Estudo liga uso prolongado de melatonina a risco de insuficiência cardíaca e morte precoce

Apesar da associação observada, não foi comprovada uma relação causal direta entre o uso do hormônio e o surgimento de doenças cardíacas.
Estudo liga uso prolongado de melatonina a risco de insuficiência cardíaca e morte precoce
American Heart Association alerta sobre riscos do uso prolongado da melatonina - Foto: Adobe Stock / Rabizo Anatolii

Resumo da Notícia

O consumo prolongado de melatonina, suplemento conhecido por auxiliar no sono, pode representar risco elevado para o coração e até aumentar as chances de morte em pessoas com insônia. A conclusão é de um estudo preliminar apresentado pela American Heart Association (AHA), que analisou os efeitos do uso contínuo do hormônio ao longo de cinco anos e trouxe novos alertas sobre sua segurança.

Os cientistas revisaram dados médicos de mais de 130 mil adultos diagnosticados com insônia, observando que metade deles utilizava melatonina por pelo menos um ano. O resultado mostrou que o grupo que manteve o uso prolongado apresentou 90% mais chances de desenvolver insuficiência cardíaca em comparação aos que não usavam o suplemento.

O levantamento indicou ainda que essas pessoas tiveram 3,5 vezes mais probabilidade de serem hospitalizadas por complicações cardíacas e quase o dobro de risco de morrer por qualquer causa. Os autores do estudo destacam que, embora a melatonina seja considerada segura e amplamente utilizada, os achados sugerem que o uso contínuo pode não ser tão inofensivo quanto se acreditava.

Segundo o pesquisador Ekenedilichukwu Nnadi, responsável principal pelo estudo, os resultados chamaram atenção por mostrarem um aumento expressivo de desfechos graves. Ele reforçou que a melatonina “é frequentemente prescrita como uma opção segura para melhorar o sono”, mas, diante das descobertas, será necessário reavaliar as orientações médicas sobre o seu uso.

Mesmo assim, os especialistas alertam que a pesquisa ainda não é conclusiva. Apesar da associação observada, não foi comprovada uma relação causal direta entre o uso do hormônio e o surgimento de doenças cardíacas. Nnadi acrescenta que novas investigações são necessárias para testar a segurança da melatonina no sistema cardiovascular.

Como a melatonina age no corpo

A melatonina é um hormônio produzido pela glândula pineal, no centro do cérebro, responsável por avisar ao organismo que é hora de dormir. Ela é liberada quando há escuridão e inibida pela luz, atuando como um relógio biológico que regula o ritmo do sono e vigília.

Quando fabricada em laboratório, recebe o nome de melatonina exógena e é comercializada em cápsulas ou comprimidos. Já a melatonina endógena é a produzida naturalmente pelo corpo. Sua principal função é preparar o organismo para o repouso, promovendo alterações fisiológicas como redução do ritmo cardíaco, da temperatura corporal e da atividade metabólica.

Com o passar dos anos, a produção natural tende a diminuir, e fatores como exposição excessiva à luz azul de celulares e computadores, uso de determinados medicamentos e envelhecimento podem reduzir ainda mais a liberação do hormônio.

Indicações e uso aprovado no Brasil

De acordo com a médica Dalva Poyares, especialista em Medicina do Sono, a melatonina sintética é indicada para casos específicos, como:

  • Transtorno do Espectro Autista (TEA), ajudando na regulação do sono;
  • Deficiência visual, auxiliando no equilíbrio do ritmo circadiano;
  • Distúrbios do ritmo biológico, quando o corpo libera o hormônio em horários inadequados.

A especialista enfatiza que, embora o suplemento possa ajudar a iniciar o sono em casos de insônia, ele não é aprovado como tratamento para o distúrbio.

No Brasil, a Anvisa liberou a comercialização da melatonina em 2021, classificando o hormônio como suplemento alimentar, o que permite sua venda sem receita médica. No entanto, médicos alertam que o uso deve ser feito com acompanhamento profissional, especialmente diante das novas evidências científicas.

Consequências do uso indevido e prolongado

Os especialistas reforçam que a automedicação e o uso prolongado de melatonina podem causar efeitos colaterais relevantes, principalmente em pessoas com problemas cardíacos ou metabólicos. Entre os sintomas mais comuns estão:

  • Sonolência diurna;
  • Tontura e dores de cabeça;
  • Náuseas e fadiga;
  • Pesadelos e dificuldade de concentração.

Essas reações, somadas aos riscos cardiovasculares apontados pela AHA, evidenciam a necessidade de cautela no consumo prolongado do hormônio.

Como estimular a produção natural de melatonina

Antes de recorrer aos suplementos, médicos sugerem hábitos simples que ajudam o corpo a produzir melatonina naturalmente, como:

  • Expor-se à luz solar durante o dia;
  • Reduzir a iluminação artificial à noite;
  • Evitar telas de celulares, TVs e computadores ao menos duas horas antes de dormir;
  • Manter horários fixos de sono e despertar;
  • Criar um ambiente escuro e silencioso no quarto.

Essas medidas contribuem para restaurar o ritmo circadiano e melhorar a qualidade do sono sem riscos à saúde.

Novo alerta da comunidade científica

As descobertas apresentadas pela American Heart Association reforçam que o uso contínuo da melatonina exige vigilância médica e mais pesquisas científicas. O hormônio pode ser benéfico quando utilizado com moderação e sob prescrição, mas o consumo indiscriminado tende a comprometer a saúde cardiovascular.

Enquanto novas evidências não são publicadas, especialistas recomendam que pacientes evitem o uso prolongado e procurem alternativas seguras para tratar distúrbios do sono.

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