Sensibilidade ao frio, aversão ao calor, recusa em usar casacos ou preferência por roupas quentes mesmo nos dias mais quentes do ano. Para muitos pais de crianças com autismo, essas situações são familiares — e desafiadoras. O motivo pode estar nos distúrbios de regulação térmica associados ao Transtorno do Espectro Autista (TEA), uma condição neurológica que vai muito além do comportamento social ou da comunicação.
Embora ainda pouco discutido no Brasil, o tema tem ganhado destaque em estudos internacionais, como na recente publicação da Autism Parenting Magazine, que detalha como essa dificuldade em reconhecer e responder a estímulos térmicos pode afetar o bem-estar físico e emocional de crianças autistas.
Não perca nada!
Faça parte da nossa comunidade:
O que é a regulação térmica e como o autismo interfere?
A regulação térmica é a capacidade do corpo de manter uma temperatura interna estável, mesmo diante de variações no ambiente. Em pessoas com autismo, essa função pode ser afetada por alterações no sistema sensorial e no sistema nervoso autônomo, o que resulta em hipersensibilidade ou hipossensibilidade ao calor e ao frio.
Na prática, isso significa que uma criança pode não perceber que está suando demais ou que está exposta ao frio extremo, mantendo o comportamento como se tudo estivesse normal. É comum que os pais relatem episódios em que a criança se recusa a usar casacos no inverno ou insiste em roupas longas no verão.
Quais os sinais mais comuns?
Os principais sinais de que uma criança com TEA está enfrentando dificuldades com a regulação da temperatura incluem:
- Recusa em usar roupas adequadas à estação;
- Queixas constantes de frio ou calor, mesmo em temperaturas amenas;
- Mudanças de comportamento sem motivo aparente (irritação, choro ou apatia);
- Episódios de sudorese intensa ou calafrios sem febre;
- Preferência por banhos excessivamente quentes ou frios.
É importante destacar que nem sempre essas reações indicam uma doença física. Muitas vezes, são respostas sensoriais à forma como a criança percebe o ambiente térmico ao redor.
Hipersensibilidade e hipossensibilidade: qual a diferença?
Na hipersensibilidade térmica, a criança reage com intensidade ao calor ou frio. Isso pode levar à recusa de sair em dias muito quentes ou ao desconforto extremo em ambientes climatizados.
Já na hipossensibilidade, o corpo não reconhece adequadamente essas variações, o que pode levar à exposição prolongada a condições desfavoráveis — aumentando, por exemplo, o risco de hipotermia ou superaquecimento sem que a criança perceba.
Em ambos os casos, a falta de verbalização típica em parte das crianças com autismo agrava o problema, já que muitas vezes o desconforto não é comunicado de forma clara.
Casos reais mostram como a resposta térmica varia entre irmãos autistas
No artigo da Autism Parenting Magazine, o autor Jeremy Brown compartilha a experiência pessoal com seus dois filhos, ambos diagnosticados com autismo. Enquanto Jeremy prefere temperaturas frias e chega a se recusar a usar casacos no inverno, Joey sente extremo desconforto no frio e exige ambientes e banhos extremamente quentes para se sentir confortável.
A diferença entre os dois mostra como a regulação térmica em crianças com autismo é altamente individual — o que exige atenção redobrada dos cuidadores para adaptar ambientes e rotinas de forma personalizada.
Outro alerta importante do texto é a ocorrência de falsas febres. Crianças com TEA podem apresentar aumento da temperatura corporal sem estar doentes. Isso ocorre devido ao estresse sensorial, à ansiedade ou à resposta fisiológica ao ambiente — confundindo pais e até médicos. Nestes casos, observar o comportamento da criança é essencial: se ela estiver ativa, brincando e sem sinais clínicos de infecção, a febre pode não indicar um problema real.
O que os pais podem fazer?
Embora não haja um tratamento específico para regular a temperatura corporal em crianças com autismo, algumas medidas práticas podem ajudar:
- Manter o ambiente em temperatura agradável, com ventiladores, aquecedores ou ar-condicionado conforme necessário;
- Oferecer roupas versáteis e confortáveis, respeitando as preferências sensoriais da criança;
- Incluir a criança nas decisões sobre o que vestir, sempre que possível, para que ela se sinta segura;
- Observar sinais não verbais de desconforto, como irritação, recusa alimentar, sudorese ou rigidez corporal;
- Monitorar banhos quentes, garantindo que a criança não se exponha a temperaturas que possam causar queimaduras.
Sensibilização e empatia: dois pilares para lidar com o desafio
Para muitos, pode parecer simples resolver o problema apenas “forçando a vestir um casaco” ou “tirando a blusa no calor”. Mas para crianças com TEA, essas imposições podem gerar desconforto profundo, crises e até traumas. A recomendação de especialistas é sempre agir com empatia, paciência e orientação de profissionais, como terapeutas ocupacionais, neuropediatras ou psicólogos com experiência em integração sensorial.
A importância do diagnóstico e da escuta ativa
É essencial que pais, cuidadores e professores saibam reconhecer os padrões de comportamento térmico da criança com autismo. Quando há dúvidas constantes sobre se está doente, sentindo frio ou calor em excesso, uma avaliação multidisciplinar pode fazer diferença, inclusive para evitar riscos à saúde.
Reconhecer que a regulação da temperatura pode ser uma barreira invisível, mas real, é o primeiro passo para promover mais conforto, segurança e qualidade de vida para quem vive com TEA.
Fontes:
- The Link Between Autism and Temperature Regulation. Autism Parenting Magazine. Jeremy Brown. Julho/2025. Disponível em: https://www.autismparentingmagazine.com/autism-temperature-regulation/
