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Açude Dourado chega a 1,16% e Currais Novos terá abastecimento reduzido a partir de setembro

Com reservatório próximo do colapso, cidade passará a depender integralmente da água captada no Gargalheiras; Caern prevê queda de 20% a 30% na vazão distribuída e prepara manobras na rede.
Açude Dourado Currais Novos
Açude Dourado em Currais Novos - Crédito: Assecom

Resumo da Notícia

  • O Açude Dourado, em Currais Novos, está com apenas 1,16% da capacidade e deverá deixar de contribuir para o abastecimento da cidade em setembro.
  • A partir daí, o fornecimento ficará dependente do Açude Marechal Dutra, o Gargalheiras, localizado em Acari.
  • O Gargalheiras já responde por cerca de 70% da água enviada a Currais Novos, mas a mudança deve provocar redução de 20% a 30% na vazão disponível para distribuição.
  • A Caern prepara manobras entre setores da cidade, manutenção de equipamentos e fiscalização do sistema para administrar o volume disponível.
  • O Dourado iniciou 2026 com 7,66% da capacidade e caiu continuamente, mesmo depois do período chuvoso; em dezembro de 2025 ainda armazenava 13,86%.

O abastecimento de água de Currais Novos entrará em uma fase mais restritiva a partir de setembro. Com apenas 1,16% da capacidade armazenada, o Açude Dourado está próximo de deixar de fornecer água para o sistema e fará com que a cidade passe a depender integralmente do Açude Marechal Dutra, conhecido como Gargalheiras, em Acari.

A mudança não deverá ocorrer sem impacto para os moradores. Documento da Gerência Regional da Companhia de Águas e Esgotos do Rio Grande do Norte (Caern) aponta que a vazão disponível para Currais Novos poderá cair entre 20% e 30%, exigindo manobras na rede para distribuir o volume disponível entre diferentes áreas da cidade.

O Gargalheiras já responde por aproximadamente 70% do abastecimento de Currais Novos. O problema é que, com o esgotamento do Dourado, o sistema de Acari precisará assumir sozinho uma demanda que hoje é compartilhada entre os dois mananciais.

A deterioração vinha sendo acompanhada havia meses. Em junho, a própria Caern já alertava que o Dourado não havia recebido recarga durante o período chuvoso de 2026 e informava que preparava a estrutura necessária para ampliar o envio de água do Gargalheiras caso o reservatório de Currais Novos entrasse em colapso.

Açude perdeu quase todo o volume armazenado em oito meses

Os números mostram uma redução contínua ao longo de 2026. Em janeiro, o Dourado ainda estava com 7,66% da capacidade. O percentual caiu para 6,10% em março, 4,65% em maio e 2,71% em julho.

Agora, o manancial chegou a 1,16%.

PeríodoVolume armazenado
Dezembro de 202513,86%
Janeiro de 20267,66%
Março de 20266,10%
Maio de 20264,65%
Julho de 20262,71%
Agosto de 20261,16%

A queda é ainda mais expressiva quando comparada ao final do ano passado. Em dezembro de 2025, o reservatório armazenava 13,86% da capacidade. Em aproximadamente oito meses, portanto, perdeu mais de 90% do volume proporcional que ainda possuía naquele momento.

A comporta utilizada para retirada da água já está completamente aparente, outro sinal do nível crítico alcançado pelo reservatório.

A última sangria do Dourado ocorreu em março de 2024, quando as chuvas mudaram temporariamente a situação hídrica do Seridó. Dois anos depois, o cenário voltou a ser de escassez.

Chuva de 2026 não conseguiu recuperar o Dourado

A situação atual não decorre apenas do consumo durante o período seco. Um dos principais problemas foi a ausência de recarga suficiente durante os meses em que normalmente se espera maior entrada de água nos reservatórios.

A Caern informou em junho que o Dourado não havia recebido recarga durante o inverno de 2026. Mesmo com precipitações registradas entre fevereiro e maio, o volume continuou diminuindo.

Isso ocorre porque a quantidade de água que chegou ao reservatório não foi suficiente para compensar as retiradas e outras perdas naturais do sistema.

A condição do Dourado já aparecia entre os sinais mais preocupantes do atual cenário hídrico do Seridó. Em agosto, o avanço de um El Niño forte colocou a região em alerta justamente pela baixa recarga acumulada nos principais reservatórios.

Enquanto a Barragem de Oiticica mantém uma reserva elevada, outros mananciais estratégicos do Seridó atravessam situação muito menos confortável. A existência de água armazenada em uma grande barragem também não resolve automaticamente o abastecimento de todas as cidades, porque o recurso precisa de infraestrutura de adutoras e sistemas de bombeamento para chegar aos municípios.

Gargalheiras terá de assumir sozinho o abastecimento

Com a retirada do Dourado da operação, toda a água destinada ao sistema principal de Currais Novos passará a vir do Gargalheiras.

A água é transportada pelo sistema Acari–Currais Novos, que já possui papel predominante no abastecimento da cidade. A Caern avalia agora as vazões da adutora para estabelecer quanto poderá ser enviado de maneira sustentável a partir de setembro.

Esse cálculo é importante porque o Gargalheiras não atende apenas Currais Novos. O reservatório também abastece Acari, onde está localizado.

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A companhia precisa, portanto, administrar simultaneamente a disponibilidade do manancial, a capacidade de transporte da adutora e a demanda dos dois municípios.

É justamente essa limitação operacional que explica a previsão de redução entre 20% e 30% na quantidade de água disponibilizada a Currais Novos.

Redução deve exigir divisão do abastecimento por setores

A queda de vazão deverá alterar a rotina de distribuição dentro da cidade.

A Caern trabalha com a realização de manobras entre diferentes setores, utilizando registros e reservatórios elevados para direcionar a água disponível. Na prática, o fornecimento precisará ser administrado para evitar que determinadas áreas consumam a maior parte da vazão antes que o recurso consiga alcançar regiões mais distantes ou elevadas.

A companhia também prepara manutenção de válvulas reguladoras e de registros utilizados nas manobras da rede. Outra frente prevista é a fiscalização das comunidades rurais atendidas pelo sistema.

Ainda não foi divulgado um calendário detalhado com dias e horários de abastecimento para cada setor de Currais Novos. Esse cronograma deverá depender da vazão efetivamente conseguida com a operação exclusiva do Gargalheiras.

Por isso, não é possível antecipar neste momento quantos dias cada área poderá permanecer com ou sem água.

Qualidade da água também preocupa

O esvaziamento de um reservatório traz um problema adicional: não é apenas a quantidade de água que diminui.

À medida que o volume cai, aumentam os desafios para captação e tratamento. A água restante fica concentrada em uma parcela cada vez menor do manancial, o que pode alterar suas características físicas e exigir maior atenção durante o processo de tratamento.

A Caern já havia instalado um sistema flutuante de captação no Dourado para prolongar sua utilização enquanto ainda houvesse condições técnicas para retirada e tratamento da água.

Com o reservatório chegando ao nível atual, contudo, essa margem operacional fica cada vez menor.

A companhia afirma que continuará adotando medidas para prolongar o funcionamento do sistema e reduzir os impactos sobre a população, mas a dependência integral do Gargalheiras já é tratada como o cenário para setembro.

Seridó enfrenta cenário mais delicado entre os reservatórios do RN

A situação de Currais Novos está inserida em uma preocupação mais ampla com a segurança hídrica do Seridó.

Segundo a Secretaria de Estado do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos, a região teve recarga insuficiente em grande parte dos reservatórios durante 2026. Açudes importantes como Dourado, Gargalheiras, Sabugi, Boqueirão de Parelhas, Esguicho, Passagem das Traíras e Itans atravessaram o período chuvoso sem recuperação significativa.

A principal exceção é Oiticica, que acumulou uma quantidade elevada de água e se tornou a maior reserva hídrica disponível atualmente dentro da região.

A preocupação aumenta diante da perspectiva de fortalecimento do El Niño nos próximos meses. O fenômeno está associado ao aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial e pode contribuir para condições menos favoráveis às chuvas no Nordeste, embora seus efeitos dependam também de outros sistemas atmosféricos.

Para os reservatórios que já chegam ao segundo semestre com baixos volumes, uma nova quadra chuvosa insuficiente em 2027 ampliaria a pressão sobre os sistemas de abastecimento.

Caern reforça pedido para redução do consumo

Enquanto prepara a mudança operacional, a Caern pede que os moradores reduzam desperdícios e priorizem os usos essenciais da água.

Vazamentos em ruas ou irregularidades também podem ser comunicados à companhia pelo telefone gratuito 115, pelo aplicativo Caern Mobile, pela Agência Virtual ou pelo WhatsApp (84) 98118-8400.

A medida ganha importância porque cada perda na rede ou consumo evitável reduz um volume que, a partir de setembro, terá como principal limitação a capacidade do Gargalheiras e do sistema responsável por transportar a água de Acari até Currais Novos.

A definição das manobras por setores deverá ocorrer conforme a Caern conclua as avaliações de vazão e estabeleça as condições de operação exclusiva do Gargalheiras.

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