Anvisa emite alerta após alta nas notificações de pancreatite por uso de canetas emagrecedoras

O Brasil investiga seis mortes suspeitas e mais de 200 casos de inflamação do pâncreas relacionados a medicamentos como Ozempic, Saxenda e Mounjaro, todos ainda sob análise técnica da agência reguladora.
Mortes sob investigação levam Anvisa a alertar sobre riscos de canetas para emagrecer
© Caroline Morais/Ministério da Saúde

Resumo da Notícia

O crescimento acelerado do uso de canetas injetáveis para emagrecimento, muitas vezes sem prescrição médica e fora das indicações autorizadas, colocou o sistema de vigilância sanitária em estado de atenção máxima.

Diante do aumento expressivo de notificações de pancreatite, incluindo casos graves e mortes sob investigação, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu um alerta nacional para conter práticas que vêm se espalhando no Brasil, impulsionadas por promessas de emagrecimento rápido e uso estético indiscriminado.

A agência investiga atualmente seis mortes suspeitas por pancreatite em pacientes que utilizavam medicamentos dessa classe, além de mais de 200 notificações de inflamações pancreáticas registradas em seu sistema oficial de farmacovigilância.

Os casos envolvem medicamentos amplamente conhecidos, como Ozempic, Saxenda e Mounjaro, utilizados tanto no tratamento de doenças crônicas quanto, de forma irregular, fora das recomendações médicas.

Por que o alerta foi necessário agora

A pancreatite não é uma reação desconhecida desses medicamentos. Ela já consta nas bulas como efeito adverso raro. O que mudou, segundo a Anvisa, foi o volume e o padrão recente das notificações, que passaram a indicar uso fora da bula, automedicação e acesso a produtos de origem duvidosa.

O alerta, divulgado nesta segunda-feira (9), deixa claro que o risco não está apenas no medicamento em si, mas principalmente na forma como ele vem sendo utilizado. A agência reforça que essas canetas devem ser usadas exclusivamente conforme as indicações aprovadas, sempre com prescrição e acompanhamento de profissional habilitado.

O que está acontecendo com o pâncreas dos pacientes

A pancreatite é uma inflamação do pâncreas, órgão essencial para a digestão e para o controle do açúcar no sangue. É ele que produz enzimas digestivas e hormônios como a insulina, fundamentais para o equilíbrio metabólico do organismo.

Quando o pâncreas inflama, essas enzimas passam a agir contra o próprio órgão, provocando dor abdominal intensa, náuseas, vômitos e alterações metabólicas severas. Em quadros mais graves, a inflamação pode se espalhar, causar falência de órgãos e levar à morte se não houver tratamento rápido e adequado.

Por esse motivo, a Anvisa reforça uma orientação direta: o tratamento deve ser interrompido imediatamente diante de qualquer suspeita de pancreatite e não deve ser retomado caso o diagnóstico seja confirmado.

Atualmente, a maioria das canetas injetáveis é aprovada apenas para o tratamento da obesidade e do diabetes mellitus tipo 2. Há exceções específicas, autorizadas com base em evidências científicas:

  • A semaglutida, presente em medicamentos como Wegovy e Ozempic, também pode ser utilizada para redução do risco de eventos cardiovasculares em determinados pacientes.
  • O Mounjaro (tirzepatida) recebeu aprovação recente para o tratamento da apneia do sono moderada a grave em pessoas com obesidade.

Qualquer uso fora dessas indicações é considerado contraindicado pela Anvisa. A agência alerta que não há evidências suficientes de segurança para outras finalidades, especialmente quando o objetivo é apenas emagrecimento rápido ou estético.

O alerta internacional que elevou o nível de preocupação

A situação brasileira ganhou ainda mais relevância após um alerta emitido no Reino Unido. A Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos de Saúde (MHRA) informou que 19 mortes foram associadas ao uso dessas canetas no país.

Os casos são considerados raros, mas incluíram quadros extremamente graves, como pancreatite necrosante e fatal. O cenário internacional contribuiu para que a Anvisa ampliasse o monitoramento e reforçasse o alerta à população brasileira.

De acordo com dados do Vigimed, sistema oficial que reúne as notificações enviadas à Anvisa, os registros suspeitos de morte por pancreatite estão distribuídos da seguinte forma:

  • 2 casos suspeitos associados ao uso de Ozempic
  • 3 casos suspeitos associados ao uso de Saxenda
  • 1 caso suspeito associado ao uso de Mounjaro

A Anvisa ressalta que todos os casos ainda estão em investigação e que a análise final pode levar meses ou até anos. A agência também alerta que o nome comercial citado na notificação não garante que o produto seja original, havendo risco de medicamentos falsificados no mercado.

O alerta que busca evitar uma tragédia maior

Para especialistas em obesidade, o alerta não deve ser interpretado como uma condenação aos medicamentos, mas como um freio necessário ao uso irresponsável.

A população precisa ser alertada. Esses remédios são importantes e salvam vidas, mas eles podem se tornar perigosos se usados por pessoas sem indicação ou de fontes duvidosas”, afirma Alexandre Hohl, diretor da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso).

O que dizem as farmacêuticas

Novo Nordisk

A Novo Nordisk, responsável por medicamentos como Ozempic, Saxenda e Wegovy, afirmou que o risco de pancreatite já está descrito nas bulas e reforçou a necessidade de acompanhamento médico.

Existe uma advertência de classe para todas as terapias baseadas em incretina (ou seja, agonistas do receptor GLP-1, agonistas duais GIP/GLP-1 e inibidores de DPP-4) referente ao risco de pancreatite. Vários fatores de risco estão implicados no desenvolvimento de pancreatite, incluindo diabetes e obesidade. A pancreatite aguda está incluída como uma reação adversa a medicamentos (RAM) nas bulas de todos os produtos GLP-1 RA comercializados, incluindo Ozempic®, Rybelsus® e Wegovy®, Victoza® e Saxenda®.”

A empresa acrescenta:

Os pacientes devem ser informados sobre os sintomas característicos e orientados a descontinuar o tratamento com semaglutida/liraglutida caso haja suspeita de pancreatite, e sugere-se ter cautela em pacientes com histórico de pancreatite prévia.”


Eli Lilly

A Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, informou que monitora continuamente os registros de segurança e destacou que a pancreatite consta como reação adversa na bula.

A bula de Mounjaro (tirzepatida) adverte que a inflamação do pâncreas (pancreatite aguda) é uma reação adversa incomum e aconselha os pacientes a conversarem com seu médico para obter mais informações sobre os sintomas de pancreatite e informar o médico e interromper o tratamento em caso de suspeita de pancreatite durante o tratamento com Mounjaro.”

Canetas com registro na Anvisa

Nome comercialPrincípio ativoIndicação aprovadaData do registroEmpresa
Soliqua®insulina glargina + lixisenatidaDiabetes tipo 216/09/2002Sanofi Medley
Victoza®liraglutidaDiabetes tipo 229/03/2010Novo Nordisk
Trulicity®dulaglutidaDiabetes tipo 231/08/2015Eli Lilly
Saxenda®liraglutidaObesidade/sobrepeso29/02/2016Novo Nordisk
Xultophy®insulina degludeca + liraglutidaDiabetes tipo 203/04/2017Novo Nordisk
Ozempic®semaglutidaDiabetes tipo 206/08/2018Novo Nordisk
Rybelsus®semaglutida (oral)Diabetes tipo 226/10/2020Novo Nordisk
Wegovy®semaglutidaObesidade com comorbidades02/01/2023Novo Nordisk
Mounjaro®tirzepatidaDiabetes, controle de peso e apneia25/09/2023Eli Lilly
Povitztra®semaglutidaObesidade/sobrepeso12/08/2024Novo Nordisk
Extensior®semaglutidaDiabetes tipo 214/10/2024Novo Nordisk
LiruxliraglutidaDiabetes tipo 224/12/2024EMS
OlireliraglutidaObesidade/sobrepeso24/12/2024EMS

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