Hospital Walfredo Gurgel atende uma vítima de acidente de moto a cada três horas

O levantamento mostra média semanal de 58 atendimentos de motociclistas acidentados, número próximo da chamada “Barreira dos 60”, considerada crítica para a capacidade operacional do hospital.
Acidentes de moto lotam maior hospital do RN e pressionam cirurgias e ortopedia
Acidentes de moto lotam maior hospital do RN e pressionam cirurgias e ortopedia - Crédito: V-lab / Adobe Stock

Resumo da Notícia

  • O Hospital Walfredo Gurgel recebe uma vítima de acidente de moto a cada três horas.
  • Dados foram revelados pelo Observatório de vigilância sobre violência no trânsito do LAIS/UFRN.
  • O hospital opera no limite crítico, com média semanal de 58 atendimentos.
  • O relatório alerta para a 'Barreira dos 60', ponto crítico de sobrecarga cirúrgica.
  • Detran aponta que metade dos donos de motos no RN não possui CNH.
  • Pesquisadores defendem maior regulação para trabalhadores que usam motocicletas.
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O Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel, em Natal, maior unidade de saúde pública do Rio Grande do Norte, atende em média uma vítima de acidente de moto a cada três horas. O dado foi divulgado nesta terça-feira (5) no Observatório de vigilância sobre violência no trânsito, elaborado pelo Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde (LAIS/UFRN).

A nova ferramenta foi adicionada ao sistema Protocolo Eletrônico do Paciente (PEP Mais RN) e entregue à Secretaria de Saúde Pública do RN (Sesap). O relatório mapeia a pressão causada pelos acidentes de trânsito no principal pronto-socorro do estado, especialmente sobre áreas como cirurgia e ortopedia.

Segundo a Sesap, os dados mostram uma demanda contínua sobre o hospital e evidenciam um problema que ultrapassa o atendimento emergencial. Além das perdas de vidas, os acidentes geram custos elevados para o sistema público de saúde e mobilizam equipes, leitos, estruturas cirúrgicas e materiais de forma permanente.

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O observatório aponta uma média semanal de 58 atendimentos de vítimas de acidente de moto no Walfredo Gurgel. A proximidade com os 60 casos por semana foi chamada no relatório de “Barreira dos 60”, um ponto considerado crítico pela equipe responsável pelo levantamento.

Na prática, o hospital recebe um novo trauma de motos a cada três horas, ininterruptamente. Qualquer variação acima, sobrecarrega as salas de cirurgias e as equipes de ortopedia”, argumentou o pesquisador do LAIS Ricardo Valentim, um dos autores do relatório.

De acordo com o documento, o hospital “opera no limite crítico de sua capacidade”. O levantamento acompanha os dados desde janeiro de 2025. O maior volume de internações foi registrado em dezembro de 2025, com 304 internações no mês e fluxo de 10 pacientes por dia, o que representou aumento de 20%. O menor número foi observado em abril deste ano, com 211 casos.

IndicadorDado apontado
Média de atendimento1 vítima de moto a cada 3 horas
Média semanal58 atendimentos
Ponto crítico citado no relatório“Barreira dos 60”
Mês com maior númeroDezembro de 2025
Internações em dezembro de 2025304
Fluxo no pico10 pacientes por dia
Menor número registradoAbril de 2026, com 211 casos

“O hospital não tem respiro”, aponta relatório

Para o LAIS, o dado mais preocupante não é apenas o total mensal, mas a frequência constante com que novos casos chegam à unidade. O relatório afirma que “o hospital não tem ‘respiro’: a cada 180 minutos, o sistema de trauma é acionado para um novo motociclista.

A recomendação técnica é que o estoque de órteses, próteses e materiais especiais seja planejado para suportar a chamada Barreira dos 60. A orientação busca garantir que, mesmo em semanas com picos acima da média, com 65 ou mais pacientes, o tempo de resposta cirúrgica não seja comprometido.

O documento também é tratado como uma ferramenta para orientar decisões sobre o funcionamento das unidades hospitalares, principalmente em um cenário de demanda repetida e previsível.

Para o pesquisador Ricardo Valentim, o volume de atendimentos revela um problema endêmico associado à violência no trânsito. Ele defende maior atenção das autoridades e políticas públicas voltadas especialmente às pessoas que trabalham utilizando motocicletas.

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Precisa de maior atenção das autoridades, tanto do poder público, da classe política, para que a gente consiga elaborar um processo de maior regulação, principalmente sobre aquelas pessoas que trabalham utilizando motocicletas“, apontou.

Valentim destacou que a motocicleta faz parte da rotina urbana e é instrumento de trabalho para muitas pessoas, mas também aumenta a exposição ao risco. Para ele, esse modelo não pode ser tratado com negligência pelo poder público.

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“Eles trabalham porque precisam exercer essa atividade laboral, evidentemente, mas é um tipo de trabalho que precisa de maior educação no trânsito, maior cuidado, maior atenção e não pode ser negligenciado esse modelo regulatório ou esse processo de regulação, principalmente pelos formuladores de política pública, porque nós estamos aumentando o número de pessoas com sequelas vítimas de acidente, principalmente motos“, reforçou.

O que diz a Sesap sobre os dados

Em nota, a Sesap afirmou que investimentos em tecnologia da informação, como o observatório, permitem “um salto qualitativo na produção de informações” e tornam possíveis análises mais robustas e confiáveis.

A pasta também informou que esse avanço fortalece estudos técnicos e oferece bases concretas para políticas públicas voltadas à redução da violência no trânsito.

A violência no trânsito, por sua vez, já se consolida como uma grave questão de saúde pública. Além do impacto irreparável na perda de vidas, gera um elevado custo para o sistema público de saúde, mobilizando recursos humanos, estruturais e financeiros de forma contínua e crescente“, cita a nota.

A Sesap ressaltou ainda que os dados do Hospital Walfredo Gurgel representam uma parte importante da realidade, mas não a totalidade do problema.

Para a secretaria, os números “devem ser compreendidos como um indicativo relevante, porém parcial, de um problema ainda mais amplo e complexo, reforçando a necessidade de estratégias integradas, intersetoriais e sustentadas por dados qualificados para o enfrentamento efetivo da violência no trânsito no estado.

Metade dos donos de motos não tem CNH no RN, apontou Detran

O cenário se agrava quando os dados hospitalares são observados ao lado de outros levantamentos. Em 2025, o Departamento de Trânsito do RN (Detran) apontou que metade dos proprietários de motocicletas, ciclomotores, motonetas e triciclos não possuía Carteira Nacional de Habilitação (CNH). Mais de 340 mil pessoas estavam nessa situação.

O Detran também informou no ano passado que o número de motos em circulação ultrapassou o número de carros pela primeira vez na história do Rio Grande do Norte. Eram mais de 680 mil motocicletas registradas.

Outro dado reforça o tamanho do problema: a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do RN (Sesed) informou, no ano passado, que mais de 60% das mortes fatais em acidentes de trânsito no Rio Grande do Norte em 2024 envolveram motocicletas.

Acidentes de moto pressionam saúde pública no RN

Os números mostram que os acidentes de moto deixaram de ser episódios isolados para se tornar uma demanda contínua no maior hospital público do estado. A cada três horas, uma nova vítima chega ao Walfredo Gurgel, acionando equipes de trauma, ortopedia, cirurgia e toda a estrutura de urgência.

A leitura feita pelo observatório coloca o tema no centro da saúde pública. Não se trata apenas de trânsito, mas de leitos ocupados, sequelas permanentes, cirurgias, custos hospitalares e vidas interrompidas ou transformadas pela violência viária.

O desafio, apontam os dados, não está apenas dentro do hospital. Ele começa nas ruas, na formação dos condutores, na fiscalização, nas condições de trabalho de quem usa motocicleta diariamente e na capacidade do poder público de transformar informação qualificada em ação preventiva.

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