O governo brasileiro está avaliando a possibilidade de adquirir usinas nucleares flutuantes para utilização na região amazônica. A proposta foi apresentada pela estatal russa Rosatom, no contexto de uma aproximação crescente entre os dois países no setor nuclear.
A Rosatom é considerada uma gigante global no mercado atômico. Em 2024, cerca de 20% das receitas internacionais da estatal vieram de países que se posicionam contra a Rússia na Guerra da Ucrânia, incluindo os Estados Unidos. A empresa é pioneira na tecnologia de reatores modulares pequenos (SMR), que ocupam espaço reduzido e podem gerar entre 10% e 50% da energia produzida por grandes centrais nucleares.
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Em 2020, a Rússia colocou em operação a única usina flutuante do mundo, montada sobre a barcaça Acadêmico Lomonosov. O projeto foi duramente criticado por ambientalistas e apelidado de “Tchernóbil flutuante”. Apesar das contestações, a estrutura substituiu uma antiga usina de reatores obsoletos e uma termoelétrica poluente no Ártico.
Brasil mantém diálogo técnico com a Rússia
O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, confirmou o interesse brasileiro no projeto.
“Os pequenos reatores, inclusive os modelos flutuantes, podem oferecer soluções seguras e estáveis para regiões de difícil acesso, como a Amazônia. Temos mantido um diálogo técnico produtivo com a Rosatom”, afirmou em entrevista à Folhapress.
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A proposta russa prevê a instalação de até 12 reatores na Amazônia até 2035, com capacidade total de geração de 0,6 GW. Além disso, há projeção de demanda adicional de 0,5 GW com reatores instalados em navios na costa nordestina, uma região que também enfrenta déficit energético.
A complexidade regulatória é um dos desafios para o projeto avançar. A usina flutuante russa levou uma década para entrar em operação, com autorização especial da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), órgão da ONU responsável por regular o setor. Segundo Ivan Dibov, diretor da Rosatom para a América Latina, será necessário alinhar os parâmetros com a AIEA antes de qualquer implementação no Brasil.
Os custos do projeto ainda não foram discutidos, mas Dibov aponta que atualmente uma usina pode ser construída em dois a três anos, com valor dependente do volume contratado. A primeira usina russa começou orçada em US$ 340 milhões e foi finalizada com custos estimados em US$ 870 milhões, considerando valores atualizados.
Região Amazônica ainda depende de energia poluente
O interesse brasileiro nas usinas nucleares flutuantes é motivado pela baixa integração elétrica da Amazônia. Apesar da presença de grandes hidrelétricas, a região permanece amplamente desconectada do sistema nacional e continua dependente de usinas termoelétricas a diesel e da energia importada da Venezuela, especialmente no estado de Roraima.
Esse cenário contrasta com a matriz elétrica nacional, considerada uma das mais limpas do mundo, com aproximadamente 85% de participação de fontes renováveis. As usinas nucleares de Angra 1 e 2 representam apenas 1,2% do consumo nacional de energia.
Além da aplicação na Amazônia, o governo brasileiro estuda utilizar os pequenos reatores para atender setores com grande demanda energética, como datacenters.
Brasil já possui contratos nucleares com a Rosatom
A Rosatom está presente no Brasil desde 2015 e já mantém contratos estratégicos com o país. Em 2023, a estatal russa venceu duas licitações para fornecer urânio enriquecido para as usinas nucleares de Angra durante cinco anos. O contrato é estimado em US$ 140 milhões.
Apesar de dominar tecnicamente todo o ciclo do enriquecimento de urânio e possuir a sétima maior reserva mundial do mineral, o Brasil ainda exporta o “yellowcake” (produto processado) para enriquecimento no exterior. O urânio brasileiro é convertido fora do país e retornado como combustível nuclear.
Essa dependência externa coloca o Brasil em um cenário de vulnerabilidade geopolítica. Antes do acordo com a Rússia, o Brasil dependia do Canadá, integrante da Otan, para o fornecimento.
Além da parceria operacional, a Rússia demonstra interesse em explorar novas reservas de urânio brasileiras, especialmente na Bahia, onde já existe cooperação na mina de Caetité. O país de Vladimir Putin busca ampliar suas fontes de fornecimento para minimizar os riscos de possíveis sanções internacionais.
Atualmente, cerca de 40% do urânio consumido na Rússia é importado, principalmente do Cazaquistão, que detém as maiores reservas conhecidas do mineral.
Angra 3 segue sem definição
A Rosatom chegou a manifestar interesse em participar da conclusão da usina nuclear de Angra 3, projeto paralisado há anos no Brasil. A usina já consumiu cerca de R$ 12 bilhões, mas ainda tem 35% das obras pendentes.
O diretor Ivan Dibov reconhece que o futuro de Angra 3 é incerto e depende de decisão soberana do governo brasileiro.
“Angra 3 é um assunto complexo. Estamos abertos para discutir, temos grande experiência, mas no momento nosso principal interesse é construir usinas com os nossos projetos”, afirmou.
Apesar do foco nos reatores menores, Dibov não descarta oferecer usinas nucleares de grande porte no futuro, especialmente para auxiliar o Brasil a cumprir metas climáticas. A AIEA tem defendido o uso de energia nuclear como alternativa para redução das emissões de carbono.
O setor nuclear vive um momento de retomada mundial. Desde o desastre de Fukushima, no Japão, em 2011, o investimento na área estava em declínio, mas recentemente o Banco Mundial reverteu seu veto ao financiamento de projetos nucleares, sinalizando um novo ciclo de expansão internacional.