Resumo da Notícia
Durante décadas, o carro vermelho representou emoção, velocidade e personalidade. A imagem do esportivo em uma tonalidade intensa, chamando atenção por onde passa, tornou-se parte da cultura automotiva. Nas ruas brasileiras, porém, a escolha predominante mudou: preto, cinza, branco e prata ocupam hoje mais de 80% das buscas por veículos novos e usados.
O vermelho não desapareceu das concessionárias nem perdeu sua ligação com modelos esportivos. Ele apenas deixou de ocupar uma posição central nas preferências do consumidor brasileiro, cedendo espaço a uma paleta mais discreta, formada principalmente por cores consideradas neutras.
O levantamento do Webmotors Autoinsights sobre as cores mais procuradas em 2025 considerou as visitas aos anúncios de veículos novos e usados entre janeiro e dezembro. Os números medem o interesse demonstrado dentro da plataforma, e não necessariamente vendas concluídas ou a participação de cada cor na frota nacional.
Mesmo com essa ressalva, os resultados revelam um padrão claro. Entre os carros zero-quilômetro, as quatro principais cores concentraram 81,27% das buscas. Nos usados, a participação conjunta chegou a 80,4%.
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Preto e cinza lideram entre os carros novos
Nos veículos zero-quilômetro, o preto foi a cor mais procurada em 2025, com 28,01% das visitas. O cinza apareceu logo depois, com 23,32%, superando o branco, que registrou 20,83%.
O vermelho ficou na sexta colocação, atrás também do azul e do prata.
| Posição | Cor | Participação nas buscas por carros novos |
|---|---|---|
| 1ª | Preto | 28,01% |
| 2ª | Cinza | 23,32% |
| 3ª | Branco | 20,83% |
| 4ª | Azul | 9,40% |
| 5ª | Prata | 9,11% |
| 6ª | Vermelho | 5,57% |
| 7ª | Verde | 2,18% |
| 8ª | Laranja | 0,69% |
| 9ª | Amarelo | 0,50% |
| 10ª | Bege | 0,38% |
O resultado mostra que o consumidor de automóveis novos não está apenas escolhendo tons claros. O preto continua forte, enquanto o cinza ganhou espaço como uma opção capaz de combinar discrição com aparência mais moderna.
Branco vence por pequena diferença entre os usados
No mercado de usados, branco e preto praticamente empataram. O branco liderou com 22,21% das visitas, apenas 0,02 ponto percentual à frente do preto, com 22,19%.
Prata e cinza completaram as quatro primeiras posições. O vermelho novamente apareceu em sexto lugar, mas com uma participação maior do que a observada nos carros novos: 7,14%.
| Posição | Cor | Participação nas buscas por usados |
|---|---|---|
| 1ª | Branco | 22,21% |
| 2ª | Preto | 22,19% |
| 3ª | Prata | 18,18% |
| 4ª | Cinza | 17,82% |
| 5ª | Azul | 7,41% |
| 6ª | Vermelho | 7,14% |
| 7ª | Verde | 2,16% |
| 8ª | Marrom | 1,09% |
| 9ª | Bege | 0,91% |
| 10ª | Amarelo | 0,89% |
A presença maior do vermelho entre os usados pode refletir a oferta acumulada de veículos produzidos em períodos nos quais a tonalidade tinha participação mais relevante. Os dados disponíveis, no entanto, não permitem atribuir uma causa única à diferença.
Por que os brasileiros estão escolhendo cores mais discretas?
A resposta não está apenas no gosto pessoal. Ao Portal N10, o especialista em pintura automotiva industrial Maykon Cordeiro explicou que a definição da paleta de um automóvel começa muito antes de o modelo chegar às concessionárias.
“A indústria acompanha o comportamento do mercado, mas também precisa considerar fatores técnicos, como qualidade do acabamento, controle do processo de pintura, disponibilidade de materiais e eficiência produtiva”, afirmou.
Fabricantes precisam decidir quais cores serão oferecidas, em quais versões estarão disponíveis e quanto cada tonalidade representará no volume de produção. Uma cor com baixa procura pode ser restrita a determinados modelos, séries especiais ou configurações mais caras.
Nas fábricas, a variedade também exige controle de pigmentos, processos de aplicação, inspeção, padronização e mudanças na linha de pintura. Isso não significa que produzir uma cor vibrante seja inviável, mas que a escolha comercial precisa justificar a complexidade adicional.
Cinza deixou de ser uma escolha sem personalidade
A ascensão do cinza ajuda a explicar por que a predominância de cores neutras não significa necessariamente que todos os carros estejam visualmente iguais.
A tonalidade passou a receber pigmentos metálicos, efeitos perolizados, variações azuladas, grafite, acabamentos foscos e interpretações próximas do verde ou do bege. Dependendo da incidência de luz, um mesmo veículo pode apresentar profundidade e reflexos diferentes.
“Quando falamos em cinza, preto ou branco, não estamos falando de uma única cor. Existem diferentes pigmentos e acabamentos que mudam completamente a aparência do veículo”, explicou Cordeiro ao Portal N10.
O cinza, antes associado principalmente a uma escolha básica, passou a aparecer com frequência em SUVs, veículos eletrificados e modelos de maior valor. Para as fabricantes, ele pode transmitir modernidade e sofisticação sem exigir do comprador a exposição visual de uma cor mais intensa.
A tendência também aparece fora do Brasil. O relatório global de cores automotivas de 2025 da Axalta colocou branco, preto e cinza nas três primeiras posições mundiais, com participações de 29%, 23% e 22%, respectivamente.
Na América do Sul, o branco liderou com 35%, seguido por cinza, com 23%, prata, com 14%, e vermelho, com apenas 4%.
A análise mundial da BASF sobre as pinturas automotivas de 2025 também identificou crescimento do cinza e recuo do vermelho. Segundo o levantamento, o vermelho representou 3% da produção global analisada.
Cor clara conserva melhor a pintura?
Branco, prata e determinados tons de cinza costumam disfarçar melhor poeira, marcas de água e riscos superficiais porque há menor contraste visual entre o acabamento e parte desses resíduos.
O preto, apesar de liderar as buscas por carros novos, tende a revelar com mais facilidade poeira, pequenos riscos, marcas de lavagem e imperfeições no verniz. Isso não significa que sua pintura seja menos resistente, mas que os defeitos ficam mais visíveis.
Também não é correto afirmar que um carro branco ou prata possui necessariamente pintura mais durável. Segundo Maykon Cordeiro, a resistência depende de um conjunto de fatores.
Entre os principais estão:
- tecnologia e estabilidade dos pigmentos;
- qualidade do verniz;
- preparação da carroceria;
- controle do processo de aplicação;
- condições de secagem e cura;
- exposição ao sol e a contaminantes;
- forma de lavagem;
- manutenção realizada pelo proprietário.
“A durabilidade não depende apenas da tonalidade. A tecnologia dos pigmentos, a qualidade do verniz e o controle do processo industrial são fatores determinantes para a resistência do acabamento”, disse o especialista.
Assim, duas cores podem envelhecer de formas visualmente diferentes mesmo quando possuem proteção semelhante. Em uma pintura escura, pequenas marcas podem ficar evidentes antes de representarem um comprometimento estrutural do verniz.
Escolha também considera a futura revenda
Para parte dos compradores, a cor é escolhida pensando no momento de vender o veículo. Tons com maior procura tendem a alcançar um público mais amplo, enquanto uma pintura muito específica pode reduzir o número de interessados.
Isso não significa que um carro vermelho, verde ou amarelo será obrigatoriamente mais desvalorizado. Modelo, estado de conservação, quilometragem, histórico de manutenção, preço pedido e oferta disponível têm influência direta na negociação.
Em veículos esportivos ou versões especiais, uma cor chamativa pode até ser valorizada por combinar com a proposta do automóvel. Em modelos de grande volume, o consumidor pode preferir uma tonalidade considerada mais fácil de negociar.
Os dados da Webmotors mostram interesse, mas não calculam quanto cada cor adiciona ou retira do preço de revenda. Portanto, não permitem concluir isoladamente que preto, branco ou cinza sempre valorizam mais o carro.
Por que o vermelho continua ligado à Ferrari?
A ligação entre vermelho e desempenho tem raízes históricas no automobilismo. A tonalidade conhecida como Rosso Corsa, ou vermelho de corrida, era usada para identificar os carros italianos nas competições internacionais do início do século XX.
A própria Ferrari explica a história do Rosso Corsa e reconhece que a cor se tornou uma das principais referências visuais da marca, embora existam diferentes tonalidades de vermelho em seu catálogo.
Nos anos 1990, segundo a fabricante, quase 85% das Ferrari saíam em alguma tonalidade vermelha. A associação foi tão forte que “vermelho Ferrari” passou a ser usado popularmente como sinônimo de uma cor intensa, esportiva e desejável.
O vermelho, portanto, conserva um valor simbólico que vai além de sua participação nas buscas. Ele pode ter perdido espaço no mercado de volume, mas permanece ligado a esportividade, emoção e exclusividade.
O vermelho está desaparecendo?
Os números não indicam o desaparecimento da cor, mas uma mudança de posição.
Entre os carros novos pesquisados em 2025, um em cada 18 acessos aproximadamente foi direcionado a um veículo vermelho. Entre os usados, a participação ficou próxima de um em cada 14.
A cor permanece presente, mas deixou de competir diretamente com os tons dominantes. Em muitos catálogos, passou a funcionar como alternativa para quem deseja diferenciar o veículo, enquanto preto, branco, cinza e prata atendem à maior parte da procura.
A transformação também mostra que discrição não significa ausência de identidade. Novos pigmentos, acabamentos metálicos e efeitos de profundidade permitem que cores tradicionais tenham aparências muito diferentes.
O carro continua sendo uma forma de expressão pessoal. A diferença é que, para boa parte dos brasileiros, essa expressão passou a combinar design, praticidade, manutenção e preocupação com a revenda.
