BYD mira mais de 2,5 milhões de carros fora da China em 2027; Brasil ganha peso na expansão
Montadora elevou a projeção para as vendas internacionais de 2026 após recorde em agosto; fábrica de Camaçari e aumento da produção fora da China fazem parte da estratégia para sustentar o crescimento.
Resumo da Notícia
- A administração da BYD passou a trabalhar com uma projeção de 1,9 milhão a 2 milhões de veículos vendidos fora da China em 2026, segundo relatório do Deutsche Bank divulgado nesta segunda-feira (7).
- A estimativa anterior era de 1,5 milhão; para 2027, a meta supera 2,5 milhões de unidades no exterior.
- Entre janeiro e agosto, a BYD vendeu 1,162 milhão de veículos fora da China, alta de 85,7% em relação ao mesmo período de 2025.
- Só em agosto foram 189.466 unidades internacionais, recorde mensal e 43% de tudo o que a companhia vendeu naquele mês.
- O Brasil ocupa posição estratégica nessa expansão: a BYD considera o país seu maior mercado fora da China e amplia a produção na fábrica de Camaçari, na Bahia.
A BYD está aumentando rapidamente o peso dos mercados internacionais dentro de sua operação. A administração da companhia agora projeta vender entre 1,9 milhão e 2 milhões de veículos fora da China em 2026 e pretende superar 2,5 milhões em 2027, segundo informações repassadas pela direção da empresa a analistas do Deutsche Bank.
Os novos números foram apresentados nesta segunda-feira (7) em relatório do banco, após uma conversa com executivos da fabricante. A projeção chama atenção porque representa a segunda grande revisão para cima em menos de um ano.
No início de 2026, a BYD trabalhava com aproximadamente 1,3 milhão de vendas internacionais. Em março, elevou o objetivo para 1,5 milhão. Agora, com oito meses de resultados contabilizados, a faixa passou a 1,9 milhão a 2 milhões.
Os números foram atribuídos à administração da BYD pelo Deutsche Bank e publicados pelo CnEVPost, que acompanha os resultados financeiros e comerciais da montadora na China.
A revisão acontece porque a operação fora do mercado chinês cresceu muito mais rápido do que o previsto.
Quase metade das vendas de agosto já aconteceu fora da China
Entre janeiro e agosto, a BYD comercializou 1.162.260 veículos eletrificados nos mercados internacionais, aumento de 85,7% sobre o mesmo intervalo de 2025.
A evolução mensal mostra uma trajetória praticamente contínua:
| Mês de 2026 | Vendas fora da China |
|---|---|
| Janeiro | 100.482 |
| Fevereiro | 100.600 |
| Março | 120.083 |
| Abril | 135.098 |
| Maio | 160.644 |
| Junho | 175.349 |
| Julho | 180.538 |
| Agosto | 189.466 |
Agosto estabeleceu um novo recorde. Foram 189.466 veículos vendidos no exterior, alta de 134,5% na comparação anual.
O número equivale a aproximadamente 43% das 440.293 unidades comercializadas globalmente pela BYD durante o mês. Ou seja: quase um de cada dois veículos vendidos pela companhia em agosto já teve como destino um mercado fora da China.
Essa proporção ajuda a explicar por que a empresa está acelerando fábricas, logística e rede comercial internacional.
O movimento também compensa uma situação bem diferente em seu país de origem. Enquanto as vendas internacionais avançaram 85,7% nos oito primeiros meses de 2026, as vendas domésticas da BYD na China recuaram 32,7%, para aproximadamente 1,506 milhão de unidades no mesmo período.
O resultado global acumulado ficou em cerca de 2,668 milhões de veículos, queda de 6,8%.
A expansão internacional deixou, portanto, de ser apenas uma frente adicional de crescimento. Ela passou a funcionar como contrapeso direto à retração da companhia no mercado chinês.
Meta de 2026 exige manter agosto praticamente todos os meses
A projeção revisada também mostra o tamanho do desafio para o restante do ano.
Com 1,162 milhão de unidades internacionais vendidas até agosto, a BYD precisa acrescentar entre aproximadamente 738 mil e 838 mil veículos nos quatro meses restantes para alcançar a nova faixa de 1,9 milhão a 2 milhões.
Isso representa uma média aproximada de:
- 184,4 mil veículos por mês para chegar a 1,9 milhão;
- 209,4 mil por mês para alcançar 2 milhões.
O resultado de agosto, de 189.466 unidades, já seria suficiente para manter a companhia próxima da parte inferior da nova projeção caso fosse repetido entre setembro e dezembro.
Para atingir os 2 milhões, entretanto, será necessário continuar aumentando o ritmo.
Segundo o relatório do Deutsche Bank, os próprios executivos da BYD afirmaram que a capacidade de transporte marítimo limitou as vendas internacionais neste ano. Em outras palavras, a empresa avalia que poderia ter exportado mais veículos se tivesse disponível uma estrutura logística maior.
A resposta passa por navios próprios e, principalmente, por fabricar mais carros perto dos mercados onde serão vendidos.
Brasil está no centro dessa mudança
Nesse desenho, o Brasil tem um papel particularmente relevante.
A própria BYD afirma que o país já se tornou seu maior mercado fora da China. A operação brasileira também deixou de depender exclusivamente da importação depois da entrada em funcionamento do complexo industrial de Camaçari, na Bahia.
A fábrica iniciou sua operação com capacidade prevista de 150 mil veículos por ano, aumentando para 300 mil numa etapa posterior. Durante a inauguração, em outubro de 2025, o fundador e CEO Wang Chuanfu anunciou ainda a intenção de elevar a capacidade futura para até 600 mil veículos anuais.
Hoje, Dolphin Mini, King e Song Pro já saem da linha baiana.
A produção local tem uma função dupla dentro da estratégia da fabricante: aumentar a capacidade de entrega no Brasil e reduzir a dependência de automóveis completos trazidos da China.
Isso se torna mais relevante à medida que as tarifas de importação de veículos eletrificados avançam no país.
A BYD afirma que, em 2026, Camaçari passa por uma etapa de nacionalização que inclui implantação das áreas de estamparia, soldagem e pintura, além da entrada de fornecedores locais.
O resultado comercial ajuda a justificar essa expansão. Em agosto, a BYD registrou 24.467 emplacamentos no Brasil, seu maior volume mensal até então, atingindo 9,3% do mercado de automóveis e comerciais leves. No acumulado de janeiro a agosto, foram 146.930 unidades.
Para o comprador brasileiro, essa escala também começa a aparecer no número de produtos disponíveis. A linha vai de modelos abaixo de R$ 120 mil, como o Dolphin Mini, até SUVs e sedãs de maior porte, enquanto a Denza amplia a presença premium do grupo — caso do Z9 GT de três motores e aproximadamente 1.156 cv.
BYD quer produzir cada vez menos carros de exportação na China
A fábrica brasileira faz parte de um movimento maior.
Na Indonésia, uma nova unidade já começou a produzir. Na Hungria, a previsão citada pelo Deutsche Bank é de início da montagem entre novembro e dezembro de 2026.
A BYD também avalia outras localidades para ampliar sua capacidade industrial internacional.
Essa transformação altera a própria definição de “exportação” nos próximos anos. Um BYD vendido fora da China poderá ter sido produzido no Brasil, Europa, Sudeste Asiático ou outra região, reduzindo a dependência do transporte marítimo entre fábricas chinesas e mercados consumidores.
A estratégia ajuda a contornar tarifas comerciais, diminui distâncias logísticas e permite adequar produtos às exigências regulatórias e aos hábitos locais.
O Brasil oferece um exemplo dessa adaptação. A engenharia brasileira participou do desenvolvimento do sistema DM-i Flex, que permite aos híbridos plug-in produzidos no país trabalhar com gasolina e etanol — solução criada especificamente para uma característica do mercado nacional.
Vender fora da China também é mais rentável
O crescimento internacional não interessa à BYD apenas pelo volume.
Segundo a administração da companhia, o lucro por veículo vendido no exterior ficou em aproximadamente 20 mil yuans no primeiro semestre de 2026, cerca de US$ 2,95 mil pela conversão utilizada no relatório.
A empresa espera manter essa rentabilidade relativamente estável no curto prazo, mesmo com os investimentos necessários para abertura de concessionárias, instalação de fábricas e expansão logística.
Isso ajuda a explicar a agressividade da meta para 2027.
Passar de aproximadamente 1 milhão de veículos internacionais vendidos em 2025 para mais de 2,5 milhões em 2027 significaria multiplicar por cerca de 2,4 vezes o volume externo em apenas dois anos.
| Ano | Vendas internacionais da BYD |
|---|---|
| 2023 | 242.765 |
| 2024 | 417.204 |
| 2025 | 1.046.083 |
| Jan–ago/2026 | 1.162.260 |
| Meta atual 2026 | 1,9 a 2 milhões |
| Objetivo 2027 | mais de 2,5 milhões |
Em oito meses de 2026, a empresa já vendeu fora da China mais veículos do que durante todo o ano de 2025.
Flash Charging também entra na ofensiva internacional
A expansão física será acompanhada por infraestrutura.
A administração reafirmou a intenção de implantar 6 mil estações de recarga ultrarrápida Flash Charging fora da China, tecnologia desenvolvida para trabalhar com a nova geração da bateria Blade e com veículos capazes de receber potências extremamente elevadas.
Em julho, executivos da BYD detalharam uma divisão planejada de aproximadamente 3 mil pontos na Europa, 2 mil nas Américas e 1 mil na região Ásia-Pacífico, com objetivo divulgado de concluir essa rede internacional até março de 2027.
A disponibilidade dos veículos compatíveis ainda enfrenta uma limitação industrial. Segundo a administração, existe uma carteira de aproximadamente 250 mil pedidos de modelos capazes de utilizar o Flash Charging, enquanto a oferta da bateria Blade de segunda geração continua restrita.
A expectativa informada aos analistas é eliminar esse gargalo no primeiro trimestre de 2027.
Na China, a meta é chegar a 20 mil estações Flash até o final deste ano, acrescentar outras 30 mil em 2027 e mais 40 mil em 2028.
Camaçari prepara terceiro turno
No Brasil, a expansão já tem uma próxima etapa definida.
A BYD informa que a fábrica baiana ultrapassou 4.100 funcionários e está recrutando mais 1.600 trabalhadores para iniciar um terceiro turno. A intenção declarada é colocar a linha de montagem em funcionamento durante 24 horas por dia ainda em 2026.
Paralelamente, os prédios de estamparia, soldagem e pintura deverão entrar em operação para aumentar a nacionalização dos veículos produzidos no complexo.
São essas etapas — mais turnos, fabricação completa e aumento da capacidade industrial — que determinarão quanto Camaçari conseguirá contribuir para a nova meta internacional da BYD a partir de 2027.


