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Bólido é visto em várias cidades do RN; entenda o rastro deixado no céu

As imagens mostram principalmente o rastro persistente deixado após a passagem, posteriormente deformado pelos ventos nas altas camadas da atmosfera.
Clarão e rastro no céu do RN foram causados por bólido
Clarão e rastro no céu do RN foram causados por bólido - Crédito: Cedida

Resumo da Notícia

  • Um bólido cruzou o céu do Rio Grande do Norte no fim da tarde de quarta-feira (12), com relatos em Natal e em outras cidades do estado.
  • Um dos registros foi feito por volta das 17h30, na região dos Barreiros, no KM6, em Felipe Camarão, Zona Oeste de Natal.
  • Embora o evento tenha ocorrido no dia do pico das Perseidas, a posição do radiante naquele horário descarta que o meteoro observado em Natal tenha pertencido à chuva.
  • Ainda é necessário reconstruir a trajetória para saber se o bólido estava associado a outra chuva de meteoros ou se foi um meteoro esporádico.

Um bólido cruzou o céu do Rio Grande do Norte no fim da tarde desta quarta-feira (12) e deixou uma longa trilha visível depois de sua passagem. O fenômeno chamou atenção em diferentes pontos do estado, com relatos de moradores de várias áreas de Natal e de outras cidades potiguares.

Um dos vídeos obtidos pelo Portal N10 foi gravado por volta das 17h30 na região dos Barreiros, no KM6, em Felipe Camarão, na Zona Oeste da capital. A gravação não mostra apenas o instante mais luminoso do fenômeno: o que permanece durante boa parte das imagens é justamente o rastro deixado no céu depois que o meteoro já havia passado.

A aparência incomum da trilha, que rapidamente assume formato irregular e parece se dividir em diferentes segmentos, pode levar à impressão de que havia vários objetos no céu. Esse comportamento, porém, é compatível com a deformação de rastros deixados por meteoros muito brilhantes nas camadas superiores da atmosfera.

O horário também ajuda a responder uma das principais dúvidas surgidas depois do avistamento. O bólido apareceu justamente no dia em que a chuva de meteoros Perseidas atingia sua maior atividade anual, mas a coincidência de data não significa que os dois fenômenos tenham relação.

No momento do registro em Natal, o ponto do céu de onde as Perseidas parecem surgir estava cerca de 38 graus abaixo do horizonte. Isso torna incompatível a associação do bólido observado por volta das 17h30 com essa chuva de meteoros.

O que é o bólido visto no céu do RN

Bólido é o termo utilizado para um meteoro excepcionalmente brilhante.

Antes de entrar na atmosfera terrestre, o objeto é chamado de meteoroide. Ao atingir a atmosfera em velocidade muito elevada, começa a interagir violentamente com o ar.

O gás à frente do meteoroide é comprimido e aquecido intensamente. Ao mesmo tempo, o corpo perde material em um processo chamado ablação. O resultado é o fenômeno luminoso que vemos no céu e chamamos de meteoro.

Quando o brilho é muito intenso, utiliza-se a classificação de bola de fogo ou bólido. A American Meteor Society explica que meteoros desse tipo podem ser brilhantes o suficiente para serem observados até durante o dia.

Foi justamente a luminosidade do fim da tarde que tornou o registro no Rio Grande do Norte ainda mais chamativo. Diferentemente de uma estrela cadente comum vista durante a noite, o objeto conseguiu produzir contraste suficiente para ser percebido com o céu ainda claro.

Isso também indica que se tratou de um evento luminoso significativo.

O Nordeste já registrou outros fenômenos semelhantes. Em um caso anterior, um grande clarão provocado por um bólido foi observado em diferentes pontos da região, mostrando como meteoros muito brilhantes podem ser vistos a grandes distâncias.

Por que ficou um rastro no céu depois da passagem

Assistir vídeo

Uma das características mais marcantes do vídeo é que o objeto já não está mais visível durante boa parte da gravação, mas sua passagem continua desenhada no céu.

Meteoros muito brilhantes podem produzir rastros persistentes.

A passagem em alta velocidade excita e ioniza gases atmosféricos e também remove material do próprio meteoroide. Dependendo da altitude, da luminosidade e das condições atmosféricas, essa trilha pode permanecer perceptível depois que o meteoro desaparece.

A própria NASA já documentou bólidos que deixaram rastros persistentes visíveis durante vários minutos.

Em fenômenos observados durante o dia ou no crepúsculo, também pode existir uma trilha formada por partículas resultantes da ablação do corpo.

Por isso, o rastro não deve ser interpretado automaticamente como uma série de fragmentos caindo.

Por que o rastro ficou torto e pareceu se dividir

Depois de formado, esse tipo de trilha não permanece imóvel. Ela está a dezenas de quilômetros de altitude, onde existem correntes de ar com velocidades e direções diferentes das observadas junto ao solo.

Os ventos deformam diferentes trechos do rastro, fazendo com que uma linha inicialmente mais regular passe a apresentar curvas, ondulações e separações aparentes.

A American Meteor Society explica que rastros duradouros podem mudar de formato à medida que são deslocados pelos ventos da alta atmosfera.

É exatamente esse processo que ajuda a interpretar a aparência observada no vídeo registrado em Felipe Camarão.

Isso significa que olhar para a trilha alguns segundos depois e enxergar duas ou três faixas não comprova que o meteoroide tenha se dividido em duas ou três grandes partes.

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Para determinar se houve fragmentação real durante a passagem, seria necessário analisar imagens do próprio bólido enquanto ele ainda estava luminoso, preferencialmente a partir de mais de um ponto de observação.

O bólido não era uma Perseida

O momento do avistamento naturalmente levantou essa hipótese.

As Perseidas atingiram o período de maior atividade entre a noite de 12 e a madrugada de 13 de agosto. A chuva acontece quando a Terra atravessa a corrente de partículas deixada pelo cometa 109P/Swift-Tuttle.

O Projeto EXOSS explica que o radiante das Perseidas fica na constelação de Perseu, com declinação próxima de +58 graus.

Radiante é o ponto do céu do qual os meteoros de uma determinada chuva parecem se originar quando suas trajetórias são projetadas para trás.

Para quem observa do Nordeste brasileiro, Perseu fica muito ao norte e ganha condições melhores de observação somente durante a noite e, principalmente, na madrugada.

No momento em que o bólido foi registrado sobre o RN, entretanto, ainda era fim de tarde.

Considerando a posição de Natal e as coordenadas do radiante das Perseidas, às 17h30 ele estava aproximadamente 38 graus abaixo do horizonte.

A geometria é decisiva: um meteoro pertencente às Perseidas precisa apresentar uma trajetória compatível com aquele radiante.

Se o ponto de origem aparente da chuva está profundamente abaixo do horizonte naquele momento, o bólido visível sobre Natal não pode ser atribuído às Perseidas apenas porque aconteceu no mesmo dia do pico.

Então de onde veio o meteoro?

Essa resposta ainda depende de uma análise mais completa. Existem duas possibilidades principais.

O bólido pode pertencer a outra chuva de meteoros ativa no período ou simplesmente ser um meteoro esporádico.

Meteoros esporádicos não pertencem a uma chuva específica. São partículas que atravessam a órbita terrestre isoladamente e podem entrar na atmosfera em qualquer época do ano.

Para determinar uma associação, os pesquisadores precisam reconstruir a trajetória real do objeto.

Isso normalmente exige registros realizados de diferentes localidades. Quando duas ou mais câmeras registram o mesmo evento de posições suficientemente afastadas, é possível utilizar triangulação para estimar altitude, direção, velocidade e trajetória.

A partir desses parâmetros, pode-se projetar o caminho do meteoro para trás e verificar se ele coincide com o radiante de alguma chuva conhecida.

Sem essa reconstrução, não é cientificamente seguro atribuir o bólido a uma chuva específica.

Relatos em diferentes pontos ajudam a reconstruir a trajetória

O fato de o fenômeno ter sido observado em diferentes áreas do Rio Grande do Norte pode ser importante para a investigação.

Registros feitos em cidades distintas permitem observar o mesmo objeto sob ângulos diferentes.

Quanto mais precisas forem informações como horário, direção para a qual a câmera estava apontada e localização do observador, melhor é a possibilidade de reconstruir o percurso atmosférico.

Por isso, vídeos originais são especialmente valiosos. Arquivos enviados diretamente pela câmera normalmente conservam horário, duração e outros elementos mais úteis do que versões editadas ou republicadas em redes sociais.

Quem registrou o fenômeno também deve preservar o arquivo original.

Ver um bólido não significa que um meteorito caiu no RN

Outra distinção é importante. Meteoro, meteoroide e meteorito não significam a mesma coisa.

O meteoroide é o objeto que viaja pelo espaço.

O meteoro é o fenômeno luminoso produzido quando esse objeto atravessa a atmosfera.

Somente quando parte dele sobrevive à passagem atmosférica e efetivamente alcança o solo é que o material recebe o nome de meteorito.

Até o momento, não há elemento suficiente na apuração para afirmar que fragmentos do bólido observado no Rio Grande do Norte tenham chegado ao solo.

Também não é possível determinar apenas pelo rastro registrado em vídeo se o objeto foi completamente consumido na atmosfera.

Portanto, o termo correto para descrever o que foi observado é bólido.

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