Resumo da Notícia
O Hospital Regional Alfredo Mesquita Filho, em Macaíba, na Região Metropolitana de Natal, registrou um surto de bactérias multirresistentes entre maio e julho de 2026. Um relatório elaborado após o incidente pela Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) e pelo Núcleo de Segurança do Paciente (NSP) reúne 16 registros de infecção ou colonização envolvendo 15 pacientes, dos quais oito morreram durante a internação.
A presença das bactérias, porém, não significa que elas tenham provocado as oito mortes. A Secretaria de Estado da Saúde Pública do Rio Grande do Norte (Sesap) afirma que a equipe hospitalar não estabeleceu relação causal entre os microrganismos e os óbitos. Segundo a pasta, os pacientes apresentavam diferentes condições clínicas e os casos ainda passam pelos procedimentos de revisão de óbito da unidade.
O relatório pós-incidente, elaborado em 11 de agosto, classifica a ocorrência como “surto de infecção relacionada à assistência à saúde por microrganismos multirresistentes” e aponta que houve transmissão cruzada entre pacientes dentro do hospital.
Dos 16 registros descritos na planilha anexada à investigação, quatro envolvem pessoas que chegaram ao Alfredo Mesquita transferidas de outras unidades de saúde e já apresentavam identificação de bactérias multirresistentes.
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Os outros 12 registros foram associados no relatório à assistência prestada no próprio hospital.
Um dos pacientes aparece duas vezes na planilha, em diferentes datas de coleta, razão pela qual os 16 registros correspondem a 15 pessoas.
Os primeiros episódios foram identificados em maio entre pacientes transferidos. Entre eles estava uma mulher admitida em 10 de maio após passagem pelo Hospital Belarmina Monte, em São Gonçalo do Amarante, com identificação de Pseudomonas aeruginosa. Outra paciente chegou em 27 de maio, transferida do Hospital Lindolfo Gomes Vidal, em Santo Antônio, com Acinetobacter baumannii. O relatório também menciona um paciente proveniente da UPA de Macaíba.
Nos meses seguintes, começaram a aparecer novos registros em pessoas internadas no próprio Alfredo Mesquita. A investigação concluiu que a evolução era “compatível com a ocorrência de transmissão cruzada”.
A secretária adjunta de Saúde do RN, Leidiane Queiroz, confirmou que houve transmissão entre pacientes.
“Teve o que a gente chama de infecção cruzada, que é quando um paciente passa para outro paciente do hospital”, afirmou.
Oito pacientes morreram, mas causa não foi atribuída às bactérias
Entre os pacientes relacionados ao surto, oito morreram. Sete desses óbitos ocorreram em julho, entre os dias 6 e 28.
A Sesap ressalta, no entanto, que essa informação não permite afirmar que as bactérias tenham causado as mortes.
“Tive o cuidado de perguntar à equipe do hospital, e a equipe não atestou que os óbitos foram pelas bactérias”, disse Leidiane Queiroz.
Segundo a secretária adjunta, pacientes internados, principalmente em unidades de terapia intensiva, podem apresentar quadros clínicos graves e múltiplas doenças. Uma bactéria resistente pode representar um fator adicional de risco ou agravamento, mas a atribuição da causa de uma morte depende da avaliação clínica individual.
Os óbitos passam pelas equipes de revisão do próprio hospital, responsáveis por analisar os casos e validar as declarações de óbito. Caso sejam identificados novos elementos, a causa registrada pode ser revista dentro dos procedimentos previstos.
A diretora-geral do Hospital Regional Alfredo Mesquita Filho, Patrícia Emannuely, informou que não se pronunciaria separadamente sobre o episódio e que a unidade segue o posicionamento apresentado pela Sesap.
Investigação aponta falhas estruturais e operacionais
Além de reconstruir a sequência dos casos, o relatório identifica fatores que teriam dificultado a contenção inicial do surto.
As inspeções realizadas pela CCIH e pelo Núcleo de Segurança do Paciente encontraram o que o documento classifica como “severa fragilidade operacional e processual”, inicialmente na UTI e posteriormente na Clínica Médica.
Entre os problemas relacionados estão déficit crônico de recursos humanos, sobrecarga de trabalho e ausência de leitos específicos para isolamento. O documento também registra dificuldades para manter as barreiras de isolamento, falhas de comunicação entre equipes e demora na visualização de resultados de exames e culturas.
Foram apontadas ainda deficiências nas rotinas de limpeza terminal e concorrente, utilização compartilhada de materiais assistenciais entre pacientes e resistência de parte dos profissionais ao cumprimento integral dos protocolos para uso de equipamentos de proteção individual.
O relatório cita também circulação inadequada de acompanhantes entre leitos, além de mobiliário danificado e compartilhado.
Na estrutura física, foram registrados pontos de umidade e mofo em enfermarias, desconformidades em áreas de expurgo, escassez de determinados insumos e problemas na identificação e no manejo de dispositivos invasivos, como sondas e acessos.
A transmissão por contato é uma das principais formas de disseminação de microrganismos multirresistentes dentro dos serviços de saúde. A Anvisa orienta que hospitais reforcem higiene das mãos, precauções de contato, limpeza e desinfecção dos ambientes e equipamentos, além da comunicação entre as equipes.
Pseudomonas, Klebsiella e Acinetobacter foram identificadas
Três bactérias aparecem entre os principais microrganismos relacionados ao episódio: Pseudomonas aeruginosa, Klebsiella pneumoniae e Acinetobacter baumannii.
São bactérias gram-negativas que podem adquirir resistência a diferentes antibióticos e representar um desafio especialmente entre pacientes hospitalizados em estado grave.
O infectologista e professor da UFRN Kleber Giovanni Luz explica que colonização e infecção não significam a mesma coisa. Na colonização, o microrganismo está presente no organismo sem necessariamente produzir doença. A infecção ocorre quando a bactéria provoca manifestações clínicas ou alterações compatíveis com doença.
Essa diferença é fundamental para interpretar os números do hospital: a planilha reúne registros das duas situações e, portanto, a identificação laboratorial de uma bactéria resistente não significa automaticamente que o paciente estivesse doente em razão daquele microrganismo.
Segundo Kleber Luz, a Pseudomonas aeruginosa possui capacidade de sobrevivência em ambientes úmidos e pode causar infecções graves, entre elas pneumonia e infecção da corrente sanguínea, sobretudo em pessoas debilitadas.
A Klebsiella pneumoniae pode fazer parte da microbiota intestinal, mas torna-se perigosa quando alcança outros locais do organismo, podendo provocar infecções urinárias, pulmonares ou da corrente sanguínea.
Já o Acinetobacter baumannii é particularmente relevante no ambiente hospitalar por sua capacidade de apresentar resistência a vários antimicrobianos, o que pode reduzir as opções disponíveis para tratamento.
A Anvisa inclui Klebsiella pneumoniae, Acinetobacter spp. e Pseudomonas aeruginosa entre os microrganismos acompanhados na vigilância nacional de surtos e resistência microbiana em serviços de saúde.
Hospital adotou plano para interromper transmissão
Com o crescimento do número de registros, a unidade elaborou um plano com o objetivo de interromper a transmissão interna e zerar novos casos associados ao hospital.
Entre as providências descritas estão a notificação do surto à Suvisa, Anvisa e demais órgãos envolvidos, além da restrição das transferências de pacientes entre setores.
Também foram adotadas medidas para evitar novas admissões em áreas atingidas durante períodos de contenção, reforçar o rastreamento diário de resultados laboratoriais e identificar nos prontuários os pacientes submetidos a isolamento.
O hospital informou ainda ter reforçado o fornecimento de equipamentos de proteção individual e insumos para higiene das mãos, intensificado procedimentos de limpeza e desinfecção e ampliado as orientações a profissionais, pacientes e acompanhantes.
Outra estratégia foi a organização das equipes em coortes, reduzindo a circulação dos mesmos profissionais entre locais com pacientes colonizados ou infectados e áreas sem registros.
Esse conjunto de ações segue medidas previstas pela Anvisa para prevenção e controle da disseminação de microrganismos multirresistentes em serviços de saúde. A agência considera essenciais a identificação precoce dos surtos, estrutura para isolamento, limpeza adequada, disponibilidade de insumos, capacitação das equipes e monitoramento da adesão às medidas de controle.
Sesap afirma que surto está controlado
A Secretaria de Saúde considera que a situação atual no Alfredo Mesquita está controlada.
Segundo Leidiane Queiroz, dois pacientes relacionados ao episódio permaneciam internados no momento da atualização.
Um deles estava na Clínica Médica e, de acordo com a Sesap, já não apresentava sinais relacionados à transmissão ou colonização e não utilizava mais antibióticos.
O outro permanecia na UTI. Segundo a secretária, o paciente concluiu um primeiro ciclo de antibioticoterapia, mas o infectologista responsável decidiu prolongar o tratamento.
A gestão da unidade informou à Sesap que as medidas de contenção permanecem intensificadas. Também houve bloqueios parciais de leitos: após a saída de um paciente, o espaço passa por limpeza terminal antes de voltar a receber novas internações.
A secretaria afirma ainda que busca garantir acompanhamento de infectologistas na rede estadual, inclusive por telemedicina quando o atendimento presencial não está disponível.
O déficit de recursos humanos merece atenção porque aparece expressamente entre as fragilidades identificadas pela investigação interna.
O Hospital Alfredo Mesquita já havia recebido reforços anteriores para setores de maior complexidade. Em julho de 2025, o Estado convocou 14 profissionais para reforçar a estrutura do hospital de Macaíba, dentro de uma contratação emergencial voltada às UTIs da Região Metropolitana.
Esse registro anterior, entretanto, não permite concluir qual é o déficit atual da unidade. A informação relevante para o episódio de 2026 é a constatação do próprio relatório pós-incidente de que havia deficiência crônica de pessoal entre os fatores associados às dificuldades operacionais.
