A “virada” do corpo acontece mais cedo: pesquisa indica início do declínio físico antes dos 40

A pesquisa aponta que capacidade aeróbica máxima estimada e resistência muscular atingem o pico entre 26 e 36 anos e depois entram em declínio gradual, começando com perdas anuais de 0,3% a 0,6% e acelerando, com o envelhecimento, para até 2,0% a 2,5% ao ano.
A “virada” do corpo acontece mais cedo: pesquisa indica início do declínio físico antes dos 40
Estudo acompanha pessoas por 47 anos e indica que o declínio físico pode começar por volta dos 35 — mesmo em quem se exercita (Foto: De Panumas via Adobe Stock)

Resumo da Notícia

A ideia de que força e condicionamento “só desandam” lá pelos 60 é confortável — e, justamente por isso, perigosa. Um novo estudo longitudinal na Suécia, com acompanhamento dos mesmos participantes por 47 anos, aponta que a capacidade física começa a cair antes dos 40, com um marco recorrente em torno dos 35 anos, e que essa queda tende a acelerar com o avanço da idade, atingindo reduções expressivas até o começo da velhice.

O trabalho foi publicado no Journal of Cachexia, Sarcopenia and Muscle e analisou como aptidão aeróbica, resistência muscular e potência mudam da adolescência aos 63 anos. A conclusão é desconfortável para quem adia cuidados com o corpo, mas não é fatalista: a atividade física não parece “empurrar” o pico para frente, porém reduz a velocidade da perda e ajuda a manter níveis mais altos de desempenho ao longo da vida.

Um retrato raro do envelhecimento: os mesmos participantes, por quase meio século

A base do estudo é o Swedish Physical Activity and Fitness (SPAF), uma coorte populacional iniciada em 1974, quando os participantes tinham 16 anos. Ao todo, foram analisadas 427 pessoas (com 48% de mulheres), todas nascidas em 1958, com avaliações repetidas aos 16, 27, 34, 52 e 63 anos.

O ponto forte — e pouco comum — é que não se trata de “comparar pessoas de idades diferentes no mesmo ano”, mas de observar como as mesmas pessoas mudam com o tempo. Os autores destacam que estudos transversais (feitos em um único momento) podem subestimar a queda real da capacidade física quando comparados a um acompanhamento longo.

Quando o corpo atinge o auge — e como a curva começa a virar

Os dados apontam que, para homens e mulheres, duas medidas centrais tendem a atingir o melhor ponto entre o fim dos 20 e meados dos 30:

  • Resistência muscular e capacidade aeróbica máxima estimada: pico entre 26 e 36 anos em ambos os sexos.
  • Depois, a queda começa de forma mais lenta (0,3% a 0,6% ao ano) e, com o envelhecimento, pode acelerar para 2,0% a 2,5% ao ano.

Na prática, o estudo sugere que o declínio é progressivo e não linear: primeiro discreto, depois mais evidente — e, mais tarde, mais rápido.

Quando o assunto é potência muscular (avaliada por teste de salto vertical), o padrão muda:

  • Homens: pico por volta dos 27 anos.
  • Mulheres: pico por volta dos 19 anos.

A queda também começa devagar (algo como 0,2% a 0,5% ao ano) e depois acelera, chegando a uma perda anual de 2% ou mais. Ao final do período observado, aos 63 anos, a perda acumulada desde o pico variou de 30% a 48%, a depender do tipo de capacidade física analisada e do indivíduo.

Homens e mulheres caem em ritmo parecido — mas as diferenças individuais explodem com a idade

Um dos achados mais relevantes para o debate público é que o estudo encontrou sem diferença entre homens e mulheres na velocidade de declínio. Em outras palavras: há diferenças de desempenho médio em alguns testes, mas o ritmo com que a curva desce é semelhante.

Ao mesmo tempo, o trabalho aponta um fenômeno que costuma passar batido: a distância entre os mais fortes e os mais fracos aumenta muito com a idade. A variância entre indivíduos cresceu de forma marcante, chegando a um aumento relativo de 25 vezes na capacidade aeróbica relativa, quase 5 vezes no salto e três vezes na resistência muscular. Isso reforça uma leitura incômoda, mas realista: o envelhecimento “igual para todos” é um mito — e o custo do sedentarismo tende a aparecer com mais força justamente quando o corpo cobra.

O estudo não vende milagre e evita um discurso simplista. A mensagem é mais dura — e mais útil: o pico parece chegar antes do que a maioria imagina, mas o estilo de vida muda o patamar e a velocidade da decadência.

Os autores registram que pessoas fisicamente ativas no lazer aos 16 anos mantiveram níveis mais altos de capacidade aeróbica, resistência muscular e potência ao longo de todo o período observado. E há um dado que quebra o argumento do “já foi”: quem se tornou mais ativo na vida adulta conseguiu melhorar a capacidade física em torno de 10% (com ganhos estimados que variaram por medida, como aumento em testes de capacidade aeróbica e resistência muscular).

A autora principal, Maria Westerståhl, do Instituto Karolinska, resume de forma direta: “Nunca é tarde para começar a se mover. Nosso estudo mostra que a atividade física pode desacelerar o declínio do desempenho, mesmo que não consiga parar completamente.” Ela acrescenta que o próximo passo é investigar por que o pico tende a ocorrer por volta dos 35 e por que o exercício reduz a perda, mas não consegue anulá-la.

Esse tipo de achado muda a conversa sobre envelhecimento porque antecipa o problema. Se a queda começa antes dos 40, políticas de prevenção e hábitos pessoais não podem ficar presos ao “um dia eu começo”. Ao mesmo tempo, a própria pesquisa derruba o fatalismo: não dá para escapar do declínio, mas dá para chegar nele em melhores condições — e isso, no mundo real, é o que separa autonomia de limitação.

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