma sonda. O cronograma prevê até três meses de perfuração, seguidos por seis meses de análises técnicas e pela validação da viabilidade comercial junto à Agência Nacional de Petróleo (ANP).
Caso a capacidade de produção seja confirmada, a expectativa é que a Petrobras avance para a construção de uma plataforma voltada à produção esperada. Esse movimento é apontado pelo governo como um marco no retorno dos investimentos mais robustos da companhia no Rio Grande do Norte.
Segundo Hugo Fonseca, a construção dessa plataforma teria um prazo estimado entre três e quatro anos, o que pode abrir caminho para o início das operações entre 2030 e 2031, a depender da velocidade dos contratos e da logística de fabricação da unidade. A expectativa mencionada é de que as operações comecem em 2030, embora o cenário também admita avanço até 2031 conforme o andamento do projeto.
Investimento pode superar R$ 5 bilhões e abrir nova frente industrial
O volume de recursos projetado para esse novo momento do setor pode ultrapassar R$ 5 bilhões. A movimentação deve impulsionar a cadeia de petróleo e gás em duas frentes principais. A primeira é o aporte de R$ 1,5 bilhão destinado ao arrasamento de mais de mil poços terrestres, anunciado em reunião entre a Petrobras e o Governo do Estado na última semana. A segunda envolve outros R$ 2 bilhões voltados ao desenvolvimento do cluster offshore na Margem Equatorial potiguar.
O peso desse projeto ganha ainda mais relevância quando comparado à estrutura econômica já existente. Hoje, o setor de óleo e gás onshore, isto é, em terra, responde por cerca de 40% do PIB industrial do Rio Grande do Norte e participa com 23% da arrecadação de ICMS no estado, segundo levantamento do Sebrae-RN.
Empregos, qualificação e impacto na Costa Branca entram no radar
A possível retomada do protagonismo petrolífero do RN também projeta efeitos diretos sobre o mercado de trabalho. Segundo Rodrigo Mello, diretor do SENAI-RN e do Instituto SENAI de Inovação em Energias Renováveis, o empreendimento pode abrir demanda por profissionais de áreas como automação, mecânica e segurança do trabalho.
“Estamos aguardando o desenrolar da conclusão desses estudos de que trata a licença para que a companhia que vai explorar faça uma previsão de início de suas atividades. Assim que fizer, nós temos uma capacidade instalada muito interessante de profissionais voltados a esse setor”, diz Mello.
A visão é semelhante à do SindiPetro-RN, que enxerga o poço Mãe de Ouro como possível “redenção do estado” em termos de produção e investimentos em óleo e gás. De acordo com o coordenador-geral da entidade, Marcos Brasil, a expectativa é que, após o início da exploração em junho e a confirmação do potencial produtivo, a Petrobras realize Testes de Longa Duração (TLD) para validar a consistência do reservatório.
Esse processo pode provocar a abertura de milhares de empregos diretos e indiretos. Só na fase de perfuração, a estimativa é de 500 a 1.000 pessoas envolvidas. Em uma etapa posterior, uma eventual produção comercial deve exigir sondas permanentes, construção de oleodutos e a contratação de fretes marítimos para transportar o óleo até as refinarias de Guamaré (RN) ou Abreu e Lima (PE).
Marcos Brasil também projeta um efeito em cadeia sobre outros segmentos da economia regional. “Esse movimento vai aquecer o setor hoteleiro e de alimentação na Costa Branca, além de mais que dobrar a arrecadação de royalties e aumentar o ICMS e o ISS para o estado e municípios”, projeta Marcos Brasil.
A leitura que se impõe hoje é clara: o projeto ainda depende da confirmação de viabilidade, mas o potencial econômico já recolocou o Rio Grande do Norte no mapa dos grandes debates sobre petróleo e gás. Se o cluster se consolidar, o estado pode não apenas recuperar parte da força perdida nos últimos anos, mas inaugurar uma nova fase de investimentos, arrecadação, empregos e peso industrial.
