Resumo da Notícia
Há histórias em que a fotografia deixa de ser apenas registro e passa a funcionar como abrigo. Foi isso que aconteceu com a família de Sônia Calegario, que decidiu transformar os últimos dias ao lado dela em memória concreta, diante da notícia de que um câncer agressivo já havia avançado e o tempo seria curto.
O ensaio fotográfico de despedida, feito durante uma viagem em família a Maceió (AL), a quase quatro mil quilômetros de Ji-Paraná (RO), onde eles vivem, nasceu desse desejo de guardar o que ainda era possível tocar: os abraços, os olhares, a presença.
As imagens ganharam grande repercussão meses depois da morte de Sônia, ocorrida em novembro de 2025, mas o peso real daqueles registros está na intenção com que foram feitos. Não havia ali vaidade, pose ou celebração vazia. Havia urgência emocional. Havia uma família tentando segurar, ainda que por instantes, aquilo que sabia que iria perder.
As falas das filhas resumem esse sentimento de forma devastadora. “Eu queria guardar aquele momento num potinho e reviver, reviver e reviver. Saber que a pessoa que você mais ama na sua vida vai morrer é triste, é imensurável a dor. Tem um vídeo e, quando eu vejo ela me abraçando, eu mato um pouquinho da saudade.”
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Em outro trecho, a dimensão da perda aparece com a mesma força. “É uma ferida que dói. Tem dias que eu olho pra foto e sorrio, outros choro. Tem dias que eu não quero acreditar. Minha mãe era minha amiga, ela era a melhor parte de mim aqui na Terra e eu sinto muita falta. É impossível não sentir. Naquele dia [das fotos], eu queria eternizar aquele abraço gostoso dela, eu queria que o tempo parasse.”
As declarações são das filhas Débora e Marcela Calegario, que viveram com a mãe uma despedida consciente, dolorosa e profundamente amorosa.
Viagem foi pensada para que Sônia aproveitasse os últimos momentos
Sônia descobriu o câncer em 2024 e enfrentou a doença por cerca de um ano. O quadro mudou de forma decisiva quando os exames mostraram que o câncer havia se espalhado por várias partes do corpo. A partir dali, a família passou a lidar não mais com uma expectativa de cura, mas com a necessidade de viver intensamente o tempo que restava.
Foi nesse contexto que surgiu a ideia da viagem. A decisão foi guiada por algo simples e profundamente humano: fazer com que Sônia pudesse aproveitar aquilo de que gostava. O mar fazia parte disso. O som das ondas, o ambiente da praia, a experiência de estar perto da água. Por isso, a família saiu de Rondônia e foi até Alagoas.
Marcela relembrou esse momento em um relato que ajuda a entender como a viagem e o ensaio nasceram. “Quando a gente descobriu a metástase, a minha irmã falou: ‘Marcela, vamos fazer uma viagem em família porque pode ser a última viagem. Então a gente precisa aproveitar ao máximo e fazer tudo que ela gosta’. E ela gosta do mar, de ouvir o barulho do mar, das ondas. Nós fomos fazer a viagem, fazer um ensaio fotográfico para poder eternizar e aproveitar ao máximo aquele momento, porque a gente sabia que seriam os últimos”.
Esse depoimento tem ainda mais peso porque Marcela estava grávida do segundo filho quando soube que a mãe já estava em estado paliativo. Diante disso, ela decidiu antecipar o chá de bebê em alguns meses para que Sônia pudesse participar daquele momento também. Era mais uma tentativa de incluir a mãe em memórias que, em breve, deixariam de poder ser construídas com sua presença física.
No dia seguinte à comemoração, Sônia pediu para ser levada ao hospital. Ela morreria cerca de 10 dias depois.
Despedida foi marcada por afeto, consciência e escolha
Os relatos da família mostram que Sônia quis conduzir sua partida à sua maneira, vivendo com intensidade até o fim. As informações publicadas pelo g1 apontam que ela se despediu de todas as pessoas importantes de sua vida, deixou claro o quanto as amava e recebeu de volta esse mesmo amor.
Isso dá um significado ainda maior ao ensaio. As fotos não foram produzidas apenas para “lembrar” dela. Elas foram construídas como parte da própria despedida, com a mãe ainda ali, cercada pelos filhos, pelo marido e por todos os gestos que compõem uma família tentando suportar o insuportável.
Veja algumas fotos do ensaio da família:






Os fotógrafos Priscila Letícia Calú e Pollyanderson Calú foram os responsáveis pelos registros. Priscila contou que, sem saber inicialmente que se tratava de um ensaio de despedida, começou a fotografar e foi sendo atravessada pela intensidade do que estava vendo. Os filhos chegavam um a um, diziam à mãe o quanto a amavam, e o marido também se juntava àquela sucessão de abraços, lágrimas e afeto. Sozinhos ou em grupo, os retratos foram surgindo em meio à dor e ao amor explícito de uma família que sabia o que estava vivendo.
Para a fotógrafa, a experiência foi transformadora. “Fotografar essa família, pra mim, foi muito mais do que um trabalho. Foi diferente de tudo que eu já vivi na fotografia. Foi um aprendizado. Eu entendi que o mais importante é viver o hoje, o agora, porque o passado já foi e o futuro a gente ainda não tem. O que existe é esse momento. E essas fotos são isso: um pedaço do agora que vai ficar pra sempre, guardado na memória e na história da família, para que as próximas gerações também saibam quem ela foi e o amor que existia ali”, comenta Priscila.
É justamente aí que essa história toca tantas pessoas. Não apenas pela tragédia da perda, mas pela lucidez com que essa família decidiu amar até o último instante. Em vez de fugir da dor, eles a atravessaram juntos. E escolheram transformar a despedida em memória viva.
