Evaristo Costa recebe cordão do girassol e reacende debate sobre deficiências ocultas no Brasil

Cordões de identificação são aliados na inclusão de neurodivergentes. Símbolos reforçam empatia e pertencimento de pessoas com deficiências ocultas; startup Stardust Zone explica a diferença dos desenhos, legislação nacional e reconhecimento internacional.
Evaristo Costa recebe cordão do girassol e reacende debate sobre deficiências ocultas no Brasil
Girassol, infinito e quebra-cabeças: o que significam os cordões que dão voz a milhões de brasileiros

Resumo da Notícia

O jornalista Evaristo Costa usou suas redes sociais nesta quarta-feira (24/9) para compartilhar relatos de constrangimento enfrentados devido à doença de Crohn, uma condição inflamatória crônica que atinge o intestino, provoca sangramentos e episódios intensos de diarreia.

A enfermidade não tem cura e pode exigir que o paciente precise se deslocar ao banheiro dezenas de vezes ao dia.

Em seu relato, Evaristo destacou a importância do cordão de girassol, um acessório que identifica pessoas com deficiências ocultas e auxilia na comunicação com terceiros em situações de necessidade. “Não é ir uma vez, duas vezes ao banheiro. É, ir 20, 30, 40 vezes”, afirmou.

O apresentador relembrou um episódio durante um voo em que precisou usar o banheiro com urgência, mas não conseguiu furar a fila: “Eu já passei correndo indo ao banheiro do avião, e tinha uma fila e eu não consegui passar na frente. Constrangimento enorme, não preciso dizer o que aconteceu”.

Outro caso ocorreu em um restaurante, quando foi impedido de usar o banheiro pela equipe de segurança: “O segurança veio atrás e disse que eu não poderia usar o banheiro, só se eu consumisse. Eu perguntei, ‘Eu posso primeiro usar o banheiro e depois consumir?’ Ele falou assim, ‘não, primeiro você tem que consumir’”.

Segundo Evaristo, se tivesse utilizado o cordão de girassol nessas ocasiões, parte do constrangimento poderia ter sido evitada: “Se eu estivesse usando o girassol, muito constrangimento teria sido evitado”.

Embora atualmente sua doença esteja em remissão, ele ressaltou que, em períodos de crise, o acessório funciona como uma ferramenta de comunicação rápida. “Ninguém precisa usar esse cordão para ter os seus direitos garantidos, é um uso opcional. Mas ele ajuda a comunicar rápido”, alertou.

Símbolos que representam inclusão

Além do girassol, outros símbolos também são utilizados para reforçar a empatia e o pertencimento de pessoas com deficiências ocultas. São eles:

  • Quebra-cabeças colorido: criado em 1963, no Reino Unido, para representar o autismo, mas que passou a ser questionado por transmitir a ideia de “peça faltando” ou “algo quebrado”.
  • Infinito multicolorido: representa a diversidade e a pluralidade da neurodiversidade, utilizado como símbolo do espectro autista.
  • Girassol: criado em 2016 no aeroporto de Gatwick, na Inglaterra, para identificar passageiros com deficiências ocultas. Hoje é adotado mundialmente.

Segundo Sarah Fernn, fundadora da startup de inclusão Stardust Zone, diagnosticada como autista e com TDAH, “o uso dos cordões é voluntário e viabiliza o acesso a atendimentos prioritários, auxílio na locomoção, informações detalhadas sobre produtos e serviços, por exemplo”. Ela reforça que esses acessórios não substituem documentos comprobatórios, mas funcionam como sinal complementar.

No Brasil, apenas o cordão de girassol possui reconhecimento oficial, instituído pela Lei nº 14.624, de 17 de julho de 2023. O dispositivo legal estabelece o símbolo como identificação nacional de pessoas com deficiências ocultas, como autismo, epilepsia, ansiedade e outras condições não aparentes.

A lista de doenças não aparentes é enorme:

– Transtorno do Espectro Autista (TEA);
– Surdez e outras deficiências auditivas;
– Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH);
– Ansiedade e outros transtornos psiquiátricos;
– Doenças Crônicas;
– Limitações Intelectuais e Cognitivas;
– Cegueira e visão monocular;
– Pessoas ostomizadas;
– Condições neurológicas.

O uso indevido, sem diagnóstico comprovado, pode configurar crime de falsidade ideológica ou estelionato. Por isso, é fundamental que o portador apresente documentos médicos ou laudos quando necessário.

O Censo 2022 do IBGE revelou que o Brasil possui cerca de 2,4 milhões de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Desse total, 1,4 milhão são homens e 1 milhão são mulheres, com maior concentração na faixa etária entre 0 e 14 anos (1,1 milhão de autistas).

Esses números reforçam a necessidade de medidas inclusivas que facilitem o dia a dia dessas pessoas, evitando constrangimentos e garantindo acesso digno a serviços e espaços públicos.

Impacto social dos cordões

Mais do que simples acessórios, os cordões de identificação funcionam como ferramentas de inclusão. Eles sinalizam de forma discreta que a pessoa pode necessitar de apoio em filas, deslocamentos ou interações sociais, ajudando a reduzir julgamentos equivocados e situações constrangedoras.

Sarah Fernn observa que o uso tem também caráter político: “Mais do que facilitar a comunicação, esses elementos reforçam que a pessoa autista tem o direito de existir no mundo do seu jeito — com suas necessidades específicas, tempo próprio, preferências e sensibilidades”.

Com a adoção de símbolos reconhecidos e campanhas de conscientização, cresce a expectativa de que a sociedade brasileira avance na promoção de ambientes mais inclusivos e acessíveis, nos quais relatos como os de Evaristo Costa deixem de ser recorrentes.

Encontrou algum erro nessas informações? Escreva para o Portal N10 https://portaln10.com.br/politica-de-verificacao-de-fatos-e-correcoes/.

Deixe um comentário

Seu e‑mail não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.