Resumo da Notícia
Os carros elétricos devem alcançar 23 milhões de unidades vendidas no mundo até o fim de 2026, volume equivalente a quase 30% de todos os automóveis comercializados no planeta. A projeção aparece no relatório Global EV Outlook, da Agência Internacional de Energia (IEA), e reforça que a eletrificação deixou de ser um movimento restrito a poucos mercados para se tornar uma mudança estrutural na indústria automotiva.
O avanço, no entanto, não acontece da mesma forma em todos os países. Enquanto a China segue como principal força produtiva e comercial do setor, o Brasil ainda vive uma etapa de descoberta, lançamentos e euforia em torno dos eletrificados. Em entrevista ao Portal N10, o sócio da K.Lume Consultoria, Milad Kalume Neto, avalia que esse entusiasmo tende a se estabilizar conforme o veículo eletrificado se tornar mais comum no mercado.
“Entendo que a euforia irá passar, pois um veículo eletrificado será algo comum. O que irá alterar é a opção do brasileiro em relação a uma marca que atenda e respeite o brasileiro. Que tenha capilaridade, que tenha peça de reposição, que tenha serviço de qualidade, e por aí vai”, destaca o especialista.
O relatório mostra que, no ano passado, as montadoras chinesas respondiam por 60% dos carros elétricos vendidos no mundo. Já as fabricantes europeias e norte-americanas representavam cerca de 15% das vendas globais.
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Esse domínio chinês ajuda a explicar a velocidade com que novas marcas, plataformas e modelos elétricos estão chegando a diferentes mercados. A competição também pressiona preços, amplia a oferta e torna os EVs cada vez mais competitivos em termos de custo nos principais países consumidores.
A pesquisa aponta justamente esse ganho de competitividade como um dos fatores capazes de reforçar a demanda global. Quanto mais o preço se aproxima dos modelos a combustão ou híbridos, maior tende a ser a disposição do consumidor para considerar um elétrico como opção real de compra.
América Latina cresce 75% mesmo com queda global no trimestre
O primeiro trimestre de 2026 teve uma queda global de 8% nas vendas de carros elétricos, mas o recuo não impediu o avanço em várias regiões. A América Latina, por exemplo, registrou crescimento de 75%, indicando que mercados ainda em expansão seguem ganhando relevância dentro da eletrificação.
Esse dado é importante porque mostra uma diferença de ritmo. Nos mercados mais maduros, a base de comparação já é maior e oscilações trimestrais podem aparecer com mais força. Em regiões onde a eletrificação ainda está em construção, como parte da América Latina, o crescimento percentual tende a ser mais expressivo.
No Brasil, esse movimento aparece principalmente no avanço dos eletrificados, categoria que reúne híbridos e elétricos. Entre 2024 e 2025, houve crescimento de 26,2% nas vendas. Já no primeiro quadrimestre de 2026, o salto foi de praticamente 124% em relação ao mesmo período de 2025.
Brasil deve crescer, mas híbridos ainda devem dominar
Apesar do avanço dos elétricos, Kalume Neto vê o mercado brasileiro com uma característica própria. Para ele, o país deve ter crescimento dos eletrificados, mas o padrão nacional ainda tende a ser mais favorável aos híbridos.
Na avaliação do especialista, haverá aumento até a faixa de 23% a 25%, seguido depois por uma queda ano a ano, justamente porque o perfil brasileiro ainda será guiado pelo veículo híbrido.
Essa leitura ajuda a separar a tendência global da realidade local. No mundo, os elétricos caminham para participação próxima de 30% nas vendas totais em 2026. No Brasil, a expansão existe e é forte, mas passa por fatores específicos: preço, infraestrutura de recarga, confiança na marca, assistência técnica, disponibilidade de peças e capilaridade da rede.
Para o consumidor brasileiro, a decisão não será apenas tecnológica. A escolha por um eletrificado deve depender cada vez mais da capacidade da montadora de oferecer suporte no pós-venda e segurança no uso cotidiano.
Frota global pode chegar a 510 milhões de EVs até 2035
A projeção de longo prazo reforça a dimensão da mudança. Segundo o relatório, mesmo sem novos anúncios de políticas públicas, a frota global de veículos elétricos deve chegar a 510 milhões até 2035, sem considerar veículos de duas e três rodas.
Hoje, esse número está próximo de 80 milhões. A diferença mostra que a indústria ainda está no começo de uma transformação de grande escala, com efeitos diretos sobre produção, cadeia de baterias, infraestrutura, oferta de modelos e comportamento do consumidor.
O ponto central é que a eletrificação já não depende apenas de incentivos ou discursos ambientais. Ela passa a ser movida também por competitividade de custo, expansão industrial e disputa entre fabricantes. No caso brasileiro, a velocidade dessa transição deve depender menos da empolgação inicial e mais da entrega concreta das marcas ao comprador.
O que muda para o consumidor brasileiro?
A chegada de mais carros eletrificados ao mercado deve ampliar as opções, mas também exigir mais atenção na compra. O consumidor terá de avaliar não apenas autonomia, potência ou preço de entrada, mas a estrutura que acompanha o veículo depois da venda.
É nesse ponto que a fala de Kalume Neto ganha peso. Quando o eletrificado deixar de ser novidade, a disputa será menos sobre o impacto do lançamento e mais sobre confiança. Marcas com rede ampla, peças disponíveis, serviço de qualidade e atendimento adequado ao público brasileiro tendem a ganhar vantagem.
O mercado avança rápido, mas ainda está em formação. A tendência global favorece os elétricos, a América Latina cresce em ritmo forte e o Brasil mostra expansão expressiva entre eletrificados. Ainda assim, a consolidação dependerá de uma pergunta simples: qual marca conseguirá transformar tecnologia em experiência confiável para o motorista brasileiro?
