Dores constantes pelo corpo, cansaço frequente, dificuldade de concentração e alterações no sono costumam ser associados à menopausa por muitas mulheres. O problema é que esses mesmos sintomas também podem indicar fibromialgia — condição crônica que afeta principalmente o público feminino e que, em muitos casos, acaba demorando a ser reconhecida justamente por causa dessa sobreposição de sinais.
Em entrevista concedida ao Portal N10, a reumatologista Dra. Luiza Grandini, professora da pós-graduação em Reumatologia da Afya Educação Médica, explicou que o período da menopausa pode dificultar a identificação correta da doença, atrasando o início do tratamento adequado.
Segundo a Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR), a fibromialgia está entre as principais causas de dor crônica difusa no mundo e acomete predominantemente mulheres, especialmente entre os 30 e 60 anos.
Durante a menopausa, é comum que mulheres apresentem fadiga, redução de energia, alterações do sono, sensação de memória prejudicada e dores no corpo. O desafio, segundo a especialista, é que a fibromialgia também provoca exatamente esse conjunto de sintomas.
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Além disso, as alterações hormonais características dessa fase da vida podem influenciar diretamente a percepção da dor, contribuindo para o agravamento dos quadros em pacientes predispostas.
“Muitas mulheres acabam atribuindo todos os sintomas apenas à menopausa e demoram para procurar uma avaliação médica mais detalhada”, afirmou a Dra. Luiza Grandini. “Isso pode retardar o reconhecimento de outras doenças que precisam ser investigadas.”
O que é fibromialgia?
Atualmente, a fibromialgia é reconhecida como uma síndrome de dor crônica generalizada ligada a alterações no processamento da dor pelo sistema nervoso. O quadro faz parte do conceito de dor nociplástica.
A doença não é inflamatória, não é autoimune e também não possui um exame específico capaz de confirmar o diagnóstico. Esse é um dos pontos que mais geram dúvidas entre pacientes.
“A dor da fibromialgia é real, embora não apareça em exames laboratoriais tradicionais. Existe uma alteração na forma como o sistema nervoso interpreta e amplifica estímulos dolorosos”, explicou a médica. “Isso não significa que a dor seja imaginária ou exclusivamente emocional.”
Na prática, o diagnóstico acontece por avaliação clínica. O médico considera principalmente a presença de dor difusa associada a sintomas como fadiga persistente, sono não reparador e alterações cognitivas.
Por que o diagnóstico exige atenção?
Mesmo sendo um diagnóstico clínico, a fibromialgia exige investigação cuidadosa. Antes de fechar o quadro, os médicos precisam descartar outras doenças que também provocam dores generalizadas e cansaço.
Entre elas estão hipotireoidismo, doenças reumatológicas inflamatórias, neuropatias, distúrbios do sono, miopatias e deficiência de vitaminas.
“Os exames não servem para confirmar fibromialgia. Eles ajudam a excluir outras doenças que podem apresentar sintomas semelhantes e que exigem tratamentos específicos”, esclareceu a especialista. “Por isso, apesar de ser um diagnóstico clínico, a avaliação médica cuidadosa continua sendo essencial.”
Esse cenário ajuda a explicar por que muitas mulheres passam meses — e até anos — convivendo com sintomas sem receber um diagnóstico preciso.
Exercício físico é uma das principais recomendações
Embora não tenha cura, a fibromialgia pode ser controlada com tratamento adequado. As diretrizes internacionais atuais recomendam uma abordagem multidisciplinar, combinando diferentes estratégias terapêuticas.
Entre as medidas consideradas mais eficazes está o exercício físico regular, apontado como uma das intervenções com melhores resultados na redução da dor, melhora do sono, funcionalidade e qualidade de vida.
“A fibromialgia envolve múltiplos fatores, como alterações do sono, hipersensibilidade dolorosa, fadiga, ansiedade e descondicionamento físico. Por isso, o tratamento não depende apenas de medicamentos”, destacou a Dra. Luiza Grandini.
As recomendações incluem exercícios aeróbicos leves ou moderados, fortalecimento muscular progressivo e atividades que favoreçam mobilidade e condicionamento global.
Erro comum pode piorar sintomas
Segundo a especialista, um dos erros mais frequentes entre pacientes recém-diagnosticados é iniciar atividades físicas com intensidade elevada logo no começo do tratamento.
“O erro mais comum é iniciar atividade física com intensidade excessiva. Em muitos casos, a progressão gradual é mais importante do que a intensidade inicial”, orientou.
Além dos exercícios, o acompanhamento psicológico pode fazer parte da estratégia terapêutica em determinados casos, principalmente quando a dor crônica impacta o emocional e a rotina da paciente.
A qualidade do sono e o tratamento de distúrbios associados também entram no plano de cuidado.
“A reabilitação busca melhorar função, condicionamento e tolerância ao esforço de maneira progressiva e individualizada”, concluiu a médica ao Portal N10. “Com orientação adequada, muitos pacientes conseguem recuperar qualidade de vida e funcionalidade.”
